A desinformação associada às presidenciais somou, na primeira volta, mais de 8,3 milhões visualizações nas redes sociais e André Ventura concentrou 82,4% dos casos, segundo o LabCom — Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI). O estudo do LabCom, realizado no âmbito do ODEPOL — Observatório de Desinformação Política, e citado pela agência Lusa, monitorizou a desinformação relacionada com a presença digital dos pré-candidatos e candidatos nas redes com maior expressão em Portugal (Facebook, Instagram, X, TikTok, Threads e Youtube) e começou a ser elaborado em 17 de novembro de 2025, dia do primeiro frente a frente na televisão entre André Ventura e António José Seguro.
Os conteúdos desinformativos atingiram, no total, segundo os investigadores, 8.392.713 visualizações nas redes sociais (todas as vezes que o conteúdo aparece aos utilizadores, incluindo repetições), e geraram 347.228 reações, 64.151 comentários e 27.178 partilhas.
Na pré-campanha e campanha da primeira volta das presidenciais foram identificados 17 casos de desinformação e André Ventura, segundo candidato mais votado, foi responsável por 82,4% dos casos identificados, enquanto os restantes foram de pré-candidatos que não foram aceites pelo Tribunal Constitucional (TC) e André Pestana (5,9%). O vídeo foi o formato preferencial para a desinformação, tendo sido utilizado em 70,6% dos casos, comparando com as fotografias, com 29,4%.
Por tipo de desinformação, divide-se entre a descredibilização dos media e dos jornalistas (41,2%), seguida de conteúdo manipulado (23,5%), sondagem de empresa não registada na ERC e sem metodologia tornada pública (17,6%), conteúdo enganoso (5,9%), falsificação de informação (5,9%) e uso de contexto falso (5,9%).
A maioria dos casos foi identificada nas redes sociais da Meta, tendo a partilha de desinformação ocorrido de forma simultânea em 100% dos casos no Facebook e 94,1% no Instagram. O X concentrou 82,4% das ocorrências, enquanto o Threads registou 29,4% e o TikTok, 17,6%.
Dos 17 casos detetados, quatro (23,5%) envolveram a utilização de Inteligência Artificial (IA), nomeadamente sobre a divulgação de intenções de voto, por André Ventura, geradas por empresas de análise política com recurso a algoritmos de previsão eleitoral.
O único caso de utilização direta envolveu André Pestana, que recorreu à IA para criar imagens hiper-realistas que simulavam André Ventura com expressões de raiva e a fazer uma saudação nazi.
O líder do Chega é o autor de todos os casos de desinformação com maior impacto, tendo a publicação mais visualizada 2.083.040 de visualizações. Realizada no dia 26 de novembro de 2025, a publicação remetia para um caso documentado em 2018 pela organização PETA (sigla em inglês de People for the Ethical Treatment of Animals), relativa a maus-tratos a animais utilizados no transporte de turistas no Egito. No vídeo partilhado por André Ventura, o candidato responsabiliza a comunidade cigana pelos maus-tratos, acrescentando uma legenda que questiona se os partidos portugueses à esquerda ficarão “em silêncio por ser esta comunidade”.
António José Seguro e André Ventura vão disputar a segunda volta das eleições presidenciais, em 08 de fevereiro, depois de, no domingo, o candidato apoiado pelo PS ter conquistado 31% dos votos e Ventura, líder do Chega, obtido 23%.
Em terceiro lugar ficou Cotrim Figueiredo, apoiado pela Iniciativa Liberal, com 16,%, à frente de Gouveia e Melo, com 12%, e de Marques Mendes, apoiado pelo PSD e CDS, com 11%.
À esquerda, Catarina Martins (BE) teve 2%, António Filipe (PCP) teve, 1,6% e Jorge Pinto (Livre) 0,6%, que ficou abaixo do cantor Manuel João Vieira que conseguiu 1%. O sindicalista André Pestana recolheu 0,2% e Humberto Correia 0,08%.
Península Ibérica atacada
Portugal, a par de Espanha, tem vindo a registar um aumento significativo da desinformação eleitoral. Sobretudo nas eleições legislativas, sendo os partidos de extrema-direita, como o Chega, são as principais fontes. A desinformação visa sobretudo candidatos políticos, sistemas eleitorais e propostas políticas específicas, com táticas comuns que incluem imagens falsas, vídeos manipulados e sondagens enganosas. A conclusão é de um relatório da SmartVote, uma plataforma online que estuda e combate o fenómeno.
“Tanto Espanha como Portugal assistiram a um aumento da desinformação eleitoral, particularmente durante as eleições legislativas, com as redes sociais a desempenharem um papel central na disseminação de conteúdos falsos”, refere a SmartVote, que também estuda a desinformação na União Europeia (UE).
Assim, são identificados como temas-chave da desinformação a fraude eleitoral, corrupção e imigração. Sendo que os partidos de extrema-direita em ambos os países, particularmente o Chega em Portugal e o Vox em Espanha, são as principais fontes. Os alvos são sobretudo os candidatos políticos, os sistemas eleitorais e propostas políticas específicas, usando-se táticas como imagens falsas, vídeos manipulados e sondagens enganosas.
O trabalho indica que “enquanto Espanha enfrenta uma maior polarização política e uma reposta institucional mais forte à desinformação, Portugal continua a ser menos polarizado, mas cada vez mais exposto à instabilidade política e à desinformação digital, com abordagens regulatórias mais suaves”.
O caso extremo da Roménia
O Tribunal Constitucional da Roménia anulou o resultado da primeira volta das eleições presidenciais que tiveram lugar em novembro de 2014. A anulação surgiu poucos dias antes da realização da segunda volta e fez o processo regressar à estaca zero. A primeira volta tinha sido ganha por Calin Georgescu, candidato de direita radical quase desconhecido, cético em relação à NATO e que elogiava o presidente russo, Vladimir Putin. A decisão do tribunal foi tomada depois da divulgação de documentos de inteligência sugerindo que Georgescu beneficiou de uma operação de influência em massa conduzida a partir do exterior para interferir no resultado da eleição.
O governo de então, liderado por Marcel Ciolacu, disse que a decisão do tribunal de anular as eleições era “a única solução correta após a retirada do sigilo dos documentos que mostram que o resultado da votação dos romenos foi descaradamente distorcido como resultado da intervenção da Rússia”. Mesmo assim, o governo não se livrou de severas críticas – vindas algumas delas do exterior do país – segundo as quais a Roménia abriu um precedente perigoso: a anulação, com a necessária ‘desculpa’ da Rússia, passa a ser aceitável nos países democráticos.
Outros casos na Europa
As eleições norte-americanas em que Donald Trump derrotou a democrata Hillary Clinton terão sido as primeiras onde a Rússia foi acusada de interferência por via cibernética. De então para cá, não há nenhuma eleição que, a acreditar nos técnicos, não seja alvo de, de forma mais ou menos severa, desinformação.
Para além do caso extremo da Roménia, a presidente da Moldávia, Maia Sandu denunciou uma “interferência sem precedentes” por parte da Rússia, incluindo redes de compra de votos e campanhas de desinformação baseadas em IA para tentar travar a adesão do país à União Europeia – adesão essa que iria ser alvo de um referendo.
Também na Alemanha, nas eleições gerais de 2025, o governo acusou a Rússia de operar campanhas de propaganda (ligadas ao grupo Storm 1516) através da disseminação de vídeos falsos nas redes sociais, incluindo manipulação de cédulas de votação do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha).
Na Eslováquia e na Polónia, as campanhas eleitorais de 2023 foram afetadas pela disseminação de gravações falsas geradas por inteligência artificial.
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