“Famílias devem ter cuidado para não fazerem maus investimentos”

Presidente da Associação Profissional das Sociedades de Avaliação, Paulo Barros Trindade, diz que a subida do valor do m2 dos imóveis já requer aconselhamentos antes da compra, para evitar futuras desvalorizações.

Cristina Bernardo

O valor médio de avaliação das casas subiu para os 1.265 euros por metro quadrado no passado mês de maio. Um crescimento que se revelou o mais elevado dos últimos doze meses, com o preço do metro quadrado a crescer 90 euros. Em entrevista ao Jornal Económico, Paulo Barros Trindade, presidente da Associação Profissional das Sociedades de Avaliação (ASAVAL), olha para estes valores e diz que estão “ajustados ao mercado”.

Como vê esta subida do metro quadrado? Tem um valor elevado ou reflete de facto aquilo que vale o mercado habitacional hoje em dia no país?
Os valores de avaliação traduzem a realidade do mercado, pelo que estão ajustados ao mesmo. É o mercado a funcionar – se a procura se mantém elevada e ainda não existe excedente de oferta, é natural que o mercado reaja com uma subida dos valores. No entanto e apesar do mercado poder continuar a registar subidas em alguns nichos específicos, que têm uma procura elevada e fraca oferta, de uma forma geral parece começar a assistir-se a uma tendência para uma certa estabilização.

No último ano o preço do metro quadrado aumentou 90 euros. De que forma se pode travar este aumento e até onde poderá ir?
Não sei se faz sentido falar na possibilidade de parar o aumento dos valores. Estes só irão subir enquanto existir desequilíbrio entre oferta e procura. O reaparecimento de instrumentos financeiros de apoio à construção – por parte dos bancos – fará com que este equilíbrio tenda a restabelecer-se, o que determinará que os valores naturalmente estabilizem ou mesmo ajustem, em algumas localizações onde a subida foi mais acentuada por falta de oferta.

Que perigos pode trazer para o mercado e para os residentes esta subida do preço do metro quadrado?
Esta subida pode conduzir a situações em que as famílias invistam em imóveis que no médio-prazo venham a corrigir valores, podendo tornar-se em maus investimentos. Cabe às famílias tomarem medidas de precaução sobre os investimentos que realizam, solicitando por exemplo a peritos avaliadores que procedam à avaliação das habitações que pretendem adquirir para perceberem qual poderá ser a tendência de valorização ou desvalorização dessas habitações nos próximos anos.

Que medidas devem ser tomadas por parte das entidades responsáveis?
Julgo que as medidas que o regulador tem tomado são suficientes e eficazes para garantir a regulação do mercado, nomeadamente, as restrições de acesso ao crédito, quer através da taxa de esforço, quer através da percentagem de empréstimo sobre o valor de avaliação. Mais uma vez refiro que as famílias não devem deixar estes assuntos sobre os seus investimentos – que muitas vezes são o investimento mais importante da sua vida -, apenas nas mãos dos reguladores e legisladores. Devem consultar peritos especializados na avaliação de imóveis para poderem aferir da qualidade do investimento que pensam realizar.

O setor da logística tem tido um aumento do preço do metro quadrado no mercado. Como analisa esse crescimento?
Em relação ao aumento de preços e de valor do mercado de logística, julgamos ser mais uma vez o resultado de uma maior procura. O crescimento da economia conduz a essa maior necessidade de logística e o aumento da procura conduz a um aumento dos preços, num setor que durante a crise acumulou stocks em muitas zonas, que só têm estado a ser escoados nos últimos anos.

São cada vez mais os estrangeiros que procuram este tipo de espaços. Os portugueses têm capacidade para competir neste mercado?
Não obstante a subida de preços e de valores que se têm registado nos últimos anos neste setor, julgamos que os valores de mercado ainda se encontram enquadrados naquilo que é a realidade da nossa economia. Para alguns subsetores de menor rentabilidade, poderá existir uma necessidade de deslocalização para zonas mais periféricas onde os valores são mais baixos.

Artigo publicado na edição nº 1996, de 5 de julho, do Jornal Económico

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