Fundos ESG ainda têm muito espaço para crescer em Portugal

No ano passado, a maioria das subscrições de fundos ESG foram feitas por pessoas singulares (99,2%), segundo os dados da CMVM, que mostram que as subscrições líquidas se revelaram nos quatro últimos anos, apesar de 2020 ter apresentado uma diminuição de 75% face a 2019.

Em dezembro de 2020 estavam registados em Portugal cinco fundos ESG que, em conjunto, administravam 303 milhões de euros subscritos por 20.439 participantes. Os dados da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) revelam uma subida em ano de pandemia no valor dos ativos geridos face aos 272 milhões de euros registados em 2019. Portugal ainda está longe dos pares europeus, na oferta deste tipo de de produtos, mas a expetativa dos analistas é que o ritmo de expansão se acentue nos próximos tempos.

“O interesse em Portugal por este tipo de fundos tem vindo a crescer progressivamente. Estamos a observar uma mudança na visão e nas preocupações da sociedade e das organizações relativamente aos temas ‘verdes’, pelo que esta tendência irá certamente acentuar-se nos próximos anos”, assinala Bruno Marques, associate partner da Deloitte, ao Jornal Económico (JE).

No ano passado, a maioria das subscrições de fundos ESG foram feitas por pessoas singulares (99,2%), segundo os dados da CMVM, que mostram que as subscrições líquidas se revelaram nos quatro últimos anos, apesar de 2020 ter apresentado uma diminuição de 75% face a 2019.

Filipe Garcia, economista da IMF- Informação de Mercados Financeiros, realça que o mercado de fundos ESG em Portugal ainda está numa fase inicial dos dois lados da relação (oferta e procura), mas observa-se um interesse crescente pelo tema a várias dimensões. “Do lado da procura, já há interesse de institucionais e de alguns clientes mais sofisticados, com os primeiros a realizarem operações internas de acompanhamento do score ESG de empresas e fundos”, refere, explicando que não se sente uma procura específica por fundos ESG nacionais, já que este tipo de investidores normalmente constrói as suas carteiras com fundos estrangeiros e o tema da nacionalidade não é o mais importante. “O retalho ainda parece relativamente ausente na procura de soluções ESG, o que dificulta o desenvolvimento e distribuição de fundos nacionais, mas acredito que seja uma questão de tempo”, diz.

Os analistas ouvidos pelo JE são unânimes em considerar que Portugal apanhou a onda ESG ligeiramente mais tarde do que os países do centro da Europa, onde em 2020 o valor dos ativos em fundos sustentáveis totalizou 1,1 biliões de euros.

“Este valor, que representa um crescimento de 52% face a 2019 e foi motivado pelo aumento dos inflows para este tipo de investimentos, num total de 233 mil milhões de euros (quase o dobro do valor de 2019). Note-se que, no primeiro trimestre de 2020, o valor dos ativos ESG diminuiu 10,6%, tendo este valor crescido 23,2% no último trimestre”, indica o Relatório sobre os Mercados de Valores Mobiliários de 2020, da CMVM.

Segundo o supervisor, estes crescimentos estarão também ligados aos desenvolvimentos legais e regulatórios para o investimento sustentável na Europa, nomeadamente a publicação da “Sustainable Finance Disclosure Regulation”, da “Benchmark Regulation” e da “Taxonomy Regulation”. No entanto, mostram-se confiantes de que há espaço para crescer.

“Esta é uma tendência global e em que a coordenação e influências europeias são crescentes, pelo que o ESG vai natural e obrigatoriamente desenvolver-se em Portugal. Há um espaço relevante para o retalho crescer em termos de interesse nesta área e esse segmento será, porventura, o que poderá permitir acomodar os fundos nacionais”, diz Filipe Garcia, destacando que se verifica “de forma clara” o interesse das empresas, nomeadamente as cotadas ou que têm obrigações emitidas, em planear e comunicar estratégias e iniciativas ligadas à sustentabilidade e de desenvolverem internamente competências nesse sentido.

Bruno Marques exemplifica que “este caminho iniciou-se no setor da energia (naturalmente mais focado na transição energética), quer do ponto de vista da emissão de dívida, quer do ponto de vista do foco de investimento dos principais fundos criados pelas gestoras de ativos portuguesas, mas tem vindo a alargar-se a outros setores e essa tendência certamente irá continuar”. Exemplos disso, ponta, serão os projetos ligados à economia circular e à descarbonização.

Ainda um mercado de nicho
Apesar de ainda ser um mercado reduzido, o diretor do Departamento de Emitentes da CMVM, Juliano Ferreira, acredita que “o sentido do caminho que hoje se percorre parece conduzir a que este mercado deixe, de forma cada vez mais acelerada, de ser percecionado como um mercado específico, ou de nicho, antes se impondo como mainstream, como o conceito dominante”.

“Encontramo-nos ainda numa fase de transição, em que todos os atores são desafiados a questionar os seus modelos de negócio e a descobrir a via para a integração de preocupações sociais e ambientais nos seus processos decisórios, ao mesmo tempo que procuram identificar as melhores práticas de governo que os assistam nesse percurso. E a pandemia veio apenas tornar ainda mais premente este exercício”, diz.

A contribuir para este cenário, está o que Ed Freedman, economista que desenvolveu a base da teoria dos stakeholders (ver entrevista nesta edição do JE), acredita ser uma abordagem mais holística. “Provavelmente, existem muitos caminhos para gerir uma empresa. Todos exigem que as empresas tenham um propósito, prestem atenção aos stakeholders, tentem ajudar a resolver os problemas sociais e aliem a ética aos negócios”, diz. Mas, frisa: “É claro que também precisam de ser lucrativos”.

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