No rescaldo da acusação do BES, Bloco diz que é preciso “perceber como é que as campanhas partidárias foram financiadas”

Mariana Mortágua defende que é “preciso haver um trabalho de transparência, inclusive sobre o passado para perceber como é que o financiamento partidário se fez” e sustenta que “a relação entre o poder político e os grandes negócios tem que mudar”.

Cristina Bernardo

Mariana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, voltou a apontar a necessidade de alterar a legislação sobre offshores, realçando que esta deverá ser uma das principais lições a retirar do caso da derrocada do BES/GES. No rescaldo da acusação, que constituiu 25 arguidos, a parlamentar defende ainda que deverão ser esmiuçados os financiamentos das campanhas partidárias por grupos económicos.

“Sabemos agora, já havia alguns indícios que o BES financiou a campanha de Cavaco Silva, de forma indirecta. Não tenho a menor dúvida de que esta não terá sido a única campanha que o BES financiou e que outros grupos económicos financiaram. É óbvio que isto coloca em causa para quem é que trabalham os políticos que gerem o país, que interesses é que respeitam. É preciso haver um trabalho de transparência, inclusive sobre o passado para perceber como é que o financiamento partidário se fez e como é que as campanhas partidárias foram financiadas”, disse Mariana Mortágua, em declarações no Parlamento esta quarta-feira, transmitidas pela Sic Notícias.

A parlamentar vincou ainda que “Ricardo Salgado nunca foi questionado”, frisando que “da mesma forma como António Mexia, nunca foi questionado e Zeinal Cava nunca foi questionado, inclusive pelo poder político”.

“Isso é uma das coisas que pode mudar: a relação entre o poder político e os grandes negócios tem que mudar, porque caso contrário estaremos sempre a criar este tipo de sistema, que está minado e corrompido por natureza”, disse.

O comentário surge depois de esta terça-feira, seis anos depois, ter sido conhecido o despacho de acusação do BES. O Ministério Público deduziu acusação pelo “crime de associação criminosa (relativamente a 12 pessoas singulares e 5 pessoas coletivas) e pelos crimes de corrupção ativa e passiva no setor privado, de falsificação de documentos, de infidelidade, de manipulação de mercado, de branqueamento e de burla qualificada contra direitos patrimoniais de pessoas singulares e coletivas”.

O Ministério Público acusou o antigo presidente do BES Ricardo Salgado de 65 crimes: um crime de associação criminosa, doze crimes de corrupção ativa no setor privado, 29 crimes de burla qualificada, cinco de infidelidade, dois de manipulação de mercado, sete de branqueamento, oito de falsificação de documento e um de falsificação de documento qualificado.

“É muito importante que a justiça seja feita neste caso. Falamos de um dos maiores grupos económicos portugueses, o maior talvez, que se enredou num conjunto de fraudes, de alegados crimes, alguns deles que a comissão de inquérito já conseguiu provar e que merecem ser julgados e devem ser julgados, até por uma questão de credibilidade da própria democracia”, afirmou Mariana Mortágua.

A deputada disse ainda que “para além desta pirâmide, deste castelo de cartas, alimentado em fraudes, em crimes económicos, o BES é mais do que isso. Era o grupo do regime”.

“As maiores dificuldades da comissão de inquérito, são também as maiores dificuldades de uma investigação deste género. A maior parte destas operações são feitas para não serem descobertas. O que é que uma pessoa faz quando não quer que uma operação seja descoberta? É registá-la numa offshore“, acrescentou.

Ministério Público acusa Ricardo Salgado de associação criminosa e corrupção seis anos depois da queda do BES

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