Espanha à beira de ter uma ‘geringonça’ ao contrário

Tudo indica que o PSOE ganhará eleições antecipadas, mas não conseguirá formar uma coligação para governar. Espanha está em crise desde 2016.

Há muitos anos (demasiados, para o gosto da Comissão Europeia) que a geometria política de Espanha é uma espécie de ‘work in progress’ do que de mais inesperado se encontra na Europa, rivalizando com a Itália no topo da lista dos países com soluções de governo mais bizarras. O problema é que (e daí os desgostos que os dois países infligem aos líderes europeus) são soluções cuja perenidade é costumeiramente baixa e normalmente incapazes de irem muito além da conjuntura.

Espanha corre novamente esse risco: depois de o chefe do governo socialista, Pedro Sánchez, se ter revelado incapaz de fazer passar o Orçamento para 2019 no Congresso, e de já ninguém ter dúvidas de que os eleitores voltarão muito em breve a ser chamados a fazer escolhas (pela terceira vez em quatro anos), tudo indica que o próximo governo será uma geringonça ao contrário.

Dito de outra forma: o PSOE provavelmente ganhará as eleições (as sondagens dão-lhe 24% dos votos), mas será a direita (o Partido Popular, com 21%, e o Ciudadanos, com 18%) a formar governo. É a geometria portuguesa vista ao espelho: o PSOE e a restante esquerda (com o Podemos a não ir além dos 15% de intenções de voto) não conseguem, longe disso, uma maioria no_Congresso que suporte um executivo novamente liderado por Pedro Sánchez. E o rei Filipe VI, num futuro próximo, acabará por chamar a direita.

Direita que fará governo transportando para o país aquilo que já está a ser testado na Andaluzia: o PP e o Ciudadanos em coligação controlada à vista (ou seja, apoiada) pelo Vox – um partido dito populista e de extrema-direita, que tem as características necessárias e suficientes para ser considerado populista e de extrema-direita.

Em declarações ao Jornal Económico, o politólogo e comentador António Costa Pinto corrobora este cenário. “Com o Vox a ganhar votos no PP e no Ciudadanos, o PSOE, que ganhará votos ao Podemos, deverá ganhar as eleições, mas o bloco de direita será mais forte”, até porque “nada indica que os partidos separatistas, pelo menos os da Catalunha, voltem a apoiar os socialistas”.

Os ‘researchs’ da banca e das consultoras também já incorporaram esta evidência. “Uma coligação entre o PP e o Ciudadanos, com o apoio do Vox, como já é o caso na Andaluzia, é bastante provável. O PSOE ainda é o maior partido e pode estar na liderança para formar uma coligação. Esse apoio poderá crescer ainda mais nos próximos meses, já que Sánchez foi bastante generoso com os eleitores: aumentou significativamente o salário mínimo para 1,2 milhão de trabalhadores. Um aumento dos votos do PSOE, no entanto, não significa que um governo de esquerda seja provável. De fato, os eleitores poderiam mudar de Podemos para o PSOE, tornando constante a soma dos dois”, refere o ING Group, instituição financeira de origem holandesa.

Quanto pior melhor?

Quem se arrisca a ter feito um péssimo negócio são os partidos independentistas catalães com lugar no Congresso, o PDeCAT (do ‘foragido’ Carles Puigdemont) e o Esquerda Republicana da Catalunha (do ‘presidiário’ Oriol Junqueras). Ao não sustentarem os votos suficientes para que Sánchez visse o seu Orçamento ser aprovado, a Catalunha abriu mão de uma generosa fatia de 2,4 mil milhões de euros: 1.500 milhões em transferências e 900 milhões em investimentos. Pior ainda: tudo indica que o próximo governo do país será muito menos contemporizador com as pretensões independentistas.

A não ser que essa seja precisamente a vontade dos independentistas: perante um governo que tudo fará para calar a secessão e possivelmente voltará a exibir o fantasma do Artigo 155 (que suspende as autonomias), talvez o separatismo volte a ganhar o alento que, na Catalunha (como já antes no País Basco), está a perder. António Costa Pinto chama precisamente a atenção para este facto: é muito incerto que a maioria dos catalães queira a independência.

“Tudo somado, a incerteza política vai permanecer na Espanha, prejudicando o investimento e as decisões de negócio. A economia ainda está a crescer a um ritmo acelerado, embora o crescimento anual tenha desacelerado de 3,1% em 2017 para cerca de 2,5% em 2018. Dado o ambiente externo mais fraco, veremos a economia espanhola desacelerar em 2019 para um crescimento anual de cerca de 2%. O impasse político pode prejudicar a economia, embora o seu melhor estado deva tornar as tensões políticas menos perigosas do que há alguns anos. Não excluímos algum aumento nos spreads dos títulos espanhóis, mas é improvável que isso vá muito longe”, refere ainda o ING Group.

“É uma conjuntura irónica, pois a crise catalã acabou por provocar a rutura do governo de Mariano Rajoy, dando oportunidade a um acordo parlamentar onde antes existiu grande tensão (entre  PSOE e Podemos) e agora temos a questão catalã de volta. Com a agravante que a grande hostilidade de uma parte significativa da opinião pública espanhola ao independentismo catalão irá favorecer os partidos de direita”, diz Costa Pinto.

“Mais uma vez, e isso parece-me interessante, a polarização direita-esquerda vai aumentar”, refere o comentador. António Costa Pinto entende que, ao contrário do que parecia certo em junho de 2018 (quando Sánchez ganhou a moção de censura construtiva), “afinal o PSOE não tinha nenhuma solução para a Catalunha”. “Mas temos de entender que sem uma derrota eleitoral dos independentistas na Catalunha, o problema vai continuar a ter um impacto muito imprevisível”.

E, neste quadro, um eventual governo de direita pode ter na mão a chave do problema: se o novo governo ativar o Artigo 155 – o que fará cair o Parlamento catalão – e convocar novas eleições, talvez tudo mude. É que convém não esquecer que na Catalunha já acontece aquilo que poderá vir a suceder em Espanha: os independentistas são a maioria e formaram governo, mas quem ganhou as eleições de 21 de dezembro de 2017 foi o Ciudadanos.

Até lá, ainda é preciso marcar eleições. E esse é outro problema: os espanhóis não querem votar senão no final de abril ou mesmo em maio, para escaparem à semana da Páscoa, mas arriscam-se a ficarem demasiado próximos das eleições europeias. Seja como for, Espanha continua, desde que Rajoy obteve uma tímida vitória em junho de 2016, ao sabor das vagas, sempre presentes, da crise política.

Artigo publicado na edição nº1976 de 15 de fevereiro, do Jornal Económico

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