Doinn, a startup que sente na pele a queda dos negócios do turismo e limpeza

“Estamos atentos às medidas de apoio anunciadas pelo Governo apesar de, até agora, não termos ficado impressionados com elas. Não nos adianta muito adiar as obrigações como IVA ou TSU para o segundo semestre se os respetivos pagamentos coincidirão com a época baixa”, disse ao Jornal Económico Weronika Figueiredo, cofundadora da empresa.

Weronika Figueiredo fundou a startup Doinn em 2015, uma plataforma que une as empresas de limpeza e lavandaria às vivendas e apartamentos turísticos ou para estudantes. Ou seja, que faz o ‘casamento’ entre entre os técnicos de limpeza e os imóveis para estadia temporária que precisam da sua mão.

Ao longo de mais de quatro anos, a empreendedora expandiu o negócio para Espanha e para o Reino Unido e agradeceu efusivamente a plataformas como o Airbnb. Em entrevista ao Jornal Económico conta como estão agora os seus fornecedores a lidar com esta crise sanitária e por que optou por juntar um serviço de desinfeção à sua oferta.

Como é que a pandemia está a impactar as empresas de limpeza em Portugal? 

De forma geral, para as empresas de limpeza não especializadas em limpezas de desinfeção ou descontaminação há menos trabalho, bastante menos trabalho. Por um lado, a área de turismo praticamente parou – não só os apartamentos de alojamento local mas também hotéis. Há muitas unidades fechadas e com os calendários bloqueados para os próximos meses. Por outro, há mais indústrias afetadas que tiveram que fechar as suas instalações e deixaram de precisar do serviço de limpeza – escritórios, pequenos restaurantes, lojas com bens não essenciais, ginásios – são apenas alguns exemplos. Em relação às limpezas domésticas, a situação ainda não é tão linear. Continua a haver alguma procura mas muitas pessoas têm hoje em dia receio de deixar entrar as empregadas nas suas casas por questões de risco de contaminação. Alguns dos nossos fornecedores, mesmo empresas de dimensão média e bastante consolidadas, dizem que o negócio deles deixou de existir de uma semana para outra.

No alojamento local (AL) verificou-se muitos cancelamentos e os escritórios e as lojas fecharam massivamente. Que efeito teve essa suspensão no vosso trabalho?

Mais de 95% do nosso volume de negócio são serviços prestados ao AL. A redução acentuada de procura (bem como cancelamentos em massa de serviços marcados) teve um grande impacto na nossa faturação do mês de março e, como se prevê, terá ainda maior nos resultados dos próximos meses. No entanto, a equipa continua a trabalhar. Temos muitas ideias e agora, mais do que nunca, algum tempo para explorá-las e refletir um pouco no que pode fazer sentido agora e, eventualmente, no futuro. Há muito desenvolvimento TI por fazer com vista à melhoria da nossa plataforma. A equipa tem se mantido ocupada.

Já não posso dizer o mesmo sobre os nossos fornecedores, empresas de limpeza e de lavandaria (bem como as de check-in e check-out)  – com a redução tão drástica do volume de negócio alguns deles viram-se obrigados a reduzir o tamanho das suas equipas. As empresas mais pequenas, tipicamente familiares, equacionam outras opções, bem como o recurso à linhas de microcrédito e outros apoios, algumas mesmo o fecho.

Contudo, a Doinn sempre trabalhou com empresas profissionais que asseguram a legalidade das condições dos seus funcionários. Nestas circunstâncias, as pessoas têm direito ao fundo de desemprego. Pelo que eu saiba, a situação é bastante pior (não só em Portugal mas também em Espanha) no caso de algumas empregadas de limpeza sem contrato de trabalho, pagas à hora. Algumas delas ficam mesmo sem meios para sustentar as suas famílias.

Já tinham serviço de desinfeção? 

Até agora não tínhamos o serviço de limpeza de desinfeção propriamente dita disponível (as limpezas normais incluíam, no entanto, alguns elementos de desinfeção, como por exemplo nas casas de banho). A limpeza de desinfeção que segue um determinado protocolo, de acordo com as orientações da Direção Geral de Saúde, foi lançada como serviço na semana passada. Já há pessoas potencialmente interessadas e a interrogar sobre os serviços – estimamos que as primeiras compras acontecerão nas próximas duas a quatro semanas. Gostava, neste ponto, de ressalvar que a nossa intenção não é “aproveitar” a situação e lucrar com estes serviços – as nossas margens nos serviços de desinfeção são bem abaixo do que seriam numa situação normal. Queremos, em primeiro lugar, disponibilizar um serviço adaptado à nova realidade e ver qual a recetividade do mercado. O principal objetivo é facilitar o acesso das pessoas a um serviço de desinfeção especializada, já que neste momento (e não só) limpeza = segurança.

Os empregados de limpeza com os quais contactam tiveram a possibilidade de fazerem quarentena ou todos foram obrigados a unir esforços extraordinários de higienização?

Penso que o que aconteceu é que a queda de procura foi tão abrupta (nós e os nossos fornecedores começamos a senti-la na semana do dia 9) que efetivamente muitos dos funcionários de limpeza ficaram sem trabalho para fazer e o pouco trabalho que há, é atribuído a quem está disponível. Também não podemos esquecer que a maior parte dos funcionários de limpeza são mulheres, muitas das vezes com filhos na idade escolar e, por vezes, mães solteiras. Muitas delas ficaram em casa para dar assistência aos filhos.

Penso que também houve e há pessoas com algum receio de estar no terreno e efetuar os serviços de limpeza mas não tenho conhecimento de situações de alguém ser “forçado” a ir trabalhar nestas circunstâncias. Houve, sim, empresas de limpeza que nos informaram que podem não ter pessoas disponíveis para efetuar os serviços ou que deixam de fazer limpezas intermédias (com os hóspedes ainda alojados) e passam a fazer apenas limpezas no dia seguinte à saída dos hóspedes.

E as empresas que os empregam sentem escassez de material de proteção individual?

Sim, pelo que nos tenham feito chegar, alguns dos nossos fornecedores efetivamente têm dificuldades em se abastecer em material de proteção individual. Até já me falaram de escassez de produtos básicos de limpeza, como lava-tudo.

Enquanto fundadora de uma microempresa, está confiante de que irá superar esta crise? Irá recorrer aos apoios do Estado? 

Estou confiante, sim, de que vamos resistir à crise e sobreviver. De que forma, em que realidade acordaremos daqui a alguns meses? Isso ainda ninguém sabe. Como a maior parte das empresas de turismo em Portugal, estamos preocupados não só com essa “crise” mas também com o facto que dificilmente conseguiremos recuperar a faturação nos poucos meses da época alta que sobrarem (se sobrarem) e entraremos novamente em época baixa. Mas estou confiante que vamos conseguir superar este grande desafio. Estamos atentos às medidas de apoio anunciadas pelo Governo apesar de, até agora, não termos ficado impressionados com elas. Não nos adianta muito adiar as obrigações como IVA ou TSU para o segundo semestre se os respetivos pagamentos coincidirão com a época baixa. Ninguém ainda compreende a 100% o novo regime do lay-off simplificado. Enfim, teremos que esperar ainda algum tempo.

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