Hugo Leal: “Deixar o futebol não é uma iniciativa do jogador”

A dirigir o futebol de formação do Estoril Praia, Hugo Leal falou ao Jornal Económico sobre o fim da carreira, no seguimento do artigo “E depois do Adeus? Tarantini quer mudar mentalidades”. Conheça este e outros depoimentos sobre a temática.

O fim da carreira de um jogador de futebol profissional dificilmente ocorre por decisão do próprio atleta não querer exercer mais. Esta é a conclusão de Tarantini – ainda em atividade -, de Hugo Leal, de Fábio Faria e de João Gomes (três ex-jogadores de futebol profissional), que demonstraram tratar-se sempre de um conjunto de circunstâncias que os “empurra” para fora das quatro linhas.

Idade, lesões, fraco rendimento desportivo ou falta de interesse dos clubes no atleta são os principais fatores que obrigam um jogador a retirar-se.

Tendo em conta que o jogador de futebol termina a carreira entre os 30 e os 35 anos, embora existam exceções, muitas são as questões que se levantam perante alguém que tão novo fica “reformado”. E somando o cenário de que em Portugal, até há pouco tempo, os principais organismos que regulam o futebol nacional, e os próprios jogadores, não estavam interessados no tema, levanta-se a questão: Como é que o jogador de futebol pensa, gere, e encara o fim da sua carreira?

Tarantini, de 34 anos, jogador e capitão de equipa do Rio Ave FC, divulgou em janeiro de 2017 os primeiros dados estatísticos que conseguiu reunir no âmbito de “a minha causa” – projeto que visa alertar os jogadores de futebol, em particular, e os altetas de alta competição, em geral, para a necessidade de se prepararem para a vida e não, apenas, para o futebol.

O futebolista de Vila do Conde identificou que o jogador português termina a carreira em média aos 30,9 anos de idade; apenas 16% dos jogadores portugueses chegam a atuar na I Liga de futebol profissional, sendo que menos de 4% chegam aos três grandes (SL Benfica, Sporting CP e FC Porto).

Os dados recolhidos ainda identificaram que a progressão de carreira de um futebolista português pode ser pouco consistente, para a maioria: o jogador nacional realiza, em média, cinco épocas nos escalões de formação, oito no escalão sénior, sendo que três épocas são passadas fora de Portugal. Aliás, 10% dos futebolistas nacionais têm que “partir para o estrangeiro” para manter a carreira.

Estes dados vão ao encontro da experiência de balneário de Tarantini, que afirmou ao Jornal Económico: “Há uma ilusão muito grande que as oportunidades, seja qual for o nível competitivo, serão e chegarão para todos. E mesmo que cheguem, [os jogadores] acreditam que ter dinheiro irá resolver todos os problemas das suas vidas”.

Se associarmos o estudo de Tarantini aos últimos dados (2016) do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) – 50% dos jogadores da I e II Liga portuguesas têm apenas o 12.º ano; 5% tem uma licenciatura e 45% não tem qualificações para enfrentar o mercado de trabalho – percebemos por que razão o capitão do Rio Ave, com “a minha causa”, sentiu a necessidade de “despertar uma geração de desportistas”.

O Jornal Económico falou com três ex-jogadores sobre o fim das suas carreiras e que problemas enfrentaram. Por diferentes motivos, estes casos são representativos do estado atual do futebol nacional.

João Gomes

João de Oliveira Gomes, 23 anos, deu por terminada a carreira no futebol em 2016, quando militava no Eléctrico de Ponte Sôr, no Campeonato Nacional de Seniores, depois de ter passado toda a formação no SL Benfica, onde participou na final da primeira edição da UEFA Youth League – perdida para o FC Barcelona, em 2014 – e chegou a ser apontado como uma das promessas da cantera da Luz. Atualmente, João Gomes é agente imobiliário e está a terminar os estudos académicos.

Ao Jornal Económico, o ex-atleta contou que começou a pensar em terminar a carreira quando jogava nas divisões inferiores nacionais. Depois de sair da Luz – o Benfica não apresentou uma proposta de contrato profissional – João Gomes, aconselhado pelo agente desportivo, tentou a sorte fora do país.  Começou pelo Derby County, em Inglaterra, treinado pelo icónico Steve McClaren, antigo selecionador inglês. “Foi uma experiência nova. Pela primeira vez andava à procura de clube, pela primeira vez em muito tempo estava fora daquela que tinha sido a minha casa, nos últimos anos, e, pela primeira vez, estava noutro país sem dominar completamente a língua – totalmente sozinho”.

“Era tudo novidade para mim, desde o ritmo à intensidade. Não tinha nada a ver com o que estava habituado nos juniores do Benfica. No início era para ficar uma semana, mas eles foram gostando e acabei por ficar cerca de um mês. No final, não fizeram nenhuma proposta e fui tentar a minha sorte no Glasglow Rangers”, detalhou.

Na Escócia, João Gomes só pôde prestar provas no último dia dos treinos de captação do clube, antes da pré-época, por causa de um problema na sua documentação. Participou logo num jogo-treino e tudo correu mal: “Cheguei ao jogo e estava completamente perdido, não sabia o nome dos meus colegas, não sabia como a equipa jogava, não sabia nada, e correu mal. Acabei por não ficar também”.

Goradas as experiências no estrangeiro, restavam propostas de clubes do Campeonato Nacional de Séniores, a antiga III Divisão. Esteve uma época no GD Ribeirão, seguiu-se o Quarteirense e terminou no Eléctrico FC, em 2016.

O antigo alteta explicou que o abandono dos relvados não foi uma decisão imediata, mas que o fim foi surgindo. Sem muitos detalhes, disse que o fim chegou pela desmotivação que sentiu com a pouca exigência competitiva daqueles clubes, nos treinos e nos jogos – uma realidade muito diferente daquela que tinha no Benfica. “Já ia para os treinos como um profissão, quando antes ia pelo prazer e emoção que o futebol me trazia”.

Com o fim prematuro da carreira, João Gomes contou que não se sentiu “desamparado” por “ter tido sempre o apoio da familia e dos mais próximos”, embora – admitiu – tenha sido difícil imaginar a sua vida fora das quatro linhas, até porque se tinha “desleixado” nos estudos.

Para João Gomes o facto de ter tido um agente que pensava na sua carreira “foi bom”, visto que o agora agente imobiliário, natural de Alpiarça, bem como a sua família, não tinha qualquer experiência “nesse ramo”.

Questionado se o Benfica teve preocupação com o desenvolvimento da sua carreira, enquanto fazia parte da formação da Luz, Gomes contou que “na formação os treinadores vão tentando avisar que muito poucos chegam à equipa principal e que a maioria não vai ser jogador profissional”. “Mas na altura somos novos e sonhadores e a única coisa em que pensamos é que vamos ser nós esse jogador a chegar à equipa principal”, finalizou.

Fábio Faria

Fábio do Passo Faria, 28 anos, atualmente a treinar os júniores do Rio Ave FC, viu-se obrigado a terminar a carreira aos 23 anos, após ter sido detetado um problema cardíaco, no final de um jogo entre o clube de Vila do Conde e o Moreirense, a contar para a Taça da Liga, em 2012. Após sucessivos tratamentos e exames, ao longo de um ano, na tentativa de regressar aos relvados, o fim da carreira teve que acontecer.

Fábio Faria disse que toda a situação foi inesperada e que, por isso, não soube lidar com o momento. O antigo jogador, formado pelo Rio Ave, com passagem pelo Valladollid e Paços de Ferreira, era dos quadros do Benfica, e estava emprestado ao clube que o lançou, quando o fim prematuro chegou. “Tive que recorrer a ajuda de um psicólogo e de um psiquiatra, porque não estava a conseguir ultrapassar aquele momento”, referindo que o apoio da família, do Benfica, de Luís Filipe Vieira e do SJPF foi importante.

“Foi complicado, porque lutei tanto para chegar ao Benfica, um clube grande, o clube do coração. Foi um ano muito difícil. Não conseguia perceber por que razão aconteceu a mim”, explicou, ao confidenciar que chegou uma altura em que não “queria sair de casa, nem conviver”.

O ex-jogador não tinha nada planeado. Aos 22 anos, apenas com o 11.º ano de escolaridade, Fábio Faria afirmou que “só pensava em futebol” e que só deveria pensar no fim da carreira – “talvez” – a partir dos 26 ou 27 anos.

Com o impasse suscitado na sua vida, o antigo defesa central, investiu no curso de treinador e acabou por conseguir ingressar no staff técnico do emblema de Vila do Conde.

Faria era agenciado por Jorge Mendes, desde os 16 anos, e, dado a inevitabildiade, o facto de ter agente não pesou para a sua “desorientação” inicial. Ainda assim lembra, sem especificar, que ficou “um bocado chateado” com o super-agente. “Quando deixas de ser jogador e dar rendimento, obviamente que as pessoas se afastam”, sintetizou, garantindo que agora está tudo resolvido e que já percebe as “coisas de maneira diferente”, até porque atualmente os empresários já têm outros profissionais a acompanahar o jogador. “O futebol é mesmo assim”.

Questionado sobre a realidade dos jovens valores em formação, o treinador dos juniores do Rio Ave acredita que as coisas estão diferentes. “Noto que as escolas estão mais preparadas para os jovens desportistas. Na minha altura, a escola não estava preparada. Eu era internacional – de 15 em 15 dias ia representar a seleção -, não tinha tempo para estudar e, mesmo assim, era obrigado a fazer os testes. A minha mãe até se chateou com o diretor da escola”, contou.

Mas a solução não vem só das escolas: “neste momento, tanto clubes como escolas estão mais preparados”, indicou.

Atualmente, Fábio faria participa, pontualmente, em palestras de “a minha causa”,  organizadas por Tarantini,  e a mensagem que disse que anda a transmitir é, essencialmente: “primeiro os estudos, depois o futebol. Isso é o mais importante”.

Hugo Leal

Hugo Miguel Ribeiro Leal, agora com 37 anos e a dirigir o futebol de formação e projetos internacionais do GD Estoril Praia, é entre João Gomes e Fábio faria, o ex-atleta que teve uma carreira mais consensual, ao longo de 18 anos em alta competição.
Depois de passar por SL Benfica, Alverca, Atlético de Madrid, Paris Saint-Germain, FC Porto, Académica de Coimbra, Sporting de Braga, Belenenses, Salamanca e Estoril Praia, para Hugo Leal dar por terminada a carreira, aos 33 anos, não foi difícil.

“Eu não tive grandes dificuldades, porque já em final de carreira estava com algumas guerras físicas – tudo me custava -, e isso facilitou a minha opção em deixar o futebol. Em termos financeiros, tinha uma estrutura organizada e estava bem preparado para deixar de jogar futebol”, explicou.

Natural de Cascais, Hugo Leal contou que tudo decorreu com normalidade. O ex-atleta tinha algumas ideias, alguns projetos e disponibilidade para se dedicar a eles. “Eu fui-me preparando com tempo, felizmente tive essas capacidades”, afirmou, contando depois que aproveitou, em 2012, o programa Novas Oportunidades para terminar o ensino secundário.

“[Enquanto jogador] repeti três vezes o 11.º ano. Desistia sempre a meio do ano letivo, porque representava a selecção sub-16, sub-18, sub-20 e quando terminava um estágio ia para outro. Era muito difícil conciliar as duas vertentes – desportiva e académica”.

Conhecedor da realidade do futebol português Hugo Leal, com toda a frontalidade, disse que quando era jogador nenhum clube, federação, liga ou sindicato, demonstrou , alguma vez, ter interesse com o desenvolvimento e, consequente, fim da carreira dos jogadores.

“O futebol gera e movimenta muito dinheiro, mas a grande maioria não ganha as fortunas que as pessoas pensam que se ganha”, desabafou quando confrontou a “o sonho do futebol” com a realidade.

Hugo Leal foi representado por Jorge Mendes – “quase toda a carreira” – mas a figura dos empresários, segundo o ex-jogador, “centrava-se muito no momento da transação ou renovação de contrato”. Leal lembrou até que hoje já se avaliam vários fatores – físicos, psíquiátricos, estabilidade familiar, etc. – quando se fala em agenciamento de atletas, ao contrário do que viu no seu tempo. “Aquilo que faltava e que acho que começa a haver, é interesse em tudo o resto [além do futebol]”.

Questionado sobre aquilo que observa hoje, entre os mais jovens desportistas, visto que é responsável da formação do Estoril Praia, Hugo Leal afirmou que a sua atitude é de alertar os jovens para a realidade. “O meu discurso vai na perspetiva de preparar [os jovens futebolistas] para a vida e não para uma carreira desportiva, criando logo a noção que  muito poucos deles vão chegar a ter uma oportunidade no futebol profissional”.

Para o agora dirigente, “deixar o futebol não é uma iniciativa do jogador”, o que pode representar uma transição difícil em aspetos importantes. O ex-atleta salientou, por isso, como é a importante preparar a vida além do futebol profissional. Ponto essencial para Hugo Leal é o suporte familiar, que no seu caso nunca faltou.

“Se animicamente já é muito difícil, é importante criar uma estrutura que faça frente à realidade”, concluiu.

Este foi o segundo de uma série de artigos sobre o fim da carreira do jogador de futebol, tendo por base o preojeto “a minha causa”, de Tarantini.

Joaquim Evangelista: “Futebolistas não estão conscientes das dificuldades após o fim da carreira”

Tarantini: “O fim da carreira no futebol pode deixar marcas negativas e traumáticas”

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