Novo Banco com prejuízos de mais de 5 mil milhões desde 2014

Os prejuízos do Novo Banco somam 5 mil milhões sem contar com a reexpressão das contas de 2017 e quase 6 mil milhões contando com essa reexpressão. As imparidades têm vindo a subir desde 2014 excepto em 2018 que até caíram. Cinco anos de um banco que “era uma casa de reestruturação de créditos”, segundo as palavras do seu CEO na conferência de imprensa.

Cristina Bernardo

O Novo Banco acumulou, em cinco exercícios, 5.023 milhões de prejuízos, valor que se eleva para 5.926 milhões de euros se forem tidas em conta as contas reexpressas de 2017, que António Ramalho apresentou na conferência de imprensa da passada sexta-feira, com o objetivo de assegurar a comparabilidade e consistência dos dados apresentados nos exercícios de 2018 e 2017.

“Os dados de 31 de dezembro de 2017 foram reexpressos de forma a refletir em outras reservas e resultados transitados a ativação do Mecanismo de Capital Contingente e a alteração do registo inicial de passivos relacionados com a operação de LME – Liability Management Exercise, concretizada no último trimestre de 2017”, diz o Novo Banco em comunicado para explicar porque passam os prejuízos desse ano de 1.395,4 milhões para 2.298 milhões de euros.

O que na prática quer dizer é que em 2017 o banco contabilizou a injeção de capital do Fundo de Resolução (de 792 milhões de euros) como receita do banco e isso empolou a conta de resultados desse ano, e agora, esta nova injeção (de 1,15 mil milhões), como serve para cobrir perdas passadas, é registada em capital. “Passou a ser uma compensação ao capital e não ao resultado”, disse o banco. Para tornar comparáveis Ramalho reexpressou as contas de 2017, aumentando o prejuízo desse ano em mais 902,6 milhões.

A grande parte dos prejuízos apresentados ao longo dos vários exercícios decorrem do reconhecimento de imparidades, e dentro destas, as imparidades para crédito têm o maior peso. As imparidades vieram sempre a crescer desde 2014, excepto em 2018, em que as imparidades descem 65,5%.

O Novo Banco, nasceu a 4 de agosto de 2014 e em dezembro desse ano apresenta um resultado negativo de 497,6 milhões de euros (e um resultado antes de impostos negativo em 237,7 milhões). As provisões atingiram o valor de 699,1 milhões de euros nesse ano, e o resultado antes de impostos e de provisões era positivo em 427,9 milhões de euros.

Em 2015, o Novo Banco apresenta prejuízos de 929,5 milhões, depois de imparidades de 1.057,9 milhões.

O resultado antes de impostos do banco nesse ano era negativo em 933 milhões e o resultado antes de impostos e de imparidades era positivo de 125 milhões. O que dá uma ideia de quanto os prejuízos decorrem da má qualidade dos ativos, sobretudo da carteira de crédito que o banco herdou do BES.

Em 2016 o Novo Banco, já sob a batuta de António Ramalho, apresenta resultados negativos de 788,3 milhões, com imparidades de 1.375 milhões.

Um resultado antes de impostos de 988,1 milhões e um resultado operacional (antes de impostos e de imparidades) de 386,6 milhões “superior ao registado em 2015 (125,0 milhões de euros),  o que é demonstrativo da capacidade de geração de receitas por parte do Grupo”, lê-se no relatório e contas desse ano.

Em 2017 as contas são diferentes à data do que são hoje. Quando as contas de 2017 foram apresentadas os prejuízos eram de 1.395,4 milhões e as imparidades tinham subido muito face a 2016 para 2.056,9 milhões. Destas, as imparidades para crédito tinham evoluído de 672,6 milhões em 2016 para 1.229,2 milhões em 2017.

Os resultados antes de impostos em 2017 eram então negativos em 923,5 milhões. E nas contas desse ano, antes de serem reexpressas, os resultados operacionais eram muito positivos, no valor de 1.133,4 milhões.

Explicava o Novo Banco em 2017, que “foi o reforço das provisões e das imparidades para crédito, títulos e participações em montante de 2.057 milhões de euros e uma função fiscal negativa de 445 milhões de euros, resultante fundamentalmente da anulação de  impostos diferidos ativos sobre prejuízos fiscais, no montante de 520 milhões de euros, os fatores que contribuíram decisivamente para o resultado negativo de 1.395 milhões de euros, após o Mecanismo de Capital Contingente (CCA, “Contingent Capital Agreement”), valor não comparável com o ano anterior”.

Depois de reexpressas as contas, o Novo Banco passou a ter em 2017 um prejuízo de 2.298 milhões e os resultados antes de impostos  passaram a ser de -1.826,1 milhões.

As imparidades, tal como antes da reexpressão, foram de 2.056,9 milhões (sendo que para crédito foram de 1.229,2 milhões).

O resultado operacional, depois da reexpressão das contas, continuou positivo em 2017 no valor de  230,8 milhões, coisa que já não aconteceu em 2018, onde pela primeira vez, o banco liderado por António Ramalho registou um resultado antes de impostos e de imparidades marginalmente negativo, no valor de -3 milhões de euros.

Em 2018, o Novo Banco apresentou prejuízos de  -1.412,6 milhões e foram constituídas imparidades de 710 milhões, das quais 263,5 milhões para crédito.

Os resultados antes de impostos foram de -713 milhões, tendo melhorado 61,0% face aos resultados antes de impostos, reexpressos, de 2017.

O valor dos impostos de 667,7 milhões pesam muito nos resultados líquidos. Segundo o Novo Banco este montante (superior em 50% ao de 2017) é justificado, “por um lado, pela anulação de prejuízos fiscais reportáveis que, de acordo com o atual plano de negócios, não preenchem as condições para serem considerados no ativo do Banco e, por outro, pela prossecução da estratégia de desinvestimento em ativos não produtivos que inevitavelmente conduz à anulação de impostos diferidos ativos pelo facto de o Banco se encontrar na situação de prejuízos fiscais”.

António Ramalho disse, na conferência de imprensa, que conta deixar de ter prejuízos antes do fim do prazo de validade do mecanismo de capital contingente (2025), possivelmente em 2021.

O ano de 2018 é o ano em que o banco mais pediu ao Fundo de Resolução. Um valor recorde de 1.149 milhões, que se justifica em 69% pelas perdas no ativos que estão cobertos pelo Mecanismo de Capital Contingente e em 31% pelos requisitos de capital regulatórios.

Até agora, e a confirmar-se esta injeção, que ainda carece de confirmação pelo Fundo e pelo Agente verificador, Oliver Wyman, eleva-se para 1,9 mil milhões o montante usado do mecanismo do Fundo de Resolução criado para cobrir perdas com determinados ativos do Novo Banco herdados do BES. O limite máximo desse mecanismo é 3,89 mil milhões.

 

Ler mais
Relacionadas

Mário Centeno disponível para ir ao parlamento na próxima semana por causa do Novo Banco

O ministro das Finanças, Mário Centeno, manifestou hoje disponibilidade para ir ao parlamento, na próxima semana, prestar esclarecimentos sobre a situação do Novo Banco, disse à agência Lusa fonte do Ministério das Finanças.

Novo Banco: Finanças consideram “indispensável” auditoria à concessão de créditos

O ministério liderado por Mário Centeno emitiu um comunicado a propósito da chamada do Fundo de Resolução relativamente ao Novo Banco. Finanças consideram indispensável a realização de uma auditoria.

Ramalho espera que o Novo Banco deixe de ter prejuízos até 2025

O banco vai pedir ao Fundo de Resolução 1.149 milhões de euros e elevou para quase 2 mil milhões o valor acionado pelo Novo Banco no âmbito do acordo de capitalização contingente.
Recomendadas

Commerzbank encerra filial de Barcelona e quer vender a do Brasil

Ao apresentar os resultados de 2020, o Commerzbank, que registou perdas de quase 2.900 milhões de euros, indicou que queria encerrar agências e representações fora da Alemanha, retirando-se de 15 pontos internacionais.

Dívida pública recuou em janeiro depois de ter atingido máximo histórico

A dívida recuou 600 milhões entre dezembro e janeiro refletindo “essencialmente amortizações de títulos de dívida, no valor de 0,3 mil milhões de euros, e a redução de responsabilidades em depósitos no valor de 0,2 mil milhões”, de acordo com o Banco de Portugal.

PremiumRestruturação da dívida da TAP não agrava malparado dos bancos

Bancos aceitaram adiar o pagamento da dívida da TAP em um ano e meio. Mas cartas-conforto do Estado evitam que classifiquem como malparado.
Comentários