Miguel Pinto Luz: “Acredito que o PSD voltará a ser um grande partido para bem de todos nós”

Ex-candidato à liderança do PSD defende que é urgente mudar o posicionamento político do seu partido, responsabilizando o centrismo defendido por Rui Rio pelo aparecimento de “cogumelos partidários” no centro-direita.

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Fernando Veludo/Lusa

Muito crítico de Rui Rio, contra quem se candidatou nas eleições diretas de 2020, Miguel Pinto Luz responsabiliza o posicionamento ao centro da atual liderança do PSD pelo aparecimento de “cogumelos partidários” que alteraram o panorama político nacional. E diz que é urgente mudar de registo, pois “com mais governação do PS iremos agravar ainda mais a nossa divergência com a Europa e o empobrecimento geral da população”.

Que comentário lhe merece a ideia defendida por Rui Rio de que o PSD não é um partido de direita e sim um partido de centro?

O PSD é um partido do centro e do centro-direita. Por isso é que é abrangente. Dizer-se que é um partido do centro ou de centro-esquerda, invocando sempre Sá Carneiro, como vejo constantemente Rui Rio invocar… Claro que Sá Carneiro fundou um PSD mais ao centro-esquerda, mas vivíamos num momento diferente da sociedade portuguesa, com um CDS que nos acantonou nesse centro-esquerda, e em que o espectro político nacional estava todo trasladado para a esquerda, fruto das condições politicas. Mas Sá Carneiro sempre teve em Adolfo Suárez o seu grande parceiro em Espanha, teve sempre uma perspetiva liberal da economia e de fazer o PSD um partido grande, capaz de abraçar o eleitorado do centro mas também do centro-direita. E é nessa receita que eu constantemente reafirmo que se deve posicionar o PSD. Mas não se ganham eleições sem o centro. Há um milhão de eleitores no centro que têm de ser acarinhados e para os quais temos de apresentar soluções. Cabe ao PSD apresentá-las, como fez com Cavaco Silva ou com Passos Coelho. Não é verbalizando mais alto ou mais baixo que somos de centro que esse eleitorado irá votar no PSD.

Ao fazer da busca de entendimentos para reformas estruturais a bandeira do partido Rui Rio está a subjugar o PSD à vontade do PS e a ser uma alternativa pouco credível à governação?

Se há um discurso que os portugueses identificam hoje com o PSD é um discurso constante, nos últimos três anos, de “por favor, PS, sentem-se connosco e vamos fazer umas grandes reformas de que o país precisa”. E constantemente o PS diz “não, muito obrigado, sigo o meu caminho”. Ideias para além disto não conhecemos. E, pior do que isso, não vemos um PSD acutilante no combate político diário. O PS reinventou o conceito de portas giratórias, da política para a regulação: Mário Centeno foi de ministro das Finanças para o Banco de Portugal, agora é Ana Paula Vitorino, mulher do ministro Eduardo Cabrita, que vai para a regulação dos Transportes, e Pedro Adão e Silva vai de comentador do regime socialista para comissário das comemorações do 25 de Abril. Vemos acontecer todos os dias a tomada do aparelho do Estado, a renacionalização dos transportes, a gestão desastrosa na TAP, as PPP a acabarem, quase que por um complexo ideológico de esquerda de que o sector privado não pode ter qualquer tipo de papel na prestação de serviço público. Isto obrigaria a um PSD forte no combate permanente a estas políticas que vão empobrecer Portugal ainda mais e inevitavelmente levar a um declínio da nossa economia e da capacidade de voltar a colocar o país a crescer a um ritmo de convergência com a Europa – e não neste divergência permanente que temos.

Será o maior paradoxo de sempre se Rui Rio for responsável pela chegada do Chega à esfera do poder?

Não é um paradoxo. É um equívoco da parte de Rui Rio, que recorre à história do PSD para posicionar o partido hoje. Sou mais novo e consigo identificar esse equívoco histórico. O PSD de 1974 não pode ser o PSD de 2021 e é paradoxal, porque se Rio acreditava que podia fazer do PSD grande acantonando-o ao centro, fez nascer fenómenos populistas, liberais e conservadores. Foi precisamente o contrário. Fez o PSD pequeno e fez nascerem cogumelos partidários no centro-direita. Acredito que não são epifenómenos, mas são tão fortes ou mais fracos consoante a capacidade do PSD de encontrar a tal liderança que o volte a colocar fiel à sua história.

Marcelo Rebelo de Sousa disse que deseja uma oposição forte para ser alternativa ao Governo em 2023. Que comentários lhe merece a forma como o Presidente da República tem lidado com os partidos à direita do PS?

Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República, está a exteriorizar aquilo que todos os portugueses querem. Uma democracia saudável deve ter alternância e uma oposição forte e capaz de fiscalizar o Governo. Não a temos tido. O Presidente da República, sendo o fiel da balança do nosso sistema democrático, preocupa-se também que esse sistema democrático seja equilibrado. Não entrando nas questões internas dos partidos, faz uma afirmação genérica de que era importante existir uma alternativa credível, forte e clara ao atual Governo, até para o valorizar. Em democracia é saudável que assim seja. O que não é saudável é termos uma caminhada com pompa e circunstância para o empobrecimento coletivo e ninguém dizer nada e ainda ficarmos ofendidos por o PS não querer dançar connosco.

Se o PS voltar a vencer em 2023 tudo indica que o PSD governará Portugal menos de sete anos nos primeiros 25 anos deste século, sempre em coligação com o CDS. Continuará a fazer sentido considerar o PSD como um grande partido de poder?

As sondagens ainda o dizem. Hoje em dia tornou-se pequenino mas acredito que voltará a ser um grande partido para bem de todos nós. Não milito no PSD por clubite. Sou adepto do FC Porto mas não sou adepto do PSD. Sou militante porque acredito que um PSD fiel à sua história, tem o programa e a agenda reformista de que este país precisa. Se analisarmos esse período vemos a divergência total de Portugal com o resto da Europa, e Portugal a ser ultrapassado pelos últimos membros a entrarem na família europeia. Se não fizermos nada dentro do PSD, com mais governação do PS iremos agravar ainda mais a nossa divergência com a Europa e o empobrecimento geral da população.

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