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Militares norte-americanos de regresso à América do Sul

Com o pretexto de controlar o narcotráfico, os Estados Unidos enviaram uma frota de guerra para as Caraíbas, levando o presidente da Venezuela a acusar os ‘vizinhos’ de cobiçar petróleo alheio.
9 Novembro 2025, 18h00

Não está institucionalizada em lado nenhum, mas, desde que foi enunciada, nunca mais deixou de contribuir para a gestão das relações entre os Estados Unidos e a América Latina: a Doutrina Monroe – anunciada ao Congresso pelo presidente James Monroe em dezembro de 1823 e que reserva aos EUA o direito de intervenção política, militar ou secreta em qualquer país a sul da fronteira com o México – é um elemento central da diplomacia da Casa Branca. Serve a lembrança histórica para se compreender porque é que, sem pedir autorização a ninguém, o presidente norte-americano, Donald Trump, intensificou drasticamente a presença militar dos EUA nas Caraíbas já lá vão três semanas, ao enviar o grupo do porta-aviões Gerald Ford para a América Latina. É o movimento mais musculado de Washington na região da América Latina desde há muito – e logo com o maior vaso de guerra da história – decido supostamente para controlar o tráfico internacional de droga a partir da Venezuela.

“A presença reforçada das forças dos EUA na área de responsabilidade do USSouthCom aumentará a capacidade de detetar, monitorizar e interromper atores e atividades ilícitas que comprometem a segurança e a prosperidade do território norte-americano e a nossa segurança no hemisfério ocidental”, escreveu o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, nas redes sociais. Para além do Porta-aviões (onde estão estacionados os caças F-35), seguiram para a região mais oito navios de guerra e um submarino.

Ora, segundo os especialistas, as poderosas linhas de acesso da droga produzida na América Latina e que é vendida nas ruas das cidades norte-americanas não chegam ali vindas da Venezuela, mas sim, principalmente, do México ou diretamente da Colômbia e talvez até da Bolívia. Para todos os efeitos, a demonstração de força sob a diretiva do combate à droga não faz sentido, pelo menos segundo alguns analistas. Mais sentido faz toda aquela parafernália pousada sobre o mar, dizem os mesmos analistas, que Trump quisesse patrocinar uma mudança de regime na Venezuela e, como já aconteceu no passado, ter à frente do setor petrolífero venezuelano alguém que seja da confiança da Casa Branca. A ‘teoria’ não é apenas de alguns analistas: o presidente venezuelano Nicolás Maduro, diz exatamente a mesma coisa. Em agosto, Washington multiplicou a atribuição de uma recompensa (passou para 50 milhões de dólares) por informações que permitissem acusar Maduro de ligações ao narcotráfico internacional.

Uma história com 200 anos
Nos últimos 200 anos (menos 50, grosso modo, que os da independência dos EUA, em 1776), a Doutrina Monroe serviu para praticamente tudo: para criar um país mais ou menos fictício (o Panamá); para suportar ideologicamente intervenções militares diretas ou secretas (guerra hispano-americana, 1898, guerra filipino-americana, 1899, guerras das bananas, 1990, nas Honduras, Cuba, República Dominicana e Nicarágua, intervenção na Venezuela, 1902, intervenção na Guatemala, 1954, invasão da Baia dos Porcos, em Cuba, 1961); e para apoiar com dinheiro e armas grupos contrários aos governos instalados. Este último grupo é o mais numeroso e aconteceram nos últimos 60 anos: República Dominicana, Cuba, Brasil, Bolívia, Chile (o primeiro 11 de setembro!), El Salvador, Granada e Panamá. Não esquecer ainda rocambolesca peripécia ‘Irão-contras’, na Nicarágua, que, em 1984, contou com o benefício da ajuda da Mossad israelita.

Convém referir em abono da história que a Doutrina Monroe tinha, quando foi formulada, um carácter defensivo e não interventivo. De facto, menos de 50 anos depois da independência, os EUA pretendiam, com a doutrina, defender-se das diversas ameaças que o colonialismo vindo da Europa lhes colocava. E não era apenas o Império Britânico, ressabiado pela perda da sua mais importante colónia. Era também a possibilidade de britânicos e franceses escolherem o Canadá para voltarem à guerra e com isso poderem entrar nos EUA. E ainda a chamada Santa Aliança (Prússia, Áustria e Rússia), que, antes de se virar para a Ásia e África, ainda olhou com cobiça para a América Latina.


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