Fundos podem ser “empurrão” europeu para o futuro das cidades

Sempre com a sustentabilidade na mira, a Comissão Europeia pretende promover, como parte da recuperação pós-pandemia, alterações para melhorar a qualidade e condições de vida das populações urbanas.

Um dos efeitos mais visíveis da pandemia prende-se com as alterações ao modo de vida das populações, que foram forçadas a viver de forma diferente, nomeadamente nas áreas urbanas. Assim, e dados os fundos europeus que inundarão as economias dos Estados-membros nos próximos tempos, é expectável que parte destas verbas sejam canalizadas para a remodelação destes espaços, numa lógica de promoção da sustentabilidade e da melhoria das condições de vida da população.

“Neste momento, em que muitos de nós estamos a trabalhar de casa, a ideia de viver no campo, de ter acesso direto e fácil à natureza, aparece como central nas discussões do que será o futuro do espaço urbano. No entanto, estamos a discutir o futuro das cidades enquanto vivemos um presente onde aquilo que define uma cidade está temporariamente cancelado ou limitado”, começa por explicar Alexandra Gomes, engenheira do território e investigadora de cidades na LSE Cities.

Assim, importa tomar decisões tendo em vista uma realidade pós-pandémica na qual espaços de lazer e cultura não estão encerrados, o que tem servido como um dos principais motores da alteração de preferências da população urbana. No entanto, as mudanças terão mesmo de acontecer, até pela promoção da sustentabilidade a vários níveis, como pede a Comissão Europeia.

“Nas prioridades da Comissão Europeia as cidades terão um papel central”, começa por referir Miguel Eiras Antunes, líder global da prática de Smart City, Smart Nation e Local Government da Deloitte, destacando “o Pacote Ecológico Europeu, que pretende contribuir para tornar a Europa no primeiro continente neutro em carbono até 2050”, a “iniciativa Bauhaus, onde se combina um movimento cultural e urbanístico com objetivos de sustentabilidade e de centralidade nas pessoas” e a “missão dedicada às cidades inteligentes e sustentáveis, com o objetivo de tornar 100 cidades europeias com impacto neutro no clima até 2030”.

Olhando para os instrumentos disponibilizados por Bruxelas para estes propósitos, saltam à vista os 250 mil milhões focados na recuperação verde através do Plano de Recuperação e Resiliência. Cláudia Coelho, Sustainable Business Solutions Director da PwC, destaca “o apoio nas áreas dos transportes e mobilidade, da descarbonização e eficiência energética e reabilitação urbana” na área da transição climática, “a digitalização nos serviços públicos” no plano da transição digital e “os apoios nas áreas da saúde, habitação social e respostas sociais que contribuem para a integração dos mais vulneráveis” no âmbito da resiliência.

Estas são as áreas nas quais a Comissão quer assentar a recuperação pós-Covid, o que terá um impacto profundo na vida urbana, onde se concentra grande parte da população europeia e de onde provêm 70% das emissões de gases com efeito de estufa, olhando para o cenário global.

“A inteligência das cidades está intimamente ligada com os seus habitantes, os seus modos de vida e o que consideram ser essencial para o seu bem-estar. É também o bem-estar e nível de vida do cidadão europeu que guia a União Europeia, assim como um mercado comum que promove uma convergência entre estados membros e uma coesão territorial em cada estado membro”, defende Miguel Amado, Partner da EY Consulting, Government and Public Sector.

Adicionalmente, conforme detalha Miguel Eiras Antunes, “parte do financiamento europeu será veiculado através de fundos de coesão e cerca de um terço destes fundos serão alocados a projetos verdes”, além de serem ainda disponibilizados outros fundos europeus de competitividade.

“Incluem-se aqui o Horizon Europe (projetos de investigação e inovação), Digital Europe Programme (implementação de tecnologia de ponta), European Urban Initiative (demonstração de novas soluções em cidades), Programa LIFE + (apoio de projetos no domínio do ambiente e ação climática) e Connecting Europe Facility (financiamento de infraestruturas transeuropeias)”, explicita.

“Com tudo isto, abrem-se oportunidades a um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, novas formas de sociabilização, e a um desenvolvimento urbano mais social e ambientalmente sustentável, porque as questões climáticas são fundamentais no futuro das cidades”, antecipa Alexandra Gomes, deixando um alerta. “Mas não podemos esquecer os desafios: as questões de isolamento social, insegurança, e de digitalização das relações sociais que o presente parece estar a reforçar”.

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