O futuro do mundo em debate na cimeira da tecnologia

Internet, Inteligência Artificial, ‘Blockchain’, ‘Brexit’ ou Segurança. Vários líderes mundiais, da política às empresas, passaram pela conferência e deixaram as suas ideias para o futuro da humanidade.

Uma das principais ideias deixadas no discurso de abertura da Web Summit arrancou um forte aplauso da plateia. O secretário-geral da ONU, António Guterres, quer ver desaparecer as máquinas que têm poder para matar pessoas. “Máquinas que têm o poder e a capacidade de escolher para matar pessoas são politicamente inaceitáveis, moralmente repugnantes e devem ser banidas pelas leis internacionais”, disse, perante os milhares de espetadores que encheram as bancadas da Altice Arena.

Num painel intitulado “Nurting a digital future that is safe and beneficial for all”, salientou os benefícios que o desenvolvimento da tecnologia trouxe à sociedade, sinalizou a necessidade de “criar plataformas” e “encontrar formas de discutir e acordar” em protocolos mecanismos que permitam ao ciberespaço colocar a tecnologia como uma ferramenta para a força do bem comum.

O futuro da tecnologia e da inovação é sempre imprevisível, adiantou, comparando a experiência como andar numa montanha russa e que as pessoas só entram quando têm a certeza que é seguro. “É esse o desafio fundamental, se vamos estar seguros. A tecnologia digital tem imensos poderes positivos, mas com esses poderes vêem grandes riscos”, afirmou Margrethe Vestager, a Comissária Europeia para a Concorrência.

Vestager destacou também que reconhecer que esses riscos são reais não é um ataque à tecnologia, porque a tecnologia traz benefícios e alarga o debate político. “Mas ao tempo, produz informação danosa que se espalha de forma ainda mais rápida do que nunca, despoletando a violência, minando a democracia”.

A Comissária sublinhou que tudo o que “está online” afeta a sociedade e que “não há contradição entre privacidade, proteção de privacidade, proteção legal, liberdade de discurso e mundo digital”.

“E o acesso a dados é uma muito importante fonte para a inovação”, referiu, nas questões colocadas sobretudo sobre processos. A comissária foi referindo que a Apple “não é dominante” como a Google em alguns dos seus mercados.

A responsável garantiu que “quanto maior a empresa se torna, mais responsável se é”.

“Por isso, se é uma empresa dominante, tem-se uma responsabilidade porque a concorrência fica mais fraca no mercado onde se está. Por isso há o caso Google, esta é a base legal do processo”, acrescentou.

Na Web Summit, o antigo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, centrou o discurso entre a tecnologia e o ‘Brexit’. “As grandes empresas [tecnológicas] devem ser reguladas, e os reguladores devem ter meios para garantir que estas não abusam do seu poder e agem de acordo com os valores que defendemos. Mas essa regulação tem de ser flexível para se adaptar, senão ficará rapidamente ultrapassada”, acrescentou Blair, afirmando ainda que devemos evitar “criar um clima que limite o investimento e o desenvolvimento das empresas de tecnologia” e que é importante envolver estes agentes na discussão e estruturação das regras — “não de uma forma hostil, mas garantindo que são respeitados os direitos dos cidadãos”.

Brexit’ e Blockchain

O antigo governante reafirmou a sua posição contra a saída do Reino Unido da União Europeia e considera ser ainda possível que o processo não aconteça. Na Web Summit, Tony Blair defendeu que o governo atual deveria realizar um novo referendo. “Sou 100% contra o ‘Brexit’. Penso que ainda é possível pará-lo porque não é o nosso interesse económico”, afirmou Tony Blair, arrancando um forte aplauso da plateia. “Penso que uma eleição geral é muito improvável, mas pelo menos devíamos ter a possibilidade de voltar às pessoas”.

Para Blair, Theresa May não está numa posição fácil, e até admite que tem boas intenções. Mas para Blair não há dúvidas de que o ‘Brexit’ não é o caminho: “Nós, europeus, temos de nos juntar”, especialmente face ao crescimento da China.

A tecnologia blockchain que ficou conhecida pelo uso em criptomoedas está pronta para ser usada de forma generalizada, segundo David Chaum. O cientista de computação que foi pioneiro do dinheiro digital e criou a primeira blockchain em 1982 também esteve na Web Summit, em Lisboa, para falar do mundo cripto, incluindo o papel da privacidade no setor.

“Estamos prontos para o uso generalizado da tecnologia blockchain. É a única forma de responder ao que os consumidores demonstram. Mensagens e pagamentos é o que as pessoas querem”, afirmou o fundador e CEO da Elixxir.

Contrato para a Internet

O físico britânico Tim Berners-Lee defendeu a existência de um contrato para Internet. O inventor da World Wide Web (WWW) e número um da fundação com o mesmo nome esteve no palco principal da cimeira tecnológica, em Lisboa, onde recuou ao século XX e mostrou até fotografias do primeiro servidor de Internet.

“Nós precisamos de um contrato para a Web. O objetivo é que diferentes partes se juntem para produzir mudanças positivas. Se for um indivíduo, um consumidor, temos de perceber que todas as pessoas são responsáveis por fazer a web competitiva. Precisamos da vossa ajuda”, afirmou.

Tim Berners-Lee assinalou que, em 1989, quando criou a web queria que esta fosse uma rede de livre acesso e que servisse a humanidade. “Proponho-vos que façam parte disto. Nós conseguimo-lo fazer juntos”, acrescentou, alargando o pedido ainda a “governos de todo o mundo”, que devem ser “sensibilizados”, acrescentou. Em 2019, é estimado que metade da população mundial – cerca de 3,5 mil milhões de pessoas – estejam conectadas à Internet e isso leva a duas preocupações: como salvar a web para que corresponda ao que as pessoas esperam desta forma de navegar, partilhar informações e como ligar o resto do mundo.

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