“Hoje à noite, mudamos de marcha na Faixa de Gaza”, disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, num vídeo divulgado esta quarta-feira à noite. “O exército israelita está a tomar território, atacando os terroristas e destruindo as suas infraestruturas. E também estamos a fazer outra coisa: a tomar o corredor Morag, o segundo corredor de Filadélfia”, numa referência a um antigo colonato israelita em Gaza, ilegalizado à luz do direito internacional, que separará Rafah de Khan Younis, no sul de Gaza. Netanyahu dava assim mais pormenores sobre as notícias que marcaram o dia, segundo as quais Israel vai aumentar a sua permanência na Faixa de Gaza, indo contra todos os preceitos internacionais que conferem o enclave à posse da Palestina.
Horas antes, o chefe do exército israelita, Eyal Zamir, afirmava que o exército está “a expandir” os ataques em Gaza, sem fornecer detalhes. “A única coisa que pode impedir-nos de continuar a avançar é a libertação dos reféns”, disse Zamir em comunicado. Todos os prisioneiros israelitas em Gaza teriam sido libertados na segunda fase do acordo de cessar-fogo, mas Israel quebrou unilateralmente o cessar-fogo e retomou a guerra após o fim da primeira fase. Ao mesmo tempo, ocorreu um ataque militar israelita ao campo de refugiados de Dheisheh, ao sul de Belém, informou a agência de notícias palestiniana Wafa. Ao longo do dia, foram mortos pelo menos 71 palestinianos, aumentando a lista de 1.066 mortes verificadas desde que Israel retomou os ataques a Gaza.
A ameaça iraniana
Entretanto, cresce a evidência de que o Irão pode decidir não ficar quieto após mais esta investida do exército israelita, que continua, por outro lado, a sua atividade no sul do Líbano. O momento é de tal forma sensível que o presidente francês, Emmanuel Macron, convocou vários elementos da estrutura de segurança do país para analisar os acontecimentos. Ao mesmo tempo, receberá esta quinta-feira o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, que também se encontrará com o seu homólogo francês, Jean-Noël Barrot. “O rompimento do cessar-fogo e a retoma dos ataques israelitas em Gaza constituem um dramático retrocesso”, declarou Barrot na Assembleia Nacional, denunciando também a morte de trabalhadores humanitários e especificando que é isso que ele planeia dizer a Gideon Saar.
Londres também “não apoia” a expansão das operações militares em Gaza. “O Reino Unido não apoia a expansão das operações militares de Israel”, disse o secretário de Relações Exteriores britânico, Hamish Falconer, acrescentando que o executivo está “profundamente preocupado” com o regresso das hostilidades. “A luta contínua e o derramamento de sangue não são do interesse de ninguém. Todas as partes, incluindo Israel, devem respeitar o direito humanitário internacional.”
Mas a grande preocupação de França está voltada para o Irão, com o regime de Teerão a reagir ao fato de os Estados Unidos terem deslocado para bases que alcançam facilmente a república islâmica aviões de última geração e outro material de guerra. Numa altura em que o Ocidente tentava convencer Teerão a regressar ao perímetro do acordo nuclear, a iniciativa dos Estados Unidos pode ter acabado com essa esperança. De facto, segundo os jornais iranianos, os vice-ministros das Relações Exteriores do Irão e da Rússia, Majid Takht Ravanchi e Sergei Ryabkov, discutiram esta quarta-feira as negociações relacionadas com o programa nuclear de Teerão, informou a agência de notícias estatal RIA Novosti. Não foram divulgados pormenores sobre o encontro, mas as notícias especificavam que os dois lados concordaram em continuar as consultas para desenvolver interesses comuns.
Este desvio da postura iraniana foi certamente um dos fatores que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros francês a alertar, também esta quarta-feira, que, se as potências mundiais não conseguissem chegar rapidamente a um novo acordo com o Irão sobre o programa nuclear, então um confronto militar parece “quase inevitável”. Falando depois da reunião convocada por Macron, Jean-Noël Barrot pareceu querer aumentar a pressão sobre Teerão. “A janela de oportunidade é estreita. Temos apenas alguns meses até o acordo de 2015 expirar. Em caso de fracasso, um confronto militar pareceria quase inevitável”, disse Barrot em audiência parlamentar.
Trump, que pediu (por carta enviada a partir da Arábia Saudita) ao líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, que se envolvesse imediatamente em negociações diretas com os Estados Unidos, ameaçou o Irão com bombardeios e tarifas secundárias se o país não chegasse a um acordo sobre o programa nuclear.
Fontes diplomáticas disseram que ministros da França, Grã-Bretanha e Alemanha, todos signatários do acordo de 2015, esperavam discutir o dossiê do Irão com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, quando se reunirem em Bruxelas para uma reunião ministerial da NATO esta semana. Mas o certo é que o Irão respondeu à carta dizendo que não está disponível para conversações diretas com a administração Trump, não se sabendo, para já, se o presidente admite ou não esta recusa.
As potências europeias têm tentado aumentar a pressão sobre o Irão para persuadir o regime a voltar à mesa das negociações, mas esta deriva para os ‘braços’ russos indica que a pressão não está a funcionar no sentido que o Ocidente esperava.
O jornal iraniano ‘Teheran Times’ disse, por seu lado, que a Rússia emitiu um alerta afirmando que quaisquer ataques militares às instalações nucleares do Irão terão efeitos “catastróficos”. Numa entrevista ao jornal International Affairs, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, levantou preocupações sobre a questão e enfatizou que as ameaças e ultimatos aumentarão a tensão. “Consideramos tais métodos inapropriados, consideramo-los uma forma de os Estados Unidos imporem a sua vontade ao lado iraniano”, acrescentou. Recorde-se que Trump disse em declarações à NBC News que “se eles não fizerem um acordo, haverá bombardeamentos. Serão bombardeamentos como eles nunca viram antes.” Ryabkov acredita que as declarações de Trump apenas tornaram a situação mais complicada. “As consequências disto, especialmente se os ataques forem à infraestrutura nuclear, podem ser catastróficas para toda a região”. E pediu que sejam feitos esforços para encontrar uma solução pacífica.
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