O episódio do disparo do canhão no torneio de golfe e que futuro das relações entre o Exército e a Sociedade Civil?

Estar em sociedade e acima de tudo ocupar cargos e tomar decisões que são susceptíveis de afectar a vida e a carreiras de pessoas são actos de imensa responsabilidade social e uma intensa dignidade ética, pelo que se deve exigir às pessoas que ocupam tais cargos uma dose elevada de bom-senso, ponderação e prudência, que me parece que faltou neste caso.

Recentemente assistimos os meios de comunicação social e as redes sociais a se escandalizarem com o facto de se ter disparado um canhão com pólvora seca num torneio de golfe organizado pela Zona Militar da Madeira e com a presença de militares fardados.

Clamou-se a viva voz pelo eventual uso de material de guerra e de dinheiros públicos para fins particulares.

Ora, muito embora se tenha apurado que a peça de artilharia não tem valor militar e ser usado apenas em actos cerimoniais, assim como os militares presentes se encontrarem ao serviço na mesma, o Major General Carlos Perestrelo acabou por ser exonerado dos cargos que detinha, quer como Comandante Operacional da Madeira, quer como Comandante da Zona Militar da Madeira.

Depois da vergonha nacional que foi o episódio de Tancos, em que 50 quilos de plástico explosivo PE4A, foguetes anti-carro, cargas de explosivos, granadas ofensivas, granadas de gás lacrimogéneo, disparadores, bobines de arames e iniciadores pura e simplesmente despareceram, e mais grave ainda, este desaparecimento foi posteriormente sujeito a um encobrimento envolvendo as mais altas patentes do exército e figuras do país, parece-me que provavelmente existe um exagero, ao se ter dado a um evento simbólico uma importância que não tinha, e acima de tudo, por se ter manchado a carreira de um militar orgulhoso e honrado a escassos dias de terminar a sua Comissão.

Estar em sociedade e acima de tudo ocupar cargos e tomar decisões que são susceptíveis de afectar a vida e a carreiras de pessoas são actos de imensa responsabilidade social e uma intensa dignidade ética, pelo que se deve exigir às pessoas que ocupam tais cargos uma dose elevada de bom-senso, ponderação e prudência, que me parece que faltou neste caso.

Com efeito, dúvidas parecem não existir que o único intuito de disparar uma munição de pólvora seca no referido torneio de golfe foi de dar visibilidade à instituição militar na Madeira num evento organizado em parceria com instituições militares e, acima de tudo, promover relações humanas e uma aproximação entre a sociedade civil e militar e nunca qualquer intuito de apropriação ou qualquer outro efeito para além deste.

Certo e sabido que com a destituição, sem mais, dos cargos detidos pelo Major General Carlos Perestrelo por este episódio de significância muito reduzida, os seus sucessores seguramente pensarão duas vezes antes de fazer qualquer evento em que possa directa ou indirectamente envolver civis, com medo de serem igualmente destituídos, o que previsivelmente fará com que os militares se mantenham (ainda mais) nos quartéis, o que naturalmente produzirá um afastamento entre as instituições militares e a sociedade civil.

Sabendo que todos os portugueses pagam € 2.338.000.000,00 (dois mil trezentos e trinta e oito milhões de euros) pela Defesa Nacional em 2019, em que o Exército custou € 588.000.000,00, a Marinha custou € 519.000.000,00 e a Força Aérea custou € 411.000.000,00, contrapondo este valores com um disparo de uma munição de pólvora seca num campo de golfe, parece uma coisa muito pequenina para que possa levar à destituição de um homem que dedicou toda a sua vida à causa militar.

Se for para não existir relações entre a sociedade civil e as instituições militares, afinal qual é o contributo efectivo das instituições militares para a sociedade e para que precisamos efectivamente destas instituições? É que, tendo em conta que Portugal já é um dos países com a carga fiscal mais elevada da Europa, pedir aos portugueses que paguem cerca de 2 mil milhões de euros por ano para os militares ficarem nos quartéis, parece-me bastante caro…

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