Mais um escândalo de corrupção está a abalar os alicerces do poder na Ucrânia e mais uma vez perigosamente nas proximidades do presidente Volodymyr Zelensky. A justiça do país acusa sete pessoas de tomarem parte num esquema de corrupção de 100 milhões de dólares no setor energético – subornos e controlo de contratos públicos em várias empresas estatais, com destaque para a Energoatom, a agência nuclear nacional, são os crimes de que são acusados e Timur Mindich, antigo parceiro de negócios do presidente é um dos envolvidos.
Entre os restantes acusados está um antigo assessor do ministro da Energia, o chefe de segurança da Energoatom e outros quatro funcionários da empresa. O ministro da Justiça, German Galushchenko, que anteriormente ocupou a pasta da Energia, foi também alvo de “ações de investigação”, confirmou o seu ministério. A investigação, que decorreu durante 15 meses e incluiu mais de 70 buscas em todo o país, levou mais uma vez a oposição a acusar o governo, e mais particularmente o próprio Zelensky, de não conseguir travar a corrupção.
Timur Mindich, produtor de cinema e coproprietário da produtora Kvartal 95, do presidente Volodymyr Zelensky (que transferiu a sua participação para o sócios após ser eleito presidente em 2019), é o empresário que supostamente está no centro da grande investigação de corrupção, e é um associado próximo do presidente com interesses em diversos setores. Mindich teria lucrado com seus laços com Zelensky e aumentado drasticamente a sua influência nos últimos anos, revelam os jornais do país. A investigação sobre as atividades de Mindich pelo Gabinete Nacional Anticorrupção (NABU) foi um dos fatores que levaram, segundo o jornal ‘Kyiv Independent’, a que existissem pressões políticas que tentaram eliminar a independência do gabinete, em julho passado.
Esta segunda-feira, o NABU afirmou estar investigando um grande esquema de corrupção no setor energético, incluindo a empresa estatal ucraniana de energia nuclear, a Energoatom . Uma fonte do ‘Kyiv Independent’ confirmou que se tratava do mesmo caso. Buscas ocorreram em imóveis ligados a Mindich, que fugiu antes delas acontecerem.
Mindich, de 46 anos, nascido na cidade de Dnipro, no centro da Ucrânia, é ex-sócio do oligarca ucraniano Ihor Kolomoisky e o jornal indica que tem ligações com Israel. Mindich comemorou o seu aniversário em Israel em setembro, regressou à Ucrânia em meados de outubro e depois voltou a Israel, de acordo com fontes do ‘Ukrainska Pravda’. Será também coproprietário da Green Family Ltd, uma empresa cipriota que cofundou produtoras cinematográficas na Rússia. Mindich visitou o gabinete do presidente pelo menos três vezes em 2020, reunindo com Andriy Yermak, chefe de gabinete de Zelensky. Em 2021, e de novo segundo o ‘Kyiv Independent’, que cita outra fonte, Zelensky comemorou o seu aniversário no apartamento de Mindich.
Segundo fontes citadas pelo portal de notícias Ukrainska Pravda, Mindich terá recomendado a Zelensky que nomeasse o ex-vice-primeiro-ministro Oleksiy Chernyshov, que, desde 2019, ocupou os cargos de governador da região de Kyev, ministro regional, presidente da empresa de energia Naftogaz e, posteriormente, vice-primeiro-ministro. Chernyshov foi demitido depois que o Gabinete Anticorrupção o acusar de suborno e abuso de poder em junho de 2025. Segundo a mesma fonte, entre os protegidos de Mindich estariam o ministro da Justiça, Herman Halushchenko (também alvo de buscas esta segunda-feira), a ministra da Energia, Svitlana Hrinchuk, e o ministro interino da Agricultura, Vitaliy Koval.
O Gabinete Anticorrupção investigou as supostas ligações de Mindich à empresa fabricante de drones Fire Point. Em outubro, Yaroslav Zheleznyak, um parlamentar do partido de oposição Holos, publicou uma investigação sobre os supostos negócios de diamantes de Mindich na Ucrânia e na Rússia. Segundo a investigação de Zheleznyak, Mindich detinha uma participação na produtora russa de diamantes New Diamond Technology até 2024 — período que coincidiu com a invasão da Ucrânia pela Rússia. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) afirmou na semana passada que está a investigar Mindich por suspeita de auxiliar a Rússia, na sequência da investigação de Zheleznyak.
Zheleznyak também afirmou em abril que o Gabinete Anticorrupção investigava Mindich também por um caso de desvio de fundos no valor de 48 milhões de dólares ligado à Fábrica Portuária de Odessa, uma produtora de fertilizantes. O NABU não comentou, mas não desmentiu.
A Kinokit, empresa pertencente a Yulia Drozdova, ex-assessora jurídica de Mindich, assinou contratos no valor de mais de 8,5 milhões de dólares entre 2022 e 2024 para produzir conteúdos para a Teleton, o conjunto de canais de TV estatais da Ucrânia criado durante a guerra. Segundo o ‘Ukrainska Pravda’, Mindich também influencia o setor bancário, especificamente por meio do banco estatal Sense Bank.
Em junho, o NABU prendeu o seu parente Leonid Mindich quando tentava fugir para o exterior, tendo sido acusado de desviar 16 milhões de dólares da empresa de energia elétrica Kharkivoblenergo.
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