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Depois do pior apagão europeu em 20 anos, Portugal tem de testar mais cenários extremos

Esta foi uma das conclusões principais do relatório final de um painel de 50 peritos ao apagão de 28 de abril que deixou Portugal e Espanha às escuras durante muitas horas.
Um grupo de pessoas aguarda o restabelecimento da luz no Bairro da Liberdade, devido ao apagão que afeta Portugal de Norte a Sul e outros países europeus, em Lisboa, 28 de abril de 2025. O Governo criou um grupo de trabalho para acompanhar o apagão que afeta Portugal de Norte a Sul e outros países europeus e aponta que o problema “terá tido origem” fora de Portugal. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
20 Março 2026, 09h31

Um painel de peritos europeus exige mais testes ao arranque do sistema elétrico de Portugal e Espanha depois do apagão de 28 de abril de 2025.

Em particular, as centrais em regime de arranque autónomo (conhecido por black-start) devem ser mais testadas. “Há uma forte necessidade de testar muito regularmente para garantir que funcionam quando é preciso”, disse hoje Klaus Kaschnitz, o co-líder do painel de peritos que investigaram o incidente.

Entre as recomendações feitas os peritos pedem mais controlo à “voltagem, oscilações, desligamentos, plano de defesa do sistema (modernização para integrar variações de voltagem rápida), restauração do sistema (capacidade black-start, teste, comunicação, novo arranque)”.

Em Portugal, duas centrais black-start atuaram: a barragem de Castelo de Bode, distrito de Santarém, e a central a gás em Gondomar, distrito do Porto. o Governo já prometeu acrescentar mais duas centrais para o país ter um total de quatro centrais com arranque autónomo.

Portugal teve uma desvantagem face a Espanha. As suas centrais tivera de arrancar totalmente sozinhas, face ao sistema espanhol que arrancou com a ajuda da eletricidade de França e de Marrocos.

Os peritos também defendem que sistema de comunicações devem ter a capacidade de funcionar durante 24 horas em cenários extremos.

Sobre o reinício do sistema elétrico, os peritos também assumiram que querem investigar mais.

“Este tipo de blackout nunca aconteceu antes. Não há uma única causa há vários fatores”, disse, por sua vez, Damian Cortinas, presidente do ENTSO-E, que junta as empresas europeias de transporte de eletricidade.

Questionado sobre responsabilidades da gestora da rede em Espanha, a Red Electrica, os responsáveis evitaram apontar dedos e insistiram que houve vários fatores.

Depois do apagão, a restauração do sistema português demorou 12h contra os 16h de Espanha, com o restauro total em Portugal a estar concluído pelas 00h00 de 29 de abril.

No relatório, o painel de 49 peritos escreveu: “A investigação concluiu que o apagão aconteceu por causa de vários problemas que aconteceram ao mesmo tempo. Entre eles estavam oscilações na rede elétrica, falhas no controlo da tensão, diferenças na forma como a tensão é regulada, quedas rápidas na produção de eletricidade e desligamentos de geradores em Espanha. Como resultado, a tensão subiu rapidamente e muitas centrais foram desligadas em sequência, o que levou ao apagão em Portugal e Espanha”, segundo or relatório hoje divulgado.

Entre as várias recomendações feitas pelo painel de peritos estão: “melhorar as práticas de operação, reforçar a monitorização do sistema elétrico e aumentar a coordenação e troca de informação entre todas as entidades envolvidas. A investigação também mostra que as regras e regulamentos têm de acompanhar a evolução do sistema elétrico”.

“O apagão de 28 de abril de 2025 foi um evento sem precedentes. As recomendações apresentadas procuram tornar o sistema mais resistente, usando tecnologias que já existem hoje. O episódio mostra que problemas locais podem afetar todo o sistema elétrico e reforça a importância de uma boa coordenação entre níveis local, nacional e europeu, garantindo que políticas, regras e mercados respeitam os limites físicos da rede”, conclui o relatório.

Pior apagão europeu em 20 anos destruiu plano de defesa de Portugal

A 3 de outubro de 2025 foi divulgado o relatório preliminar dos peritos. Tal como o JE noticiou na altura, o pior apagão europeu em 20 anos destruiu os planos de defesa da rede elétrica em Espanha e Portugal. Foi causado por voltagem elevada, sendo o primeiro apagão deste tipo, pois são normalmente causados por voltagem baixa.

“Uma cascata de voltagem elevada”, foi assim que o evento foi qualificado por um dos peritos europeus.

Klaus Kaschnitz destacou que foi o “blackout mais severo na Europa nos últimos 20 anos e o primeiro deste tipo. Nunca aconteceu na Europa, não encontramos nenhuma menção deste tipo”, provocado por alta voltagem. “Este é um novo território, precisamos de tempo”.

Em menos de 2 minutos, o apagão espalhou-se a toda a Espanha e depois a Portugal. “Os planos de defesa foram incapazes de o travar devido à cascata de alta voltagem. Só foi possível parar na fronteira com França e impedir de se espalhar ao resto da Europa”, explicou Damian Cortinas, presidente do conselho dos operadores de sistema de transporte (ENTSO-E).

Quais os próximos passos a dar? Os peritos vão proceder à análise da “performance do plano de defesa e possíveis melhorias”.

Mais. Avaliar os instrumentos de gestão de voltagem disponíveis; analisar os vários passos da fase de restauração; avaliação do comportamento dos utilizadores da rede no controlo de voltagem.

A recuperação foi feita com a ajuda de França e de Marrocos que começaram a injetar eletricidade na rede espanhola, com Portugal a ter de arrancar sozinho inicialmente com duas centrais com mecanismo de black-start e depois com a ajuda de Espanha.

As energias renováveis tiveram impacto? Não, segundo o relatório preliminar da ENTSO-E (o final será apresentado no primeiro trimestre do próximo ano).

“A questão não é serem renováveis. Precisamos de ter controlo de voltagem na produção, tanto nas renováveis como na produção clássica. Não é uma tecnologia complicada. Vamos exigir mudanças na regulação. A produção não tem requerimentos para controlo de voltagem, quer seja renovável ou não. É mais uma questão de tamanho da produção”, segundo Damian Cortinas que explicou que a voltagem tem uma “magnitude local, não viaja”.

Por isso, a ENTSO-E vai “exigir mudanças na regulação” para instalar controlos de voltagem no sistema.

Sobre quem tem a culpa, o responsável considera que o “importante é impedir acontecimentos destes no futuro, não é quem tem a culpa”.

Já Klaus Schnitz destacou que os “apagões acontecem normalmente com voltagem baixa, com voltagem alta é algo novo que nunca aconteceu. Isto precisa de ser resolvido localmente, perto do local onde acontece.


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