“É possível que haja uma segunda vaga do coronavírus”, prevê epidemiologista

André Peralta-Santos defende a realização de mais testes para combater a epidemia, considera que o Estado de Emergência foi necessário, e que o Serviço Nacional de Saúde tem dado os passos corretos.

André Peralta-Santos é médico, especialista em saúde pública, e epidemiologista. Nos últimos anos esteve nos Estados Unidos a tirar um doutoramento na Universidade de Washington, em Seattle. Em entrevista ao Jornal Económico, analisa a atual epidemia do novo coronavírus (Covid-19) e o Estado de Emergência (EdE) em vigor.

Tem-se falado muito na importância dos testes. Portugal deveria realizar testes em larga escala, como na Coreia do Sul?
Países como a Coreia do Sul, que tiveram uma política de testes bastante alargada, e que têm uma capacidade diária de centenas de milhares de testes, conseguiram rapidamente, e sem colocar grande stress no sistema de saúde, controlar a epidemia. A meu ver, esta deveria ser uma estratégia adotada por Portugal, no sentido de rapidamente, e com a devida indicação normativa, conseguir testar o maior numero de pessoas para que as possamos tratar, e depois coloca-las no devido isolamento.

O Governo tem apontado que o pico do surto poderá acontecer entre 9 e 14 abril. Faz sentido?
Não tenho conhecimento dos modelos em que o Governo se baseou, mas eventualmente teremos um pico da epidemia e depois o número de novos casos começará a baixar. Se é entre 9 a 14 de abril ou se é um pouco depois, não sei. Sem ler o estudo tenho dificuldades em avançar com datas.

Um estudo do Imperial College de Londres apontou que poderá haver uma “nova vaga nos meses de inverno” do coronavírus. Este alerta faz sentido?
Com a estratégia de supressão – através do distanciamento social, isolamento e quarentena -, se conseguirmos diminuir a atividade do vírus, de tal forma que desaparece da comunidade, mas em que ainda continue a haver uma percentagem da população que continua suscetível; se depois as medidas de distanciamento social não forem tão restritivas, é possível que haja uma chamada segunda vaga do coronavírus. Quando é que vai acontecer? Não sabemos bem. Aquilo a que devemos estar alerta é para o que se vai passar na China e na Coreia do Sul, que conseguiram aparentemente fazer uma supressão da transmissão do vírus, e que ao que tudo indica, estão a diminuir as restrições ao distanciamento social. É muito importante irmos acompanhando a evolução da epidemia nestes dois e noutros países para conseguirmos prever como será a evolução no continente europeu.

“Sei que os números são cada vez maiores e mais assustadores. Mas a velocidade parece estar a abrandar. Cautela, mas bons sinais”, disse a 21 de março. Portugal está no bom caminho nesta luta?
Aquilo que temos vindo a observar nos últimos dias [esta entrevista foi feita a 24 de março], é uma desaceleração progressiva da epidemia Covid-19. Continuamos a aumentar o número de novos casos, mas esse aumento acontece a um ritmo menor, e isso obviamente é uma boa noticia, que deve ser interpretada com precaução. Esta desaceleração da atividade epidémica já está relacionada com algumas medidas que foram tomadas no passado, nomeadamente o encerramento dos estabelecimentos escolares. Aquilo que sabemos desta nova doença é que, para os efeitos de uma determinada medida, como o distanciamento social, só os iremos observar mais de sete dias depois de ser implementada, o que corresponde ao período de incubação da doença, que são por volta dos cinco dias. O que quer dizer que ainda não estamos a observar o efeito das medidas decretadas pelo EdE.

Sobre o EdE, o atual regime é excessivo ou precisava de ser mais rigoroso?
Com a declaração do EdE, Portugal esgotou as medidas que estavam no menu para a contenção da transmissão do vírus. O impacto destas medidas ainda é precoce de avaliar a 24 de março e só se começarão a sentir para o final do mês, depois de 28 de março. Se foram excessivas ou não? Acho que foram medidas necessárias nesta fase de transmissão do vírus para que o sistema de saúde se possa reorganizar e responder às necessidades crescentes da procura de cuidados de doentes que tenham sido infetados com Covid-19.

Passadas mais de três semanas do primeiro caso em Portugal, como é que o país compara com outros países europeus?
É um facto que Portugal teve o primeiro caso confirmado de coronavírus a 2 de março e que outros países a essa data estavam com dinâmicas de transmissão diferentes da nossa. O que me parece interessante comparar são as dinâmicas de transmissão da doença dos países europeus, e que resposta é que os governos tiveram em relação a essas mesmas dinâmicas. Parece-me que Portugal, com menor número de casos, tomou decisões no sentido de implementar medidas de distanciamento social mais restritivas do que os congéneres europeus, nomeadamente Itália e Espanha, mas é ainda precoce avaliar os efeitos dessas medidas de distanciamento.

O EdE termina a 5 de abril. Poderá vir a ser renovado?
O término a 5 de abril é uma boa oportunidade para reavaliarmos os seus efeitos, principalmente se conseguimos abrandar a velocidade da transmissão da doença, e se demos tempo ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) para se reorganizar no sentido de tratar todos aqueles que necessitem. É previsível que a 5 de abril ainda estejamos numa altura de aumento do número de novos casos, mas deixaria a decisão para quem nos governa.

O SNS estava preparado?
A evolução da transmissão da doença coloca um stress nos sistemas de saúde, acho que não há nenhum sistema de saúde que esteja verdadeiramente preparado para enfrentar esta crise. Mas têm sido dados passos no sentido correto para aumentar a preparação do SNS, da reorganização da capacidade hospitalar instalada para fazer face a um aumento de procura de doentes da Covid-19. É aguardar e dar tempo ao SNS para se preparar para enfrentar esta crise.

Notícia publicada na edição semanal do Jornal Económico de 27 de março

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