Garrigues, Morais Leitão, BCP e Santander por trás de mais e maiores transações em 2020

‘Joint venture’ da Sonae Sierra ou venda da Brisa à holandesa APG foram os principais negócios em 2020, um ano em que a pandemia não abalou o capital movimentado nas fusões e aquisições.

Portugal movimentou pelo menos 18,1 mil milhões de euros em fusões e aquisições (M&A – Mergers and Acquisitions) em 2020, o que representa uma subida de 8% face ao ano imediatamente anterior, de acordo com os últimos dados do diretório internacional Transactional Track Record (TTR). Em ano de pandemia, o reflexo sentiu-se no número de operações, que caíram 17%, para 403.

O Millennium bcp, a Garrigues, a Morais Leitão e o Santander foram as instituições financeiras e sociedades de advogados que assessoram mais transações ou as que envolveram mais dinheiro. É o caso de negócios como o da Sonae Sierra, APG, Allianz e Elo – que criaram uma joint venture de 1.800 milhões de euros para seis centros comerciais na Península Ibérica – ou a aquisição de 81,1% do capital da Brisa pelo consórcio liderado pela holandesa APG Asset Management, por 2,4 mil milhões de euros, que encabeçam a lista.

Ainda que o imobiliário tenha sido (novamente) o sector mais ativo, teve também uma queda de 16% no volume de transações (88). A fixar-se outra vez no segundo lugar da tabela, a tecnologia registou 48 deals. Já o sector financeiro (banca e seguros) foi o terceiro mais dinâmico, com 28. “Além da atratividade que Portugal continua a ter no sector do imobiliário, esta crise terá como efeito provocar a venda de ativos fortemente impactados pela crise, em particular no sector hoteleiro. O sector tecnológico, acompanhará a tendência da digitalização das economias impulsionada pela política comunitária e o incremento dado pela pandemia. Mas o sector das infraestruturas continuará também bastante ativo, em particular na área das energias renováveis, dada a ‘agenda verde’ existente e que continuará a ter um forte impulso”, diz Paulo Trindade, sócio de M&A da Vieira de Almeida (VdA), ao Jornal Económico (JE).

Em 2020, os fundos de private equity estiveram envolvidos em 29 transações no país (das quais 12 tiveram valores os divulgados e ultrapassaram os 4,2 mil milhões de euros). Por sua vez, os fundos de capital de risco (venture capital) movimentaram 881 milhões de euros ao longo de 2020 – uma boa notícia para as startups que costumam ter dificuldade em aceder a financiamento bancário, pois tratou-se de um aumento de investimento na ordem dos 117% em relação a 2019.

Tal como têm destacado os especialistas, os terceiro e quarto trimestres foram cruciais para a recuperação de 2020 neste mercado. Só nos últimos seis meses do ano houve 208 negócios no radar do TTR, o que, apesar de representar uma redução significativa em relação aos últimos três meses de 2019, fez com que Portugal ultrapasse a barreira dos 370 negócios tornados públicos. “Na primavera as transações foram muito afetadas por incerteza e pessimismo. Em todo o caso, assistiu-se a uma recuperação forte no segundo semestre, impulsionada, de modo particular, por operações de venda de ativos a fundos de private equity e a outros investidores com disponibilidade de liquidez. As condições que permitiram essa recuperação no segundo semestre do ano passado mantêm-se, nomeadamente a disponibilidade e o baixo custo do capital”, lembra David Oliveira Festas, sócio da CS Associados. “O último trimestre de 2020 foi muito ativo, pelo que não surpreende que, neste primeiro bimestre, o ritmo não seja ainda acelerado”, sublinha o advogado, antevendo agora oportunidades no turismo e operações com SPAC (Special Purpose Acquisition Companies) em alternativa às de M&A ou IPO (oferta pública inicial).

Aliás, as previsões dos consultores, banqueiros e advogados (ler páginas seguintes deste Especial) indicam que os ensinamentos desse período ficaram e a resiliência irá manter-se. “O confinamento poderá ter um impacto nas puramente transações nacionais, ainda assim de forma limitada, pois, passado um ano desde o início da pandemia, todos os atores já aprenderam a trabalhar em ‘ambiente Covid’, como já se demonstrou”, refere Paulo Trindade. “Não podemos esquecer que as previsões económicas para 2021 apontavam para uma recuperação económica assumindo pressupostos que não se estão a verificar em matéria de combate à pandemia, como é o caso da vacinação e o papel prevalecente das novas estirpes. A isto acresce a demora na execução da chamada bazuca europeia, as interrogações sobre como será gerido o fim das moratórias entre outros fatores de incerteza próprios de uma crise que só tem paralelo (com as devidas adaptações) há 100 anos atrás”, alerta o advogado da VdA.

Diogo Perestrelo, sócio da PLMJ, destaca ainda a venda da Prio pela Oxy e a venda da TAP pelo acionista David Neeleman e elenca ao JE três razões pelas quais o atual contexto é “extremamente favorável” ao crescimento expressivo do M&A: “Desde logo, pela enorme liquidez que existe no mercado internacional dos fundos de investimento. Depois, pelas taxas de juro, que continuam muito baixas e, finalmente, pelo fator da recuperação da confiança que a vacina veio trazer aos mercados”. “Se comparamos com há um ano, quando fomos surpreendidos pela pandemia, vemos os investidores a avançarem sem hesitação em operações com uma dimensão bastante robusta. Fechámos cinco transações entre o fim e o início deste ano e os dois primeiros meses do ano começaram muito fortes, como não assistíamos há muito tempo”, afirma o cocoordenador da área de Corporate/M&A da PLMJ.

Apesar de menos imponente em Portugal, um dos sectores que continuou a onda de consolidação dos últimos anos foi o farmacêutico – e é nesse rumo que deverá prosseguir, mas agora com atenção redobrada por parte dos reguladores. As autoridades da concorrência da União Europeia, da América do Norte e do Reino Unido anunciaram esta semana que iriam partilhar conhecimento sobre como examinar fusões de farmacêuticas para impedir que tais acordos possam aumentar os preços ou travar a inovação. O grupo de trabalho, apresentado por Bruxelas na terça-feira, inclui a FTC dos Estados Unidos, o Bureau de Concorrência canadiano, a Autoridade de Concorrência do Reino Unido e o Departamento de Justiça norte-americano. “Dado o alto volume de fusões farmacêuticas nos últimos anos, e no meio de um disparo dos preços dos medicamentos e preocupações constantes sobre a conduta anticoncorrencial na indústria, é imperativo que repensemos a nossa abordagem em relação à revisão das fusões”, referiu, aquando do lançamento desta equipa, Rebecca Slaughter, da FTC. O mesmo poderá seguir-se para outras empresas.

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