Interior rejuvenesce com alunos internacionais

Da lusofonia ao Extremo Oriente, passando pela América Latina e África, o mapa da internacionalização já cobre o mundo, como explica nesta entrevista Sobrinho Teixeira, secretário de Estado do Ensino Superior.

Sempre defendeu e pôs em prática a visão de Portugal como um país exportador de ensino superior. Fê-lo durante os 12 anos que esteve à frente do Instituto Politécnico de Bragança e continuou esse exercício na Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

O número de alunos internacionais cresceu durante esta legislatura?
Sim, cresceu consideravelmente em termos globais. No caso dos alunos internacionais houve um aumento de quase 50% e as perspetivas são para continuar a crescer.

 

Quanto representam os alunos internacionais no ensino superior?
Atualmente, os alunos internacionais representam crca de 13% daquilo que é o ensino superior em Portugal. No caso dos mestrados têm uma grande percentagem. Em muitos deles são mesmo a maioria dos alunos que temos a estudar connosco e há instituições que já são constituídas por mais de 30% de alunos internacionais.

 

Quais são as instituições com mais alunos estrangeiros?
Naturalmente, os alunos internacionais também procuram instituições inseridas nas grandes metrópoles de Lisboa e Porto, mas o que considero mais relevante é termos uma procura global por todo o país e nomeadamente por regiões do interior e de baixa demografia.

 

Pode exemplificar?
Era conhecido o fenómeno do Politécnico de Bragança, que tem, neste momento, mais de 3.000 alunos internacionais, e do qual se espera que continue a responder nessa capacidade de atração. Agora estamos a falar de cidades como Castelo Branco, Portalegre e Beja, que estão a crescer muito em termos de alunos que vêm de fora.

Vai ser um incremento para todo o país de forma transversal e com grande fortuna para todos. Atrair estes alunos é um contributo de grande relevância que as instituições de ensino superior dão para o grande objetivo nacional de não diminuir a demografia, trazendo um certo rejuvenescimento à comunidade, e de manter uma força de trabalho que corresponda às perspetivas de crescimento da economia.

 

A diplomacia económica também pode contribuir?
O nosso objetivo é que o ensino superior e a ciência façam cada vez mais parte da diplomacia económica de Portugal e sejam parte importante do setor exportador. Além de contribuir para o PIB nacional, com grande retorno para todos, exportar ciência e conhecimento é certamente um dos maiores legados que podemos deixar às gerações mais novas.

 

O que faz de Portugal um destino tão atrativo para os estudantes internacionais?
Uma das razões é porque Portugal é um país da Europa e ser um país da Europa é algo que dá visibilidade em termos da qualidade do que se faz e da seriedade com que se faz. Há um aspeto que gostava de relevar: muitas vezes olhamos para a Europa apenas como um balanço de fundos comunitários, mas é muito mais do que isso. É uma Europa de valores, de oportunidades e de afirmação da qualidade global. Uma segunda razão prende-se com o facto de o português ser usado por cerca de 300 milhões de pessoas. Este é um património global de grande relevo que se estima venha a atingir os 500 milhões de pessoas dentro de três décadas. Diria que a terceira razão é a relação custo-benefício entre qualidade de vida, custo de vida e segurança em Portugal. E uma última, que porventura até será a primeira, é a qualidade das instituições de ensino portuguesas, reconhecida e plasmada nos rankings internacionais. Isto faz com que as nossas instituições sejam associadas às três razões que referi anteriormente.

 

O maior contingente de alunos vem do Brasil e a língua ajuda, certamente. Que outras nacionalidades se poderão tornar relevantes?
Temos que olhar para o mundo da lusofonia de onde é normal e expectável que venham muitos estudantes. O espaço da lusofonia tem uma grande relevância. Estamos a falar do Brasil, um país com muitos milhões, mas também temos muitos estudantes de Angola, Cabo Verde, São Tomé, Moçambique, Timor-Leste, da região administrativa de Macau, da Guiné-Bissau. Também há um conjunto de países no Extremo Oriente cujos jovens procuram muito Portugal, como a China, que é uma grande comunidade, mas também a Índia, o Paquistão, o Bangladesh, o Nepal. Há ainda a assinalar um outro nicho, que é aquele conjunto de países que fazia parte do antigo bloco da União Soviética, como o Cazaquistão, o Uzbequistão…

 

Esse nicho tem expressão?
Sim, já é expressivo e ainda por cima são países que têm alguma capacidade económica e cujas famílias, nomeadamente as famílias da classe média, procuram dar oportunidade aos seus filhos para estudarem na Europa. Temos também toda a América Latina, desde o México, um país muito populoso, à Colômbia e ao Peru, que são países que também procuram muito Portugal. Depois, e embora com menos concentração mas com alguma capacidade de captação, estão o Norte de África, dada a normal relação que temos com o Mediterrâneo, e mais além a Nigéria, o Gana e o Gabão.

 

A captação passa por usar o inglês como língua franca no ensino?
Uma vez que os estudantes que vêm de diversas partes do globo não são falantes de português, esta capacidade de atração das instituições portuguesas determina que muitos dos nossos cursos tanto de licenciatura como mestrados sejam, neste momento, ministrados em inglês. Não há outra maneira desses estudantes terem essa formação. Várias instituições já o estão a fazer: disponibilizam cursos de português que vão desde um semestre até três anos, que são normalmente validados na sua proficiência pelo Instituto Camões. Ou seja, alguém que vem para cá, que tem que estudar em inglês, mas vai aprender a língua portuguesa para quando retornar ao seu país ter uma melhor perspetiva de emprego e de trabalho. Importa aproveitar esta comunidade e usar ferramentas que sejam fáceis de transmitir.

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