Carlos Augusto Pulido Valente Monjardino nasce em Lisboa e finta a medicina, onde o pai e os dois avós fizeram história. No seu horizonte estava Londres – impelido pelo pai, que o queria poupar à estreiteza da pátria – e o curso de Arquitetura Naval. Fruto de várias peripécias, acabou por estudar Comércio Internacional. O principal ensinamento que trouxe de terras britânicas? “O respeito pelo próximo e pelo seu espaço. Bastava as viagens do metropolitano para ir para o College, todos os dias de manhã, para perceber que havia uma coisa que num país latino não é costume ver-se: as pessoas iam a ler o jornal e não havia aquela conversa de chacha de perguntar pelo cão, pelo gato e pelo periquito… Ou seja, as pessoas iam a ler e ninguém as importunava”.
Fez o seu ‘grand tour’ entre boleias, comboio e barco pela Escandinávia, com um amigo “que era rico, eu não”, diz, com um sorriso. E acabou em Paris, “a roubar leite nas portas dos prédios, porque já não tinha dinheiro para comer outra coisa que não uma baguete”, recorda, antes de nos garantir que a viagem fez muito pela sua autoestima. “Era eu que decidia tudo. No fundo, aprendemos a desenrascar-nos, como se diz em bom português”. E o que lhe ensinou a banca? Teve várias fases, explica. “Uma primeira fase bastante boa no Banco Português do Atlântico (BPA), onde me formei como bancário. Depois, levei um pontapé para cima, que foi um pontapé amigável, do meu particular amigo Vasco Vieira de Almeida, que me levou com ele para o Grupo Bullosa. E, com 29 anos, fui mandado para Paris, para tomar conta de um banco falido”. Por lá ficou 13 anos.
Monjardino admite ter uma elevada apetência por desafios e que, a esse nível, a vida lhe tem corrido bem. À exceção do Banco Português de Gestão, “que nunca ganhou dinheiro”. Uma experiência “muito pouco brilhante”, refere, “mas está quase vendido. Da parte do Banco de Portugal, o processo está fechado. Só falta luz verde do BCE”.
A veia de negociador
A veia de negociador, essa, emergiu logo em miúdo e foi-a aprimorando ao longo do tempo. “Há quem diga que sim, que sou bom negociador”, diz ao JE quando questionado sobre esse traço de personalidade. “Mas também há quem diga que sou um chato”, acrescenta com um leve sorriso, quase trocista.
Em que ficamos, afinal? “Acho que não sou mau negociador, porque tenho uma imaginação muito fértil. E quando começamos a negociar, consigo arranjar maneira de me safar das questões difíceis e voltar outra vez ao assunto mais à frente, já numa perspetiva diferente”. Afinou este talento em Macau? “Em Macau foi mais pesado. Usei isto, mas para coisas mais importantes do que o meu quotidiano”.
É hora de entrarmos sem freio no tema Macau. Mário Soares é empossado Presidente da República em março de 1986 e, no seu discurso inaugural, garante à população de Macau que tudo fará para assegurar as melhores condições de estabilidade, progresso e desenvolvimento do território. Quatro meses depois, Soares nomeia para Governador de Macau Joaquim Pinto Machado. Acompanham-no nas funções de secretários-adjuntos, António Vitorino, Nuno Delerue, Carlos Carvalho Dias, Mário Ferreira Cordeiro e Carlos Monjardino, responsável pela pasta da Coordenação Económica, Finanças e Turismo.
Uma página da História
“Na altura, dei uma entrevista a um jornal de Hong Kong, o ‘South China Morning Post’, a dizer que se os chineses insistissem em se meterem nos assuntos de Macau, eu ia propor a Lisboa que a gente saísse mais cedo [do território]. Não valia a pena estarmos ali a fazer de conta”. Resultado? “Isto atrapalhou muito os chineses, porque tinham tudo bastante bem pensado e tinham uma data de referência, que era a transição [handover] de Hong Kong, em 1997”. Na manhã do dia seguinte, recebeu uma chamada de Mário Soares. “Ó homem, o que é que você anda para aí a dizer?”. “Respondi: Você não sente isto na pele porque está aí, mas eu sinto todos os dias pressões que são claramente inadmissíveis”, exclama, como se estivesse em plena chamada. “Ficou todo enxofrado comigo, mas depois vim cá e conversei com ele, e ele percebeu, porque havia coisas muito palpáveis que se estavam a passar em Macau e que não podiam continuar a passar-se assim”. E colocou um travão nessas ingerências.
Tem histórias mil do tempo que viveu em Macau. E se a sua passagem pelo Governo de Macau é motivo de orgulho, outra há que rivaliza de perto. A criação da Fundação Oriente, ideia que evoluiu a partir de um repto do empresário Stanley Ho. Carlos Monjardino já disse publicamente que se interrogou muitas vezes sobre a razão que levou Stanley Ho a propor-lhe a criação de um fundo. “Julgo não andar muito longe da verdade se disser que aquela foi, à boa maneira oriental, uma forma de agradecer a maneira séria, embora por vezes difícil, como decorreram as negociações do contrato de jogo”. E se um fundo lhe pareceu despropositado, amadurecida a ideia só poderia ser uma fundação de cariz cultural. Porquê? “O Estado português não tinha meios para manter uma presença em Macau, e naquela área do mundo”. Ora, as contrapartidas negociadas no âmbito do contrato do jogo, permitiram que, entre 1988, ano em que a Fundação foi criada, e 1996, esta recebesse 1,6% da receita bruta do jogo.
O século chinês
Monjardino reclama obra no território, do lançamento do projeto do aeroporto à construção de outras infraestruturas que ainda hoje, 25 anos após a devolução à China, contribuem para o êxito da capital mundial do jogo. A Fundação e o Museu do Oriente, que é mais um “centro cultural” do que um museu – fazem parte do seu legado. Não usa esta expressão, mas o sentimento que transmite é esse. Ode que esta é uma instituição que investe na construção de vínculos entre as civilizações do Ocidente e do Oriente. “Quando tive a oportunidade de fazer esta casa, foi exatamente a pensar nisso”. O propósito mantém-se desde sempre. E não vacilaram nem quando a pressão chinesa pôs fim às receitas do jogo. Os azimutes viraram, então para os investimentos nos mercados financeiros.
Acompanha os mercados diariamente, questionámos. Diz que já acompanhou mais, mas “existe hoje mais uma razão para estar atento”. Essa razão tem um nome: Trump. “Por causa das tarifas e tudo o mais, só faz disparates”. A China vai emergir mais forte? “Sim. Com isto [Trump] está a abrir o caminho para a China”. As relações com Pequim também merecem comentário. “Portugal nunca se vê. Quando está em posição particularmente favorável, nunca reconhece isso. Eu digo sempre que há aqui uma relação que não é proporcional. A China tem connosco uma relação com base na História, que nós não valorizamos tanto quanto eles; e deveríamos valorizar um pouco mais, até porque temos poucas coisas para valorizar em relação à China”.
Aprendeu a conhecer as idiossincrasias dos chineses nos 14 meses que esteve em Macau. Não abalaram o mundo, mas marcaram-no para sempre. Não é homem para fazer planos a longo prazo, diz, deixa isso para os chineses, mas aprecia muito essa forma de estar. Já estamos a viver o século chinês ou a Índia ainda pode vir a surpreender? A resposta surgiu prontamente. “Bem, convinha que a Índia não surpreendesse. Mas faz sentido que tenha um papel mais importante em termos geopolíticos – sobretudo comparando com a China – e há condições para que a Índia seja um parceiro. Não vou dizer mais fiável, porque os chineses iam ficar chateados comigo, mas um parceiro fiável no sentido do equilíbrio na esfera geopolítica. Voltando à pergunta, se estamos a viver o ‘século chinês’, sim, já estamos no século chinês, mas vai ser atravessado por um ‘século indiano’ também”.
O árbitro da casa…
Já aqui o dissemos. O Museu do Oriente é outro marco relevante nos 37 anos de vida da Fundação, os mesmos que Monjardino leva como presidente do conselho de administração. A sucessão é, pois, um tema incontornável, mas muito delicado. Está a passar “o testemunho a pouco e pouco”. Vê isso com naturalidade, questionamos? “Alguma”. Pausa. “Para lhe dizer a verdade, não vou conseguir ficar distante da Fundação enquanto cá andar neste mundo. Portanto, tenho de ficar como Chairman. E, depois, de alguma maneira, ainda com um pezinho na Comissão Executiva”. E esse “pezinho” vai acelerar ou vai travar? “Como calço 46, é um pezinho que não é mau”, diz, esboçando um sorriso. “Vou ficar como árbitro, que é o que eu gosto”. A curiosidade fala mais alto. É possível contestar a sua opinião? “Possível é, mas não contestam”. No entanto, “se houver, dentro da Comissão Executiva, opiniões diferentes sobre um assunto, chamam-me”. E acrescenta: “Já passei uma parte das responsabilidades para os dois elementos mais novos que vão entrar ainda este ano”.
… e o contador de histórias
As mudanças irão acontecer ao ritmo que bem definir. Mas dentro de dias, em vez de partir para Macau – ritual que manteve duas vezes ao ano até muito recentemente, “agora já só vou uma vez” –, estará aos comandos do seu barco, numa viagem até Marrocos. Aqui chegado, dispara: “Vou-lhe contar uma história divertida”. Breve pausa. O olhar suspenso. “O Dr. Soares chamou-me e disse: “veja lá se pode ir a Marrocos falar com o rei, que ele está a pensar comprar uma propriedade em Portugal. Veja se o pode aconselhar”. E eu disse-lhe, “não sou promotor imobiliário. Mas se quiser que eu vá, eu vou”. E prossegue. “Como seria normal, tomei banho e vesti-me. Fui para o aeroporto e percebi que ia a coxear um pouco, mas não liguei. Quando cheguei ao avião, estendi as pernas e vi que tinha um sapato de cada cor. “Como é que eu vou resolver isto?”.
Cheguei a Casablanca e andei à procura de sapatos para mim, mas não havia o meu número. Calço 46. Portanto, lá fui ter com ele e disse-lhe: “Votre Majesté, antes que o senhor repare e pense que sou maluco, quero dizer-lhe o que aconteceu – estou com um sapato de cada cor e tal. Desculpe lá, mas não consegui arranjar maneira de comprar, em Casablanca, sapatos do meu número. Ele riu, achou imensa graça e a conversa, a partir daí, fluiu. Estivemos horas a conversar e, no fim, virou-se para mim e perguntou: “quando é que você vai embora?” “Bem, era para ir hoje, mas já não vou…”. “Vai, vai. Pegou no telefone, ligou para o aeroporto e disse: ‘ponha o meu avião à disposição deste senhor, vai levá-lo a Lisboa’. E eu vim”.
O café sobre a mesa arrefeceu. A janela rasgada mostra o azul do céu e filtra a luz sobre as cerâmicas chinesas na sala do primeiro piso da Fundação Oriente. Afinal, não saímos de Lisboa, mas foi uma bela viagem.
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