Com que expectativas partiu para o ITF Wheelchair Tennis Tour?
As minhas expectativas para o ITF Wheelchair Tennis Tour eram essencialmente ganhar experiência e integrar-me no circuito internacional. Não ia com grandes ambições de resultados, até para evitar colocar demasiada pressão num primeiro torneio fora de Portugal, com todos os fatores novos, desde o ambiente até às adversárias. O meu principal objetivo era aproveitar a experiência e tirar o máximo partido dela.
No entanto, acabei por superar as minhas expectativas iniciais: consegui apuramento para os quartos de final, o que foi ótimo e acima do que esperávamos. Mesmo nesse jogo, frente a uma atleta de ranking 32 mundial, consegui levar o encontro até ao terceiro set, o que me deixou muito contente com a prestação e com a evolução que estou a ter.
Tem a expectativa de se qualificar para os Jogos Paralímpicos em 2028: essa será uma grande conquista para cima e para os praticantes desta modalidade?
Representar Portugal nos Jogos Paralímpicos seria a concretização de um grande objetivo e uma enorme conquista, não só pessoal, mas também para todos os praticantes de ténis em cadeira de rodas no país.
No entanto, sei que ainda há um longo caminho a percorrer. É preciso muito trabalho, investimento e participação em várias competições internacionais para conseguir atingir o nível necessário de ranking e qualificação. Por isso, neste momento, foco-me em metas mais pequenas: participar em mais torneios internacionais, conquistar bons resultados e, quem sabe, chegar a um Grand Slam.
A presença nos Jogos é uma meta com que sonho, mas encaro-a como o culminar natural de um processo de crescimento passo a passo — a cereja no topo do bolo.
Como é que Portugal pode evoluir na criação de condições para os praticantes?
Portugal pode evoluir em várias frentes. A primeira e mais básica é a acessibilidade. É fundamental que os espaços desportivos sejam realmente acessíveis a todos.
Depois, é essencial apostar na formação de técnicos e treinadores, que compreendam o desporto adaptado ou que, pelo menos, estejam dispostos a aprender e a adaptar a modalidade às necessidades de cada atleta.
Outro ponto importante são os recursos e apoios materiais. No desporto adaptado, há sempre necessidade de produtos específicos, como cadeiras de rodas desportivas, que têm custos muito elevados. Muitas vezes, mesmo com a vontade do atleta e do treinador, sem os meios adequados torna-se difícil evoluir.
E, por fim, é preciso divulgação. Muitas pessoas com deficiência nem sequer sabem que podem praticar desporto ou que existem modalidades adaptadas disponíveis. A promoção e a visibilidade são fundamentais para atrair mais praticantes e fortalecer a modalidade.
Com que apoios conta por parte do Estado português no sentido de se tornar ainda mais competitiva neste contexto?
Infelizmente, os apoios por parte do Estado português ainda são muito limitados, sobretudo nas fases iniciais da carreira. Existem alguns apoios, mas geralmente só surgem quando o atleta já atingiu determinado nível de ranking mundial, o que cria um grande desafio: é preciso competir e investir muito antes de chegar a esse patamar.
Até lá, o caminho é difícil, porque as provas internacionais implicam custos elevados, desde deslocações a equipamentos específicos. É precisamente por isso que até hoje nenhum atleta português conseguiu qualificar-se para os Jogos Paralímpicos nesta modalidade: o investimento necessário é muito grande e, sem apoios estruturados, torna-se quase impossível.
No meu caso, ser uma das poucas mulheres no ténis em cadeira de rodas em Portugal torna o percurso ainda mais desafiante, mas também mais motivador. Sinto a responsabilidade de abrir caminho e de mostrar que é possível. E é aqui que o projeto Heróis Betano tem sido absolutamente fundamental.
Trouxe-me visibilidade, credibilidade e, acima de tudo, apoio concreto, nomeadamente através de uma cadeira de rodas desportiva totalmente adaptada a mim, que fez uma diferença enorme na minha performance. Sem esse tipo de parceria, seria muito mais difícil continuar a evoluir e a competir internacionalmente. Por isso, mais do que um apoio financeiro, é um investimento no futuro do desporto adaptado em Portugal.
Joga no Ténis Clube de Famalicão e é natural de Famalicão: como é representar este clube e esta cidade num ambiente competitivo a nível internacional?
É um enorme orgulho representar o Ténis Clube de Famalicão e a minha cidade a nível internacional. Eu gosto muito de ser de Famalicão e sinto-me verdadeiramente apoiada pelo meu clube. Eles estão sempre presentes em tudo o que podem, a todos os níveis.
Tenho plena noção do privilégio que é ter uma estrutura que acredita em mim e me acompanha tão de perto. Quando saio para competir lá fora, isso dá-me uma motivação extra, tem sempre um sabor especial, porque sinto que estou a representar quem sempre acreditou em mim desde o início.
Está entre os Heróis Betano: pretende inspirar outros praticantes a tornarem-se também referências para outros desportistas?
Sim, sem dúvida. Gostava muito de poder inspirar outras pessoas, especialmente outras mulheres, a acreditarem que também podem seguir este caminho. Acho que a melhor forma de inspirar é através do trabalho, da persistência e da dedicação. Mostrar que, com esforço e consistência, é possível alcançar os nossos objetivos, independentemente das limitações.
Quando alguém vê que uma pessoa com uma história semelhante conseguiu chegar mais longe, isso cria uma validação e um sentimento de representatividade. No fundo, o que quero é que outros atletas olhem para o meu percurso e pensem: ‘Se ela conseguiu, eu também posso.’
Acredito que é assim que se constrói uma nova geração de referências no desporto adaptado, através de exemplos reais, de perseverança e de oportunidades que nos permitam sonhar mais alto.
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