Lídia Pereira: “O protecionismo económico não faz sentido num mundo globalizado”

Tem 27 anos de idade, vive em Bruxelas e acaba de ser eleita presidente da Juventude do Partido Popular Europeu (YEPP). É a primeira portuguesa e a primeira mulher de sempre a assumir o cargo. Digitalização, novos modelos de trabalho, alterações climáticas, mais jovens na política e eleições europeias serão as prioridades do seu mandato.

É a primeira portuguesa e a primeira mulher de sempre a assumir a presidência da Juventude do Partido Popular Europeu (YEPP, sigla em inglês). Esse facto confere uma maior importância à sua conquista?

O facto de maior importância talvez seja o de ser portuguesa, ser de um país pequeno. Mas somos reconhecidos. Ser a primeira mulher, acho que é um sinal dos tempos. Sou pela igualdade de género.

 

Entrou na corrida eleitoral convicta de que iria vencer, ou o resultado foi surpreendente?

Não entrei convicta de que ganharia. Entrei convicta de que poderia fazer a diferença, sobretudo numa altura difícil para o centro-direita europeu. Quando decidi avançar havia a possibilidade de ter oposição. No entanto, acabei por ser candidata única. Surpreendente foi o apoio que recebi quando decidi efetivamente avançar.

 

Quais serão as suas prioridades políticas no exercício da presidência da YEPP?

As prioridades deste mandato passam, por exemplo, pela digitalização. É um tema transversal a outras matérias como as alterações climáticas, agricultura e o trabalho que pretendo abordar no exercício do meu mandato. Por exemplo, no que diz respeito ao trabalho, temos que discutir os novos modelos de trabalho que devem ser pensados devido à digitalização. É preciso também fomentar a mobilidade no mercado de trabalho entre Estados-membros. Acho que há condições para discutir novos programas. O InovContacto em Portugal é um sucesso, podemos tentar o mesmo à escala europeia. No entanto, a grande prioridade nos próximos meses são as eleições europeias. São tempos difíceis, mas acredito que há margem, vontade e convicção para, com todas as organizações membros do YEPP, com o PPE e com o novo método Spitzenkandidaten [*], fazer uma boa campanha e um bom resultado. Queremos mais jovens na política. Nestas eleições, essa questão estará na agenda.

 

[*] Palavra alemã, tradução livre: “candidatos principais”. Trata-se de um novo processo de nomeação do presidente da Comissão Europeia, baseado na escolha entre os cabeças-de-lista indicados pelos grupos políticos europeus, atendendo aos resultados eleitorais.

 

Diz que quer “fazer parte de uma geração que está pronta para abraçar a Revolução 4.0 e os empregos de amanhã”. O que entende por “Revolução 4.0” e como é que as novas gerações devem preparar-se para os “empregos de amanhã”?

A Revolução 4.0 refere-se exatamente a fenómenos como a digitalização, automação ou robotização. Haverá certamente muitos empregos que desaparecerão, mas muitos novos surgirão. Por exemplo, novos empregos em big data, estatística, etc. Temos de garantir que preparamos as gerações para esta nova realidade do trabalho.

 

Vive em Bruxelas e vai presidir a uma organização partidária transnacional. Considera que o futuro da política será sobretudo transnacional, ao nível europeu, ou a primazia da política nacional e local vai perdurar?

Costumo dizer que “politics is people’s business”. Estar junto dos eleitores é muito importante e por isso acredito que a política local continua a ser fundamental. O futuro da política passa por todos os níveis.

 

Como é que se define ideologicamente?

Centro-direita. Mas muitas vezes sou mais pragmática e menos ideológica.

 

Assume-se como uma “euro-entusiasta” convicta. A recente crise das dívidas soberanas e a forma como a União Europeia (UE) se dividiu nessa altura, a quebra de solidariedade entre Estados-membros, isso não afetou de alguma forma essa convicção?

Não. É claro que há um sentimento generalizado típico que culpa a UE em situações menos boas, ou de crise, como por exemplo foi o programa de assistência financeira de que Portugal (e outros Estados-membros) foi alvo. Cabe aos governos nacionais promoverem aquilo que também é positivo, com a chancela da UE. Esquecemo-nos muitas vezes de que Portugal tem hoje um nível de desenvolvimento económico que se deve, em larga medida, a fundos europeus que o permitiram.

 

Receia que nas próximas eleições europeia aumente a representação de movimentos anti-UE no Parlamento Europeu? Na sua perspetiva, quais são as causas para o crescimento eleitoral desses movimentos, geralmente associados também ao protecionismo económico, à reação anti-imigração, xenofobia, populismo, e o que deve ser feito para derrotar esses movimentos nas urnas de voto?

Receio, mas acredito que é possível combatê-los. Parece-me acima de tudo que se trata de movimentos oportunistas que pretendem manter-se no poder. Mais, não me parece credível nem sustentável acreditar que, num mundo globalizado, o protecionismo faça sentido. É preciso desconstruir a ideia de que o isolamento é positivo e provar que uma Europa unida é mais competitiva no panorama internacional.

 

Causa-lhe desconforto que um partido como o Fidesz, da Hungria, responsável pela erosão democrática naquele país, subversão do princípio da separação de poderes, implementação de políticas anti-imigração que desrespeitam os mais básicos direitos humanos, que um partido como o Fidesz integre o PPE e a YEPP?

O desrespeito pelos valores europeus é algo que me preocupa. O PPE tomou posição relativamente a esta matéria. Relembro que a grande maioria do PPE votou favoravelmente à abertura de um inquérito relativamente à violação dos valores europeus pela Hungria. Deveria fazer-se o mesmo a países como a Eslováquia e a Roménia.

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