Empresário italiano eleito na ilha cabo-verdiana da Boa Vista

Sérgio Corrá, de 59 anos e radicado desde 1997 na ilha cabo-verdiana da Boa Vista, fez história ao ser eleito deputado à assembleia municipal local, liderando a lista do Partido Popular.

O empresário italiano Sérgio Corrá, de 59 anos e radicado desde 1997 na ilha cabo-verdiana da Boa Vista, fez história ao ser eleito deputado à assembleia municipal local, liderando a lista do Partido Popular (PP).

Fundador do movimento independente “Pró Bubista Futura”, o empresário chegou a anunciar em março a intenção de liderar, nas eleições municipais que se realizaram este domingo, uma candidatura à câmara da Boa Vista, mas acabou por aceitar o convite do PP para liderar a lista do partido, mas à assembleia municipal.

A lista do PP à assembleia municipal da Boa Vista – o partido não concorreu à câmara – arrecadou 20,4% dos votos (1.059) e conseguiu eleger, além de Sérgio Corrá, mais dois deputados.

“Só pedíamos a eleição de um deputado, porque era uma lista liderada por um estrangeiro, é mais difícil, por isso foi um grande resultado termos três”, contou hoje à Lusa o empresário.

A lei eleitoral cabo-verdiana prevê a possibilidade de voto, em eleições autárquicas, a cidadãos estrangeiros maiores de 18 anos e com residência legal e habitual em Cabo Verde há mais de três anos. Para serem eleitos para cargos autárquicos, os cidadãos estrangeiros têm de ter residência legal e habitual em Cabo Verde há mais de cinco anos.

Sérgio Corrá vive há mais de 23 anos na Boa Vista e antes da votação de domingo confirmou à Lusa a “mudança de estratégia” daquele grupo de cidadãos, liderando agora a lista do PP à assembleia municipal, esperando depois participar nas eleições legislativas de 2021, tentando o cargo de deputado, agora à Assembleia Nacional.

“O objetivo agora é dedicar o máximo ao nível local, trabalhar com a próxima câmara municipal. Em 2021 participar a nível legislativo, para levar os problemas da Boa Vista ao parlamento”, afirmou ainda.

Sérgio Corrá explicou à Lusa que a entrada na política ficou a dever-se à vontade de “retribuir” o que recebeu ao longo de mais de 20 anos na Boa Vista: “É uma população muito educada, que me deu muita coisa, que agora pretendo retribuir”.

Foi na Boa Vista que Sérgio Corrá se casou com uma professora cabo-verdiana, tendo já duas filhas, mas não se conforma com o que hoje vê na ilha, com críticas à “corrupção” que diz marcar as consecutivas gestões municipais.

“O que me choca mais é que é uma ilha que devia estar entre as mais desenvolvidas de Cabo Verde, mas devemos estar nos últimos lugares, apesar de recebermos 40% dos turistas. Os terrenos da ilha foram vendidos e a câmara está coberta de dívidas. Assim, como está, não temos futuro. Somos os últimos dos últimos”, desabafou anteriormente.

Cabo Verde, e a Boa Vista, conheceu quando tinha 37 anos e trabalhava em Milão, Itália, num banco de investimento norte-americano. Foi então desafiado para ser diretor do primeiro grande projeto turístico daquela ilha.

“Deixei o banco porque a minha cidade era de muito stresse e naquela altura estava à procura de uma coisa diferente para a minha vida. Quando cheguei à Boa Vista viviam aqui 3.500 pessoas, não havia telemóvel, não havia internet, era difícil enviar um fax, havia problemas com água e com luz”, recorda.

Apesar das dificuldades, acabou por reforçar a ligação à ilha e ao fim de dois anos deixou o cargo no empreendimento turístico para estabelecer o seu próprio negócio, na área alimentar, sempre na Boa Vista.

Antes da pandemia de covid-19, que abalou a economia daquela ilha, uma das mais turísticas do arquipélago, Sérgio contava com 30 empregados e, entre outros investimentos, o maior centro comercial da Boa Vista.

A Boa Vista era uma das duas câmaras municipais de Cabo Verde que estavam desde 2016 nas mãos de listas independentes. José Luís Santos, o ainda presidente da câmara, concorreu nestas eleições, que se realizaram no domingo, liderando a lista do Movimento para a Democracia (MpD), tendo sido derrotado pelo candidato do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Cláudio Mendonça.

E num cenário em que a MpD e PAICV somam, cada um, cinco deputados na assembleia municipal, a posição dos três eleitos do PP, liderados pelo italiano, será decisiva na governabilidade da Boa Vista.

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