[weglot_switcher]

Defesa, Justiça e Habitação à frente

São as prioridades definidas pelo Governo para o próximo ano. Três áreas governamentais a crescerem de forma robusta, acima de 10%, mesmo com um orçamento minimalista, para garantir uma passagem sem sobressaltos na Assembleia da República.
21 Outubro 2025, 07h42

Os ingleses têm uma expressão que se pode aplicar aos orçamentos, especialmente do Estado: “Put your money where your mouth is”, o que pode ser livremente traduzido por “ponha o seu dinheiro no que diz”, ou suporte com dinheiro o que diz que quer fazer. Seguindo isto, o Governo vai por o nosso dinheiro na Defesa, na Justiça e nas Infraestruturas e Habitação.
A proposta de Orçamento do Estado para 2026 (OE2026) traduz um equilíbrio delicado entre contenção e resposta política. A despesa total consolidada da Administração Central sobe 7,2%, para 245.121,6 milhões de euros, a um ritmo bem acima dos 4,8% previstos para o conjunto da economia, e a despesa efetiva não consolidada atinge 154.021,3 milhões. Deste total, 136.746,9 milhões destinam-se a atividades correntes e 17.274,4 milhões a projetos. É um aumento que reflete a recuperação da execução do Plano de Recuperação e Resiliência e o reforço de programas plurianuais em setores críticos da governação.
Do lado das receitas, o Governo projeta um aumento de 4,4%, inferior ao da expansão da economia, para 67.065 milhões de euros, impulsionado sobretudo pelo IRS e pelo IVA. Com esse reforço, as Finanças estimam encerrar o ano com um excedente de 0,1% do produto interno bruto (PIB), mantendo o rácio da dívida pública em trajetória descendente. “O equilíbrio orçamental é compatível com um Estado mais robusto”, declarou o ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, ao apresentar o documento.
A arquitetura financeira do orçamento reflete esta ambição contida: 61,9% do investimento é suportado por verbas nacionais e 38,1% por fundos europeus. O Governo insiste que o ciclo de 2026 deve consolidar a execução do PRR e do Portugal 2030, acelerando a reindustrialização e a coesão territorial. Na prática, a estratégia é manter a confiança externa enquanto responde a pressões internas — da habitação às pensões, da defesa ao emprego.
Esta é a essência da prudência expansiva: um orçamento que cresce sem romper o equilíbrio, que investe sem prometer revoluções, segundo quem o propõe. O contexto político ajuda — uma maioria relativa que depende de convergências parlamentares e uma conjuntura europeia que premeia a disciplina. O resultado é um documento que quer ser, antes de tudo, previsível.

Ganhadores e perdedores do novo ciclo
O mapa orçamental mostra uma redistribuição clara de prioridades. A Defesa Nacional, de Nuno Melo, emerge como a principal ganhadora, com um aumento de 14,8%, para 3.771,9 milhões de euros.
O reforço antecipa a meta da NATO de 2% do PIB em despesa militar e destina pelo menos 20% desse valor a investimento estruturante, investigação e equipamento. É a tradução direta do contexto geopolítico e do alinhamento estratégico com os aliados, num momento em que a segurança regressa ao centro da política europeia.
Logo a seguir surge a Justiça, tutelada por Rita Alrcão Júdice, que cresce 13,5%, para 2.027,5 milhões.
As verbas destinam-se ao reforço de pessoal, modernização de tribunais e renovação do parque prisional. O objetivo é quebrar o ciclo de subinvestimento e lentidão processual, devolvendo ao sistema a capacidade de resposta que há muito se esgotara. É a resposta a um crítica sistemática à limitação da intervenção num setor em que os ativos se degradam. O aumento reflete uma tentativa de devolver credibilidade institucional a uma das áreas mais sensíveis do Estado.
As Infraestruturas e Habitação, de Miguel Pinto Luz, registam igualmente uma expansão superior a 10%. Vão estar na berlinda, com o pacote Construir Portugal, de resposta à crise habitacional. A prioridade vai para a execução do programa “1.º Direito” e para a conservação da ferrovia e da rede rodoviária. É uma das pastas em que o Governo pretende demonstrar visibilidade política, num país onde encontrar casa continua a ser um drama e onde o investimento público esteve congelado por demasiado tempo.
O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, liderado por Rosário Palma Ramalho, reforça o peso na despesa corrente, sustentado na atualização das pensões e complementos sociais e no reforço das políticas ativas de emprego. Também estará no centro político com as medidas em discussão na concertação social.
O envelhecimento demográfico e o aumento do custo de vida mantêm esta área como uma das mais pressionadas. É uma aposta social que reforça o discurso de “proteção dos rendimentos” e garante uma almofada política num ano de incerteza económica.
O Ensino Superior, Ciência e Inovação, de Fernando Alexandre, cresce 8,2%, para 3.925 milhões, concentrando 761 projetos — o maior número de todo o orçamento. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia é o principal veículo de execução, num esforço de consolidar a capacidade científica e de atrair talento para o país.
No lado oposto do espectro estão as áreas que perdem expressão relativa. A Agricultura e Pescas, embora aumente nominalmente 25,3%, vê os subsídios recuarem 44% e as transferências de capital baixarem 9,5%. O resultado é uma subida aparente, que esconde menor investimento produtivo e mais despesa corrente. O setor continua a reclamar por uma política de longo prazo e por uma articulação europeia mais eficaz, sobretudo nas regiões de baixa densidade.
O Ambiente e Energia tem um crescimento de 4,9%, para 2.493,1 milhões, alinhado com a média global da despesa pública. Apesar da relevância climática, o ritmo de execução continua condicionado pela dependência de fundos europeus e pela dispersão de programas.
Já as estruturas associadas aos órgãos de soberania e à Presidência do Conselho de Ministros, uma missão orçamental e não um ministério, registam uma variação residual de menos 0,8%, totalizando 7.271,8 milhões. A estabilidade nesta rubrica reflete sobretudo custos fixos e ausência de novas políticas públicas.

Estado mais robusto, mas pouco transformador
O OE2026 é um documento de reafirmação do Estado. Reforça a Defesa num contexto de insegurança global, dá fôlego à Justiça, relança o investimento em Infraestruturas e sustenta o pilar social através do Trabalho e da Segurança Social. A aposta no Ensino Superior e na Ciência revela continuidade de estratégia, e o excedente orçamental de 0,1% oferece ao Governo o argumento político de que é possível crescer sem desequilibrar, assim se cumpra.
Mas é também um orçamento de gestão, mais do que de visão. Falta-lhe o impulso reformista que poderia traduzir a estabilidade em transformação estrutural: produtividade, simplificação fiscal, capitalização empresarial e eficiência administrativa. O Executivo prefere a previsibilidade à disrupção.
No balanço, as áreas mais reforçadas — Defesa (+14,8%), Justiça (+13,5%) e Infraestruturas e Habitação (+10%) — concentram o esforço de investimento e simbolizam a prioridade do Governo em reconstituir a capacidade do Estado. A Agricultura, o Ambiente e as estruturas de soberania mantêm-se em terreno neutro. O resultado é um orçamento sólido, prudente e politicamente hábil, que cumpre o essencial: gastar mais, sem deixar de parecer contido.
O Ensino Superior, Ciência e Inovação cresce 8,2%, para 3.925 milhões, concentrando 761 projetos — o maior número de todo o orçamento. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia é o principal veículo de execução, num esforço de consolidar a capacidade científica e de atrair talento para o país.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.