Marta Temido admite “situação mais complexa” nas visitas das equipas multidisciplinares a lares em Lisboa e Vale do Tejo

Marta Temido explicou atraso com a evolução da pandemia nessa região do país e garantiu que a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde irá revelar em breve conclusões sobre o surto de Reguengos de Monsaraz. Deputados do Bloco de Esquerda e do PCP questionam atual modelo de institucionalização de idosos.

Cristina Bernardo

A ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu que as visitas das equipas multidisciplinares aos lares de terceira idade têm até agora “uma distribuição bastante assimétrica”, reconhecendo uma “situação mais complexa” na região de Lisboa e Vale do Tejo. Algo que a governante, que se encontra na Assembleia da República, numa audição conjunta com a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, justificou com a evolução da pandemia de Covid-19 nessa zona de Portugal, o que terá atrasado o processo.

Segundo Marta Temido, que estava a responder a perguntas do deputado bloquista José Soeiro, foram até agora visitadas 1.323 instituições das 2.628 que se encontram recenseadas, quer estejam legalizadas ou em fase de legalização. Terão sido visitados todos os lares no Alentejo e Algarve, mas pouco mais de 30% nas regiões do Norte e do Centro, acrescentou a governante, deixando entender que a percentagem terá sido ainda mais reduzida em Lisboa e Vale do Tejo.

Garantindo que muitos dos idosos que residem nessas instituições têm médico de família, o que foi confirmado com o cruzamento das bases de dados do Instituto de Segurança Social com os registos dos utentes, Marta Temido disse que, “tendo em conta o contexto”, deverão ser os profissionais de saúde a deslocar-se ao encontro dos pacientes, pois “não é por residirem num lar que as pessoas deixam de ser utentes do Serviço Nacional de Saúde”.

As intervenções de José Soeiro e de João Oliveira, líder do grupo parlamentar do PCP, convergiram nas críticas ao modelo existente de institucionalização de idosos em lares. Para o deputado bloquista, o caso do lar de Reguengos de Monsaraz onde morreram 18 pessoas devido à Covid-19 é a “demonstração extrema dos problemas estruturais, das dificuldades concretas, da desadequação do modelo e do insuficiente controlo por parte do Estado”, tendo defendido que os 600 milhões de euros que o Orçamento do Estado destina ao financiamento de estruturas residenciais deveriam ser utilizado para dar outro tipo de respostas. O apoio aos cuidadores informais que permitam a permanência na residência própria e o co-living foram alternativas apresentadas.

“A combinação da escassez de oferta apoiado pelo Estado e o preço da resposta dos privados faz com que se multipliquem os lares ilegais”, disse José Soeiro, afirmando que a qualidade dos serviços prestados pelas instituições particulares de solidariedade social tem sido “muito pouco escrutinada”.

Por seu lado, João Oliveira realçou que uma das “grandes lições” a retirar daquilo que aconteceu em Reguengos de Monsaraz é que “em matéria de proteção social a concepção neoliberal do Estado enquanto regulador e contratador de serviços externos está falida”.

Em resposta, Ana Mendes Godinho disse que a “parceria com a sociedade civil” continuará a ser reforçada, reconhecendo mais tarde que “os lares não estavam preparados para a situação provocada pela pandemia”, pois essas estruturas não foram criadas a pensar na necessidade de isolamento entre utentes.

Destacando a existência de 400 pessoas prontas a reagir a surtos nas brigadas de intervenção rápida, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social disse que é preciso “tirar consequências” daquilo que aconteceu em Reguengos de Monsaraz, referindo que os relatórios sobre o que aconteceu no lar não coincidem na descrição dos acontecimentos.

Por seu lado, Marta Temido deixou garantias de que a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde irá revelar “em breve” as suas conclusões sobre o que aconteceu no lar de Reguengos de Monsaraz onde morreram 18 pessoas na sequência de um surto de Covid-19.

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