Livro: “Fotocópias”

John Berger foi crítico de arte, pintor e escritor de ficção e ensaio. Neste livro, colecionou momentos que desenham um friso da história humana no final do milénio. Continuam a fazer(-nos) sentido.

 

“À direita da mesa está a janela. Uma janela grande, virada para norte. O apartamento fica no sexto andar, e a Rue Auguste Comte no cimo de uma pequena colina, por isso tem uma ampla vista sobre a cidade de Paris, desde os Jardins do Luxemburgo, mesmo por baixo, até depois do Sacré Coeur. Se formos até à janela, a abrirmos e nos debruçarmos sobre o parapeito da varanda em que não caberiam mais de quatro pombos, podemos voar na nossa imaginação sobre os telhados e a história. É a altura perfeita para voos da imaginação: a altura a que os pássaros voam até ao extremo da cidade, até às muralhas, onde termina o presente e começa uma época diferente. Não há outra cidade no mundo em que estes voos sejam tão elegantes.”

“Fotocópias” é uma coleção de retratos, em vinte e oito histórias, tão breves como envolventes, sobre lugares, pessoas e encontros que deixaram uma impressão indelével em John Berger: um pastor, um camponês, um pintor cego, uma sílfide de arrogância bizantina ou uma vagabunda ciclista com vasos de prímulas no cesto da bicicleta.

Os cenários variam: Praga, Atenas, Lahore, ou apenas o campo ou a montanha; Henri Cartier-Bresson no metro de Paris, os gestos demorados de um estranho no café, uma travessia de ferry no Mediterrâneo, Barcelona a derreter ao sol de verão, as meditações que lhe despertam a mesa onde escrevia Simone Weil — amigos e caminhantes com quem o autor se cruzou pelo mundo, pintando um fresco comovente da paisagem humana no fim do milénio.

Imitando o fotógrafo com a sua câmara, John Berger segue, com palavras, “o impulso espontâneo de uma atenção visual perpétua, que capta o instante e a sua eternidade”, replicando com a sua habitual subtileza a capacidade do fotógrafo em preservar o momento efémero, em capturar a passagem do tempo. Assim, “Fotocópias” é uma coleção de momentos que, no seu conjunto, desenham um friso da história humana no final do milénio (o livro é de 1996) e, simultaneamente, compõem um autorretrato do autor.

Nascido em Londres em 1926, John Berger foi crítico de arte, pintor e escritor de ficção e ensaio, sendo este último género o que o tornou mais conhecido, em particular com “Modos de Ver”, apesar de ter ganho o Prémio Man Boker, em 1972, com um romance, “G”. Ícone da contracultura, tinha um olhar curioso sobre o mundo. Em 1962 abandonou a Inglaterra, tendo vivido desde então numa pequena aldeia nos Alpes franceses, até à sua morte, em 2017. Em Portugal, está editado na Antígona.

Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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