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Já dizia Borges, a leitura deve ser uma das formas da felicidade

É um dos objetos que mais crónicas de morte anunciada tem tido. Continua por cá. É prescrito por médicos e tomado em doses elevadas por todos os que têm o vício da leitura. Tomámos o pulso ao que os lisboetas leram em 2025. Uma mistura explosiva e muito recomendável.
24 Janeiro 2026, 10h00

“O verbo ler, como o verbo amar e o verbo sonhar, não suporta o modo imperativo. Eu aconselho sempre os meus alunos que se um livro os aborrece o abandonem; que não o leiam porque é famoso, que não o leiam porque é moderno, que não o leiam porque é um clássico. A leitura deve ser uma das formas da felicidade e não se pode obrigar ninguém a ser feliz.” Jorge Luís Borges, o escritor e, acima de tudo, devorador de livros, dizia que vivia na literatura. São dele as palavras acima. Podemos invejá-lo, cientes de que o prazer de ler não é uma adrenalina instantânea, antes uma conquista, uma vitória pessoal de cada leitor sobre a preguiça. E uma vitória sobre a anunciada morte do livro. Manifestamente exagerada, como o JEpôde constatar tomando o pulso ao que os lisboetas andaram a ler em 2025. Para isso, auscultámos um grupo heterogéneo de livrarias em Lisboa, desde pequenas e temáticas às que integram grandes grupos ou fazem do livro usado o seu pilar.
Mas já lá vamos.

Antes de mergulharmos nas leituras dos habitantes da “grande alface”, fazemos um breve enquadramento a partir do estudo APEL 2025 ‘Hábitos de Compra e Leitura em Portugal’. O mote aqui é a edição impressa, vulgo papel, que o estudo diz ser o formato dominante: 92% dos portugueses preferem ler em suporte físico, descendo para os 84% na faixa etária entre os 15 e os 24 anos (dados de 2024). Enquanto não chegam os dados referentes a 2025, vejamos o que nos diz este estudo sobre os hábitos de compra. 58% dos portugueses adquiriram livros em 2024 (65% em 2023), com uma média de 3,9 exemplares por pessoa, menos do que em 2023 (4,8). A faixa etária que comprou mais livros em 2024 é a que se situa entre os 35 e os 54 anos (82%). Isto é apenas um ‘aperitivo’. Mas deixemos as percentagens em pousio e vamos sentir o pulso ao que os lisboetas leram no ano passado.

Ecletismo e poção mágica
Uma evidência. Gritante. Comum a diversas livrarias. “Astérix na Lusitânia” chegou com estrondo. Se fosse um filme seria um blockbuster. Sendo um livro é um bestseller. Isabel Ramalhete, da histórica Buchholz, é assertiva.“Dentre os ‘clássicos’ da BD, o Astérix é bastante abrangente. E, neste caso concreto, teve um significado especial e uma procura maior por ser na Lusitânia.” Se o famoso gaulês arrasou nas vendas, três autores portugueses não ficaram muito atrás nas preferências dos ‘leitores Buchholz’. Falamos de Tolentino Mendonça, António Damásio – que aborda “um tema muito premente e teve uma procura brutal” – e de Gonçalo M. Tavares, publicado já no final do ano, “e eleito pela maior parte dos críticos literários como um dos melhores livros do ano”, frisa a responsável. Olhando para o público da Buchholz, Isabel Ramalhete diz ao JE que “o leitor jovem tem crescido e cada vez mais lê na língua original, inglês em particular, o que nos levou a aumentar a oferta de ficção.” Mais. Os clássicos da literatura e os autores premiados, caso do Booker Prize, estão entre os mais procurados. “As listas dos mais vendidos ou melhores do ano de publicações como a «New Yorker» e o «Guardian», são referências para os nossos leitores.”

O irredutível gaulês também ocupa o primeiro lugar do pódio no Top 20 Geral da rede livreira do Grupo Almedina e a segunda posição no Top 3 Ficção da Fnac (ver caixa). O Grupo Bertrand não facultou quaisquer dados, ao passo que Ana Coelho, da Palavra de Viajante – a única livraria em Portugal dedicada a viagens – confirma que o livro de Fabcaro, “Astérix na Lusitânia”, foi o mais vendido na sua loja, nas imediações de São Bento, e que “O Egito e Outros Textos sobre o Médio Oriente”, de Eça de Queiroz, brilhou igualmente no seu Top 4 (ver caixa).

Pequenos projetos, grande fôlego
“Trabalhamos muito com pequenas editoras, aquelas que nos parecem ser as mais interessantes e que podem marcar um discurso da livraria. Os critérios são de natureza literária, por um lado, política, filosófica, por outro”, sublinha Fernando Ramalho, da Tigre de Papel. Aqui, a lógica de top não vinga. Antes se privilegia esses pequenos projetos, tutano deste espaço onde coabitam a literatura (portuguesa e traduzida), a poesia e o ensaio (ciências sociais, filosofia, política, etc.), e se aposta na curadoria com uma programação “singular, alternativa”. E sente-se o pulso ao ‘público tigre’, mesmo sem o rigor de um top. Ou seja, sabe-se na ponta da memória quais foram os livros mais procurados. “Os Subcomuns”, de Fred Moten e Stefano Harney (ensaio, ed. maio maio); “Passageiros”, de Miguel Cardoso (poesia, ed. Cutelo); e “Feminismo Bastardo”, de María Galindo (Barricada de Livros) – “seguramente um dos mais vendidos”, assevera Ramalho.

O mesmo mood na Snob, sita na Tv. da Quitéria. “Não existe um top convencional”, diz Duarte Pereira, mas sim a ideia muito clara de quais foram os livros mais procurados. Um detalhe: na Snob, os livros novos e usados são os protagonistas, a par de edições de pequenas editoras portuguesas. A outra parte deste dueto de livreiros, Marques Pereira, corrobora. “Têm aparecido pequenas editoras portuguesas nos últimos anos e, mais importante, têm-se mantido. Que é o mais difícil. Se não estivermos atentos a esses projetos mais pequenos, irá passar-nos ao lado o que realmente interessa. Estamos a falar de projetos que editam 300/400 exemplares.” Mais uma vez, a expressão curadoria sintetiza o que por aqui se faz. “O cogumelo no fim do mundo”, de Anna Lowenhaupt Tsing (ed. Crosta); “A Analfabeta”, da autora húngara Agota Kristof (Dois Dias edições) – conhecida pela Trilogia da Cidade de K: O Caderno Grande, A Prova e A Terceira Mentira – e “Ela Tira-lhes os Nomes e Outros Contos”, de Ursula K. Le Guin (Barricada de Livros). A ordem não obedece a critérios quantitativos. É perceção. O tal “tomar o pulso”. Um pormenor curioso: María Galindo bisa no fluxo da procura e a não-ficção – onde “cabe tudo, da antropologia e ciências sociais ao ensaio literário”, diz Marques – voltou a ter uma forte expressão em 2025, à imagem do que “tem acontecido nos últimos dois três anos. A par da poesia”, frisa Duarte Pereira.

Usados e cobiçados
Este medir a temperatura aos livros mais procurados tem o seu ‘quê’. Diversos livreiros salientaram a boa performance da poesia e também as pertinentes propostas de pequenas editoras portuguesas, a par da preferência pelo livro usado. É aqui que entram em cena espaços como a Re-Read, com duas lojas em Lisboa, que não trabalha com um inventário de livros. “As nossas compras são feitas a particulares e cingem-se aos livros que nos aparecem. Isto faz com que alguns títulos sejam muito procurados mas não sejam muito vendidos, porque não nos chegam às mãos em grandes quantidades nem com frequência”, explica ao JE Inês Toscano. A perceção que se tem ao balcão serve para destacar os autores mais procurados. José Rodrigues dos Santos, Agatha Christie, Isabel Allende, Jorge Amado, Dostoiévski, J. K. Rowlings, Tolkien, António Lobo Antunes. O público é muito diversificado. “Pessoas de todas as idades, que procuram novas tendências, livros raros já não editados, boas oportunidades de compra de livros que são muito mais caros em novos, livros de leitura recomendada, clássicos, livros de história e ensaios, livros em inglês ou francês”. Uma curiosidade que Inês Toscano partilha com o JE. “José Saramago e Ken Follet têm muita procura, mas não nos aparecem com muita frequência, porque as pessoas tendem a não vender os livros destes autores”.

Pedro Castro e Silva, da livraria homónima na Av. Almirante Reis, uma zona, diz, “onde não estamos sujeitos ao bullying imobiliário”, tem cerca de 50 mil títulos disponíveis, entre armazém e loja. Neste espaço com 800 m2, o livro usado é rei e senhor. A oferta é diversificada e, “a par das duas grandes áreas da literatura traduzida e dos autores lusófonos, as secções de Arte e História também têm muita procura”. Autores mais cotados? A resposta é imediata. “Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, José Saramago e clássicos russos.” Ao fim de um ano de porta aberta, o balanço é positivo. O público, esse, é diversificado. E, assevera Castro Silva, “temos muito público jovem. Tem vindo a crescer e sabe bem o que quer.” O que procuram? “Autores portugueses e estrangeiros. Essencialmente, querem ter acesso a outros títulos que não o livro novo ou que estão ‘descatalogados’ e que encontram aqui a preços mais acessíveis.” Para já, afirma, “é um exagero decretar a morte do livro. Ele vai existir sempre, pois é uma ‘forma’ que tem uma energia diferente – o odor, a sensação tátil… Mas, muito provavelmente, vai passar a ser um luxo e um nicho, e não o suporte mais usado para ler”, garante. O catastrofismo não tem aqui lugar. “Se não procurássemos a Cultura, as livrarias não tinham razão de existir.”


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