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O anti-Bayrou que não ameaça o poder de Macron

Aliado de longo prazo não coloca em risco Macron. Orçamento carregado de austeridade vai para o lixo. Objetivo é tentar chegar a um consenso com os socialistas e deixar os extremos a falarem sozinhos no Parlamento.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, com o presidente Emmanuel Macron
14 Setembro 2025, 17h00

Um soldado leal” e capaz de negociar com qualquer interlocutor, incluindo de partidos radicais. Não gosta de atenção mediática, não tem carisma e, importante para Macron, não quer chegar a presidente (aparentemente). Logo, não tem cartas na manga e não vai tentar minar o Palácio do Eliseu para ganhar vantagem para o futuro.

Sébastien Lecornu integrou todos os executivos desde que Emmanuel Macron chegou a presidente em 2017. E é um forasteiro na política gaulesa: não vem das ‘grandes écoles’, as universidades gaulesas de topo onde são formadas as elites políticas do hexágono.

“É um soldado leal que não tem muito carisma ou potencial presidencial”, disse um assessor governamental à “France Pressse”, apontando que, ao contrário de outros ministros, não é considerado “presidenciável”, com um Macron enfraquecido a valorizar Lecornu precisamente por não ser uma ameaça ao presidente.

“Ele fala com todos: do França Insubmissa [extrema-esquerda] à Reunião Nacional [extrema-direita]. É o oposto de um sectário”, disse o deputado do Renaissance, partido de Macron, ao “Le Monde”.

“Ele teve muito sucesso no mundo de Macron. Tem um lado de sobrevivente”, afirmou um deputado ao “Politico”.

Mas nem tudo é sucesso. Como ministro dos Territórios Ultramarinos viu o referendo na Nova Caledónia, no Pacífico, a ser boicotado por grupos independentistas em 2021. Depois, como ministro da Defesa, esteve na primeira linha do colapso de França na região do Sahel em África que tem sido marcada por uma forte presença francesa nas últimas décadas, nas ex-colónias do Burkina Faso, Níger e Chade, recorda o “France 24”.

Com 39 anos de idade, tem passado os primeiros dias no cargo a cavar um fosso entre si e o plano de austeridade de 44 mil milhões de François Bayrou.

Objetivo? Aproximar-se dos socialistas do PSF para obter a sua aprovação (ou abstenção) ao Orçamento do Estado para 2026.

“Não vamos adotar a proposta de Orçamento de François Bayrou, removendo o fim dos feriados e acrescentar um pouco disto e daquilo”, disse uma fonte próxima ao novo primeiro-ministro citado pelo “Politico”.

Isto pode levar a que seja apresentado um “novo Orçamento” para agradar aos socialistas.

Ao mesmo tempo, o documento também vai tentar apelar aos conservadores dos Les Républicains. É certo que não vai ser fácil: socialistas e conservadores têm grandes diferenças nas suas perspectivas em como estabilizar as finanças públicas gaulesas. Mas há bons motivos para chegar a acordo: há uma montanha de 3,3 biliões de euros de dívida e o défice orçamental deverá atingir 5,4% do PIB este ano, quase o dobro do permitido pelas regras europeias.

O líder socialista Olivier Faure defende o aumento da carga fiscal sobre os super-ricos e quer evitar que o Governo use uma ferramenta constitucional que permite a aprovação do Orçamento.

Entretanto, mais de 100 mil franceses saíram à rua esta semana para protestar contra a austeridade. Dia 18, é a vez dos sindicatos.

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