Livro: “Apologia do Ócio”

Mais conhecido por tesouros numa dada ilha, que aqui não vêm ao caso, Robert Louis Stevenson discorre neste livro sobre a importância de cultivarmos vícios felizes. Por alguma razão o ‘fare niente’ é ‘dolce’.

 

Na obra do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) encontramos mais tesouros do que numa certa ilha cujo nome não nos ocorre de momento, mas que ficará ali ao largo da costa do México.

Sendo todos merecedores de leitura – e com este novo confinamento, serão mesmo excelente companhia, quer como primeira leitura quer como aquele sempre adiado regresso aos clássicos – este “Apologia do Ócio” em particular, editado pela Antígona, dá-nos uma dimensão maior do seu autor, conhecido sobretudo por “Ilha do Tesouro” e “O Médico e o Monstro” .

O livro compõe-se de dois ensaios, tão brilhantes como concisos, que irradiam o palpitante calor da vida e a luminosa mensagem de que o futuro pertence aos ociosos e aos bons conversadores. Revelando o ócio e os seus ditosos derivados não como inércia inútil, mas sim tónicos diários ao alcance de todos, “Apologia do Ócio” (publicado originalmente em 1877) e “A Conversa e os Conversadores” (de 1882) são páginas para folhear com deleite, em que cintila uma arte de viver com benefícios comprovados e se desmonta um quotidiano acinzentado pelas obrigações laborais.

Essenciais para converter trabalhadores inveterados, fãs de horas extraordinárias e gurus dos lucros anuais em gente com alegria crónica, estes textos demonstram que o ócio e a conversa merecem figurar como felizes vícios, a cultivar, na vida do homem. Agora que temos mais tempo livre – consta, não é que o tenhamos visto – nada como aproveitá-lo com deleite, não tratando de ocupar fastidiosamente todas as horas vagas, mas sim dando espaço ao deleite do “fare niente”, que por alguma razão é “dolce”.

Algures no texto, ficamos a saber que “a devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas”. E uma acusação de negligência não é algo que se aceite de ânimo leve.

Robert Louis Stevenson viu-se durante longos anos remetido para a ingrata gaveta dos contadores de histórias com uma reputação literária flutuante. Somente meio século após a morte do autor, a admiração de Vladimir Nabokov e de Jorge Luis Borges, entre outros, reabilitaria Stevenson, inscrevendo-o pelo virtuosismo, ironia e tom paradoxal na linhagem dos grandes ensaístas anglo-saxónicos. Foi um incansável viajante, e a sua fragilidade física – que o levaria precocemente à morte nas Ilhas Samoa, entre nativos que o veneravam como Tusitala (contador de histórias) – contrasta com o vigor dos seus romances e ensaios, nos quais revela uma aguda perceção da alma humana.

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