Governo britânico vai enfrentar desafios orçamentais e económicos devido ao Brexit

O governo britânico pode reivindicar vitória ao concretizar o Brexit a 31 de janeiro mas, resolvido o divórcio entre Reino Unido e União Europeia, falta negociar a relação futura e anteveem-se potenciais escolhas difíceis com impacto no orçamento britânico.

Quando o ministro das Finanças, Sajid Javid, apresentar o primeiro orçamento pós-Brexit, a 11 de março, vai poder contar com mais cerca de 8 mil milhões de libras (9,5 mil milhões de euros) líquidos anuais, correspondentes à contribuição anual do Reino Unido para a UE, que já contabiliza o reembolso, fundos estruturais e subsídios que recebia de volta.

Mas este dinheiro não é lucro fácil: o governo britânico vai ter de tapar um buraco anual de 1,8 mil milhões de libras (2,14 mil milhões de euros) que as regiões britânicas mais desfavorecidas recebiam em fundos estruturais, segundo um relatório da Aliança das Comunidades Industriais [Industrial Communities Alliance].

O País de Gales, que votou para sair da UE no referendo de 2016, foi o principal beneficiário dos fundos no Reino Unido, recebendo mais de 2 mil milhões de libras (2,4 mil milhões de euros) ao longo dos sete anos do orçamento comunitário de 2014-2020. A Escócia recebeu quase 770 milhões de libras (900 milhões de euros).

O governo vai também ter de compensar os agricultores britânicos que beneficiavam da Política Agrícola Comum da UE, e que chegaram aos 24 mil milhões de libras (29 mil milhões de euros) entre 2014 a 2020.

Um novo Fundo de Prosperidade Partilhada está previsto ser criado este ano mas, entretanto, o governo terá de equilibrar estes compromissos com medidas que estavam no programa eleitoral, de investimento nos serviços públicos, como saúde, educação e segurança, e em infraestruturas.

A conjuntura não é favorável, pois a economia britânica está quase estagnada, tendo o PIB crescido apenas 0,1% no trimestre terminado em novembro, face ao trimestre anterior, o pior desempenho do mesmo período desde 2012, mas algumas perspetivas são otimistas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou esta semana que espera que o PIB britânico cresça mais em 2020 do que os grandes países europeus, acelerando de 1,3% em 2019 para 1,4% este ano e 1,5% em 2021.

O primeiro-ministro, Boris Johnson, disse recentemente que “deseja uma nova parceria positiva entre o Reino Unido e a UE [União Europeia], baseada em cooperação amigável, história, interesses e valores partilhados”, incluindo um acordo de livre comércio que abranja bens e serviços e cooperação em outras áreas.

Em resposta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, explicou que, sem aderir à liberdade de circulação de pessoas e sem estar alinhado com as leis ambientais, laborais, fiscais e sobre ajudas estatais, não é possível ao Reino Unido o acesso ao mercado único que permite a circulação de capitais, bens e serviços.

“Quanto mais divergência houver, mais distante será a parceria”, justificou.

Um estudo publicado pelo próprio governo britânico em novembro de 2018, na altura liderado por Theresa May, estimava que um acordo de comércio livre semelhante ao do Canadá levaria à contração em 4,9% do Produto Interno Bruno (PIB), comparando com o que se estimava que seria se o Reino Unido continuasse como membro da UE.

De acordo com cálculos da Bloomberg, a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) já custou mais de 150 mil milhões de euros à economia britânica, podendo o valor superar 230 mil milhões até final do ano.

O estudo da Bloomberg comparou a evolução britânica com a dos seus pares no G7 [sete países mais industrializados do mundo] e estimou que “a economia britânica está 3% mais pequena do que poderia estar caso a relação [com a União Europeia] se tivesse mantido”.

Para Boris Johnson, que está determinado em iniciar este ano uma “década de prosperidade e oportunidades”, a estratégia de negociação com Bruxelas é arriscada.

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