Foi a bordo dos caças Spitfire que a Inglaterra conseguiu travar a ofensiva aérea nazi sobre o país. O mítico avião da Royal Air Force (RAF) ficou para a história como o fiel guardião dos céus britânicos durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas o mundo mudou completamente nos últimos 80 anos: na guerra, a ficção científica já está entre nós. Os drones já são uma realidade nos campos de batalha em todo o mundo. Estes aviões não-tripulados são comandados à distância e têm capacidades ofensivas e defensivas.
Oferecem inúmeras vantagens aos exércitos, incluindo risco reduzido para soldados, monitorização em tempo real do campo de batalha ou redução de custos.
É neste mundo novo que surgem os portugueses da Tekever,. Fundada em 2001 por alunos do Instituto Superior Técnico, a aposta nos drones teve lugar a partir de 2010 quando foi identificado o grande potencial deste mercado.
Em 2025, atingiu o estatuto de estrela, tornando-se no sétimo unicórnio português, o termo usado para as empresas avaliadas em mais de mil milhões de euros, sendo a primeira ‘deftech’ nacional a atingir esta marca, isto é, a primeira companhia tecnológica da área de defesa.
A Ucrânia foi o grande palco que permitiu o teste e desenvolvimento destas soluções, após a invasão russa em 2022.
Na linha da frente está a portuguesa Tekever, que tem em marcha um ambicioso plano de investimentos de 560 milhões de euros em novas fábricas no Reino Unido e em França.
Em Inglaterra, a companhia prevê abrir uma fábrica em Swindon este ano, 130km a oeste de Londres. “É o nosso maior projeto no Reino Unido até à data. Um centro de excelência, com mais de 23 mil m2 no icónico edifício Spectrum, cobrindo todo o ciclo desde a investigação&desenvolvimento (I&D) à produção industrial”, disse fonte oficial da empresa ao JE.
Este investimento faz parte do programa ‘Overmatch’ que implica um investimento de 400 milhões de libras (460 milhões de euros) em cinco anos, com a riação de mil postos de trabalho qualificados.
O objetivo é “trazer o fabrico do “core” do AR5 para solo britânico e escalar a produção do AR3, garantindo uma cadeia de fornecimento mais robusta”.
O AR5 tem a capacidade para transportar 50 kg, com 20 horas de autonomia, capaz de atingir 100 km/h. Já o AR3 consegue transportar 4kg, com uma autonomia entre 8 a 16 horas, e velocidade de cruzeiro entre 75-90 km/h.
Do outro lado do canal da Mancha, a aposta é na abertura de uma fábrica em França, em Cahors, a 230km a leste de Bordéus, no sul do país.
Aqui, a operação “está prestes a arrancar e a produção deverá iniciar-se antes do verão deste ano”, num investimento de 100 milhões de euros estando prevista a contratação de 100 profissionais qualificados.
“A unidade terá dois focos: a produção de sistemas de drones e o laboratório de I&D ligado ao Espaço. Por um lado, temos a montagem, integração e testes dos modelos AR3 e AR5”, segundo a companhia.
O outro foco é “todo o suporte para contratos como o assinado com as autoridades francesas para a construção do primeiro satélite SAR soberano francês – a Tekever France faz parte do consórcio com a Loft Orbital e a Thales Alenia Space”.
A invasão da Ucrânia foi um momento definidor para a Tekever, com as exportações de drones para este país a dispararem. Em 2021, o valor era residual, tendo disparado para os 33,3 milhões de euros em 2024, segundo os dados do INE, sendo a principal exportação nacional para este país, com as vendas para as Forças Armadas ucranianas.
Depois de ter aberto um escritório em Kyiv em 2025, a Tekever tem agora como foco “localizar soluções tecnológicas através de parcerias com fabricantes ucranianos e reforçar as equipas de engenharia e manutenção”.
“O objetivo é reduzir o tempo de interação entre o uso operacional no terreno e o desenvolvimento de engenharia, acelerando a melhoria contínua” das aeronaves não-tripuladas.
A Tekever também esteve presente recentemente em eventos relacionados com a Conferência de Segurança de Munique.
Em jeito de balanço, a companhia diz que a conferência “reforçou a ideia de que é urgente desenvolver uma autonomia estratégica europeia”.
Destaca assim quatro pontos essenciais: “a necessidade de a Europa assumir maior responsabilidade na sua defesa dentro da NATO; a importância de uma base industrial europeia forte para sustentar a tecnologia de defesa; o foco em preparar conflitos futuros através de autonomia com IA; e o alerta de que a fragmentação do mercado de defesa europeu ainda limita a competitividade global”.
A companhia defende assim que o momento atual “exige crescimento, escala e velocidade para transformar investimento em capacidade operacional real”.
E os drones da Tekever têm sido usados em inúmeros teatros. Como na Ucrânia, onde o AR3 opera desde 2022, usando Inteligência Artificial (IA), contando com mais de 10 mil horas de voo de combate, tendo “contribuído para a destruição” de ativos militares russos no valor de 3 mil milhões de libras (3,4 mil milhões de euros), incluindo dois S-400, um dos mais avançados sistemas russo de defesa aérea.
No Reino Unido, vai fornecer os seus drones à Royal Air Force (RAF) britânica, uma das forças aéreas mais respeitadas em todo o mundo, com a missão de neutralizar radares inimigos permitindo que os aviões de combate da RAF – Eurofighter Typhoon e F-35 Lightning – operem em teatros de guerra sem serem detetados pelos olhos do inimigo.
Também no Reino Unido, anunciou em 2025 a compra de um aeroporto do País de Gales, que vai ser o seu centro de operações: o West Wales Airport, na costa oeste do país em Aberporth, conta com um espaço aéreo restrito com 10 mil km2 sobre terra e mar.
Vai ser aqui que vai testar e operar os seus drones movidos a Inteligência Artificial (IA) que destinam-se a clientes britânicos e internacionais. Desde 2023 que opera neste aeroporto.
Em França, os drones da companhia foram testados pela ‘Marine Nationale’ em alto-mar, podendo “ser usado em missões de combate à pirataria e vigilância costeira até ao reconhecimento da situação da frota e segurança das fronteiras para ser usado por forças navais, guardas costeiras e agências marítimas em todo o mundo”.
Sediada em Lisboa, a empresa conta com uma fábrica de drones em Ponte de Sor e um laboratório de investigação&desenvolvimento nas Caldas da Rainha. Outras operações incluem o patrulhamento do mar Mediterrâneo para a Agência de Controlo de Fronteiras Exteriores (Frontex) da União Europeia, ou missões para a Marinha portuguesa a patrulhar o Golfo da Guiné em missões de combate à pirataria marítima.
Ainda recentemente, mobilizou drones para mapear os estragos da tempestade Kristin na região de Leiria.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com