Michel Platini: demasiada areia para o camião do antigo mago do futebol gaulês

Suspeitas em torno do processo de atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar levaram as autoridades francesas a deter o ex-presidente da UEFA para um extenso interrogatório. Saiu em liberdade, mas com o que restava de credibilidade cada vez mais nos antípodas daquilo que foi nos relvados.

epaselect epa07656938 Former UEFA president Michel Platini leaves the Anti-Corruption Office of the Judicial Police after Platini was arrested for questioning, in Nanterre, near Paris, France, 18 June 2019. Platini has been arrested in a corruption probe of the vote that gave the 2022 World Cup to Qatar. EPA/Julien de Rosa

Entre os adeptos de futebol portugueses menos jovens e sem problemas de memória não faltou decerto quem tenha pensado que a detenção de Michel Platini veio com 35 anos de atraso. Afinal, se ele tivesse passado horas a responder às perguntas das autoridades a 23 de junho de 1984, o francês não estado no relvado d Vélodrome de Marselha para marcar o golo, mesmo no final do prolongamento, que afastou o Portugal de Chalana da final do Europeu de 1984.

Mais de três décadas passadas, depois de Éder provar que a vingança é um prato que se serve frio, confirmando que a Seleção estava destinada a derrotar a congénere gaulesa, desta vez na final e nos arredores de Paris, festejando o primeiro título europeu em França, foi um Platini muito diferente aquele que saiu em liberdade, às primeiras horas da madrugada de quarta-feira, após um interrogatório que, segundo o próprio, abrangeu o Europeu de 2016, o Mundial de 2018, o Mundial de 2022, o Paris Saint-Germain e a FIFA.

Desses cinco temas, certamente foi o terceiro a dominar as horas que passou nas instalações da Unidade Anticorrupção da Polícia Judiciária de França. Até porque não é todos os dias que um país sem tradição no desporto-rei é escolhido para organizar o Mundial de Futebol, forçando a alterar os calendários das competições em três temporadas consecutivas nos maiores campeonatos. Como o Qatar é assolado por temperaturas de 50 graus durante o verão, ficou estabelecido que o jogo inaugural será a 21 de novembro de 2022. Já a final está marcada para 18 de dezembro.

Mas mesmo depois da transferência da principal competição futebolística para o outono é possível que alguns jogos sejam realizados de manhã – desvalorizando-se de imediato no mercado televisivo europeu, pois a diferença horária limita a audiência aos extremamente madrugadores -, contribuindo para que a decisão de atribuir a organização ao emirado árabe, tomada em 2010, em detrimento dos Estados Unidos, levantasse suspeitas desde o primeiro instante. Até porque Platini, então presidente da UEFA, era tido por defensor da candidatura americana até ter encontrado motivos para alterar a opinião.

Para isso terá contribuído, segundo investigações que não vêm de hoje mas continuam a decorrer, um almoço no Palácio do Eliseu, a 23 de novembro de 2010, para o qual Platini foi convidado pelo então presidente francês Nicolas Sarkozy. À mesa estiveram o atual emir doQatar, Tamim bin Hamad al-Thani, e o então primeiro-ministro do emirato, Hamad Bem Jassem. E entre as entradas e os digestivos houve argumentos válidos para entregar a organização do Mundial de Futebol de 2022, mas neste momento nem é essa a maior dor de cabeça do antigo Chefe de Estado, pois ficou a saber que será julgado por corrupção pelo alegado financiamento da sua campanha presidencial pelo ditador líbio Muammar Kadhafi, que viria a ser morto por rebeldes em 2011.

Também no caso do Mundial de 2022 as autoridades francesas têm a firme convicção de que estão em causa crimes de corrupção, associação criminosa e tráfico de influências. Apesar disso, Platini saiu do interrogatório a repetir que “não pode ser considerado suspeito”, ainda que as votações de 2010 que culminaram com a Rússia e o Catar como anfitriões dos Mundiais de 2018 e 2022 tenham originado uma enorme investigação que revelou escândalos no funcionamento do futebol mundial.

Dizer que Platini sai desmoralizado deste processo é esquecer que já está a cumprir uma suspensão de quatro anos de toda e qualquer atividade futebolística. O castigo decretado em maio de 2016 pelo Tribunal Arbitral do Desporto ao homem que presidia à UEFA desde 2007 deveu-se ao recebimento de dois milhões de francos suíços (1,8 milhões de euros), justificados por trabalhos de consultoria nunca vertidos num contrato, por decisão de Joseph Blatter, que na altura presidia à FIFA.

Ao francês de 63 anos, que chegou a ambicionar suceder a Blatter, resta a memória dos anos de glória em que era o talentoso mago do meio-campo de França e da Juventus, recebendo a Bola de Ouro em 1983, 1984 e 1985. Além, claro está, daquele Europeu de 1984 em que, bem melhor a decidir com os pés do que viria a demonstrar ser com a cabeça, atirou a bola para o fundo das redes de Manuel Bento e impediu o que poderia ser a primeira grande conquista do futebol nacional.

Artigo publicado na edição nº 1994, de 21 de junho, do Jornal Económico

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