A poupança é fundamental para o mercado e deve ser incentivada e facilitada. Mário Carvalho Fernandes, administrador do Banco Carregosa considera que a literacia também é fundamental e um projeto de sociedade.
A poupança concentrada em depósitos bancários é relevante e voltou a subir. Como olha para a forma como os portugueses poupam?
Para percebermos onde estamos, importa perceber o contexto e a evolução da economia portuguesa. Muitas famílias têm um nível de rendimento baixo, que se traduz numa dificuldade em criar poupanças, pelo que a poupança amealhada tende a ser considerada um recurso escasso e precioso, cujo principal objetivo é a preservação desse capital. As famílias procuram satisfazer, em primeiro lugar, as necessidades mais basilares, com o aforro a ser canalizado para a habitação própria e a constituição de uma almofada de segurança. Só depois é que surgem os objetivos de investimento e de capitalização.
As famílias optam tendencialmente por afetar apenas uma franja das suas poupanças a esses objetivos que implicam que se assumam riscos acrescidos.
Comparamos mal com outros países na literacia financeira. O setor sofre com isto?
A falta de literacia financeira prejudica em primeiro lugar as próprias pessoas que não dispõe desse conhecimento. Por um lado, o desconhecimento dos princípios e conhecimentos fundamentais da poupança e investimento pode conduzir ao afastamento de aforradores, por prudência, das oportunidades que poderiam contribuir para melhorar o seu nível de vida. Por outro, o mesmo desconhecimento poderá aumentar a vulnerabilidade dessas pessoas a decisões de investimento desadequadas ao seu perfil e a situações de fraude.
O setor financeiro tenderá a ter melhores condições de prestar os seus serviços numa sociedade que conhece bem os tipos de serviços prestados e que está em condições de fazer uma avaliação crítica e informada da qualidade desses serviços e das instituições que os prestam. Aforradores e investidores com elevado nível de exigência contribuem para um setor financeiro mais capacitado, sofisticado e profissional.
O que pode ser feito e por quem para alterar a situação?
Os princípios fundamentais da poupança e investimento são conceitos que deviam estar presentes no currículo educativo de todos os cidadãos. As escolas deveriam ser a primeira linha de atuação para estancar o défice de literacia financeira.
Em paralelo, há um trabalho de recuperação que tem de ser feito pela própria sociedade, que deverá encontrar formas de fazer chegar esses conhecimentos a todos os que já não estão em idade escolar. É uma missão de todos e o setor financeiro tem promovido várias iniciativas, em alguns casos, numa perspetiva social, pro bono e de proximidade à sociedade.
Os interessados em obter conhecimento sobre a poupança e investimento também o conseguem fazer de forma autodidata. Atualmente, existe muita informação e facilidade de acesso.
Os agentes de mercado têm um papel a desempenhar. Fazem-no?
A dinamização do mercado de produtos e serviços de poupança e investimento é crucial para o desenvolvimento económico e financeiro. O desenvolvimento e amadurecimento do mercado é um desígnio de todos os stakeholders, desde agentes políticos, reguladores, prestadores de serviços e consumidores.
Apesar do caminho já percorrido, nem sempre de forma linear, tem havido algum progresso. Recentemente, ao nível europeu, este objetivo assumiu uma preponderância acrescida e está no topo da agenda política. Num mundo em que a competição económica entre blocos está a acentuar-se, não há espaço para a utilização ineficiente de recursos.
Assim, em paralelo com a consciencialização das famílias europeias sobre a importância da poupança e do investimento, revela-se crucial criar os incentivos necessários à mudança de atitude, que devem passar pela criação de instrumentos de captação de aforro que sejam simples, de fácil acesso, transparentes e fiscalmente eficientes. Encontram-se em preparação iniciativas que têm esses objetivos e, caso sejam bem-sucedidas, têm o potencial de serem transformadoras.
Que expectativas tem para a evolução do mercado?
O mercado acionista tem beneficiado da conjuntura económica favorável e das expectativas elevadas dos impactos do ciclo de investimento em inteligência artificial (IA) nos lucros de algumas empresas com grande relevância nos índices acionistas. A inexistência da recessão que era antecipada pela larga maioria dos investidores, e que normalmente ocorre no rescaldo de uma subida agressiva das taxas de juro, como a que ocorreu em 2022, tem permitido que as empresas continuem a registar crescimentos que conferem suporte aos mercados financeiros. A dinâmica da IA e os défices públicos terão evitado a recessão, pelo que se pode vislumbrar uma fase de expansão económica mais longa do que o esperado, que pode exacerbar, ainda mais, o otimismo entre investidores.
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