“Fumaça”: Projeto de “jornalismo independente, progressista e dissidente” torna-se órgão de comunicação social

Entrevistaram o antigo primeiro-ministro José Sócrates, fizeram uma série de reportagens em Israel e nos Territórios Palestinianos e entretanto ganharam uma bolsa da Open Society Foundations, fundada pelo magnata e filantropo George Soros. Com esse apoio pecuniário reformularam o projeto: novo nome, nova imagem, novo estatuto de órgão de comunicação social. "A nossa matriz não mudou", ressalvam.

“Já não é apenas um podcast”, anunciam os produtores, mas um novo órgão de comunicação social registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Também mudou de nome, de “É Apenas Fumaça” para somente “Fumaça”. O projeto foi lançado no sábado, dia 21 de julho, na Casa da Imprensa, em Lisboa. “Com novo nome, nova imagem e a promessa de um jornalismo independente, progressista e dissidente”, sublinham. Nesse sentido, aliás, citam o respetivo estatuto editorial: “’Fumaça’ não pratica a ditadura da rapidez, do imediatismo e da voracidade da informação sem tempo para ser executada. Da mesma forma, entende que as pessoas devem poder aceder a informação complexa, aprofundáveis à medida dos seus tempos e interesses”.

A equipa que produz o siteFumaça” é constituída por Bernardo Afonso, Frederico Raposo, Maria Almeida, Pedro Miguel Santos, Pedro Zuzarte, Ricardo Esteves Ribeiro, Sofia Rocha, Tomás Pereira e Tomás Pinho, jovens entre os 24 e os 30 anos de idade. E seguindo uma lógica coletiva, sem estrutura hierárquica, responderam como um todo às perguntas colocadas pelo Prisma. Desde logo sobre a bolsa no valor de 80 mil euros que obtiveram recentemente, atribuída pela Open Society Foundations (OSF). Na medida em que se trata de um apoio pontual, ou seja, podendo ou não vir a ser replicado, que garantias têm de poder prosseguir com o projeto no futuro? “Celebrámos em junho o nosso segundo aniversário e o projeto ganhou a bolsa quando ainda era feito de forma voluntária. Temos a certeza de que o ‘Fumaça’ vai continuar, seja qual for a forma de apoio que venhamos a ter no futuro”, respondem.

“A nossa força reside na motivação, empenho e dedicação que todos os dias nos faz trabalhar num tipo de jornalismo que achamos ser necessário. E, claro, no apoio cada vez maior de quem nos ouve, vê e lê. No longo prazo, acreditamos que será possível assegurar a sustentabilidade através de contribuições de pessoas individuais. Atualmente, recebemos contribuições individuais, numa base mensal, e elas têm crescido. As pessoas têm acreditado e confiado no trabalho que temos feito e, se as coisas continuarem assim, temos a certeza de que o futuro só poderá ser risonho”, acrescentam.

 

“Tempo, profundidade e representatividade”

A transformação em órgão de comunicação social vai implicar o desenvolvimento de um modelo de negócio que permita viabilizar o projeto no médio ou longo prazo? Os conteúdos continuarão a ser totalmente gratuitos? Vão abrir espaço à publicidade? “O ‘Fumaça’ não tem um modelo de negócio para resolver a falência do modelo tradicional, baseado em publicidade. Nem a generalidade dos meios de comunicação social tradicionais, com muitos ou poucos anos, tem. Andamos todos a tentar encontrar uma maneira de garantir que é possível fazer jornalismo e ter pessoas qualificadas a fazê-lo, que seguem as regras da profissão e asseguram o escrutínio democrático. Diria que o essencial no nosso modelo de negócio e em todo o nosso projeto é fazer jornalismo com a nossa imagem de marca: tempo, profundidade e representatividade. O que vamos tentar é garantir que temos uma base para dar a conhecer a nossa proposta ao maior número de pessoas. No nosso caso, isso foi facilitado com a bolsa da OSF, mas sabemos que não chega. Como, para já, decidimos não ter publicidade – daqui a uns anos não fazemos ideia se isto será assim, ou não – apostamos nas pessoas”, explicam.

“O novo site que lançámos vai permitir, no futuro, que as pessoas que hoje apoiam o ‘Fumaça’ tenham acesso a conteúdos exclusivos ou em primeira mão”, prosseguem. “Por exemplo, entrevistas feitas a propósito de reportagens, das quais apenas se utilizaram pequenos excertos, mas que são interessantes e têm valor jornalístico, podem ser disponibilizadas na íntegra para quem faz parte da nossa comunidade. Ou, por exemplo, terem acesso ao que fazemos com antecedência, seja entrevistas, reportagens ou, até, eventos dedicados e pensados para comunidade. Achamos que a nossa sustentabilidade tem de passar por contribuições individuais mas não descuramos candidaturas a outros apoios e bolsas como as da OSF, por exemplo”.

Assumem-se como “um projecto de jornalismo independente, progressista e dissidente”. É uma forma de “jornalismo engagée”, com uma tendência política assumida? “Todo o jornalismo é engagée, ou não é jornalismo. A nossa única tendência política é a de que somos pelos direitos humanos. Somos independentes, porque as nossas escolhas editoriais dependem do interesse próprio da redação. Baliza-nos o nosso estatuto editorial e a certeza de que é a redação que decide os destinos da publicação; somos progressistas, porque acreditamos que todos os seres humanos devem ter os seus direitos básicos assegurados e subscrevemos totalmente a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e a Constituição da República Portuguesa; somos dissidentes porque vamos em sentido contrário em relação a velhos hábitos dos meios de comunicação tradicionais e não nos submetemos, por exemplo, à ditadura do tempo. E também porque entendemos que há outras narrativas mediáticas para apresentar, que há mais mundo, outras histórias e perspetivas para mostrar, vozes diferentes para ouvir. Interessa-nos falar com quem tem menos espaço”, defendem.

 

“É essencial fazer bom jornalismo”

Qual foi, até hoje, a vossa entrevista ou reportagem com maior audiência? E a que gerou um maior impacto na sociedade? “É difícil fugir à entrevista que fizemos a José Sócrates, por nos parecer que foi a que teve um maior alcance mediático”, destacam. “Houve bastante gente a falar nela e teve dezenas de milhares de visualizações e audições. Para além disso achamos que foi importante entrevistar José Sócrates sobre os seus anos de Governo e escrutiná-los. Confrontá-lo com o que fez enquanto primeiro-ministro. Acho que, ainda assim, é consensual que esse não foi o nosso melhor trabalho. A série ‘Palestina, histórias de um país ocupado’, que temos vindo a lançar nos últimos meses, tem sido muito bem recebida. Estamos muito contentes com o que fizemos nesta série e queremos fazer mais séries do género no futuro, com cada vez mais qualidade”.

O jornalismo português atravessa uma prolongada crise, com sucessivos despedimentos, encerramento de jornais, quebra de audiências e tiragens, falência do modelo de negócio, etc. Há soluções para esta crise? O que é que os meios de comunicação social deveriam fazer para se tornarem mais sólidos e rentáveis? Como é que se rompe este círculo vicioso? “Nós não temos uma solução mágica para o problema e é normal que ninguém tenha. Ninguém sabe muito bem como é que se resolve isto definitivamente. Agora há uma coisa que nos parece clara: é essencial fazer bom jornalismo”, sublinham.

“Aqui há uns tempos estivemos numa redação onde nos disseram que cada jornalista fazia, em média, uma peça por hora”, prosseguem. “É muito complicado fazer coisas relevantes e com qualidade em apenas uma hora. Percebemos os constrangimentos que os meios tradicionais têm, muito particularmente o da velocidade a que pensam, sentem que têm de pôr as coisas cá fora, mas isso não pode fazer com que a qualidade da peça saia deteriorada. E muitas vezes sai. Também é importante ser o primeiro a lançar, porque isso à partida trará mais cliques e, consequentemente, mais receita. É complicado. Têm de se tentar muitas coisas novas. É isso que estamos a fazer no ‘Fumaça’. Se descobrirmos alguma fórmula mágica, prometemos que partilhamos”.

 

“Notícias de veracidade duvidosa”

O jornalismo atravessa também uma crise de credibilidade, patente na difusão de fake news, infotretenimento, diluição de fronteiras entre informação e publicidade, alvo predileto dos populismos emergentes, etc. Na vossa perspectiva, quais são as causas para essa outra crise? E como é que se pode recuperar a credibilidade, reaproximar o jornalismo dos cidadãos e da comunidade, defender a sua importância vital no âmbito de sociedades abertas e democráticas? “Achamos que quando dizes que está patente nisso tudo também apontas as causas. É precisamente por muitas vezes os jornalistas fazerem notícias de veracidade duvidosa que o jornalismo perde credibilidade. Basta olhar para o caso do livro ‘Os Maias’, há alguns dias. Aquilo nunca pode acontecer. As fake news são o aproveitar da diluição total que houve da fronteira entre o que é informação e o que não é. Compete aos jornalistas vigiar essa fronteira e nos últimos anos foi-se vendo cada vez mais essa função a ser descurada”, respondem.

“Para combater isto é preciso reconquistar a confiança do grande público na comunicação social. Isto não se faz do dia para a noite. São precisos anos, décadas até, de jornalismo pertinente, bem feito e desprovido de outros interesses que não sejam os de informar. As pessoas sentem-se atraiçoadas porque, muitas vezes, aquilo que a comunicação social tentava passar como informação – aqui as televisões e os tablóides têm uma grande responsabilidade -, ia-se a ver e não era bem assim. E isso também se fez porque, hoje, o domínio da produção e da distribuição deixou de pertencer aos órgãos de comunicação social de antigamente: qualquer pessoa grava, filma, fotografa, verifica informações, cruza fontes. Então, o que pode distinguir-nos? Seguir um código deontológico e as regras da profissão que permitem fazer jornalismo”, declaram. “Agora estamos todos muito vacinados e temos uma desconfiança que não tínhamos há uns anos, acerca de tudo o que vemos na Internet e não só. Isso até tem coisas boas, mas a causa é má. Fomos forçados a aprender a verificar a informação que nos chega porque nos apercebemos de que muitas vezes ela não é de qualidade aceitável”.

 

“A nossa matriz não mudou”

Agora que o “Fumaça” é oficialmente um órgão de comunicação social, em que é que vai continuar (ou não) a distinguir-se dos restantes? Que características destacam como mais diferenciadoras? “Profundidade naquilo que fazemos, rejeição da ditadura do tempo e um sentido de serviço público que nos impele a ouvir as pessoas menos representadas, enquanto questionamos as decisões de representantes. A nossa matriz não mudou. Vemos a passagem a órgão de comunicação social como uma mera formalização, para efeitos legais e burocráticos, do que já somos há algum tempo. É certo que aproveitamos para mudar a imagem, o nome e apresentar um site novo, mas a nossa essência não se altera nem um bocadinho. Vamos continuar a escrutinar a democracia. Vamos continuar a fazer jornalismo independente, progressista e dissidente”.