“O islamismo tem uma outra linguagem universal que comunica através da sua arte”

A artista plástica Margarida Sardinha expõe “Symmetry’s Portal” no Centro Ismaili de Lisboa até 15 de fevereiro. Na mostra, constituída por um núcleo de 30 trabalhos e um filme, a criadora dá a conhecer a sua visão do Islão. Como nasceu a exposição “Symmetry’s Portal”? Há muito que estudo e investigo a geometria sagrada e […]


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A artista plástica Margarida Sardinha expõe “Symmetry’s Portal” no Centro Ismaili de Lisboa até 15 de fevereiro. Na mostra, constituída por um núcleo de 30 trabalhos e um filme, a criadora dá a conhecer a sua visão do Islão.


Como nasceu a exposição “Symmetry’s Portal”?

Há muito que estudo e investigo a geometria sagrada e as suas divinas proporções. Quando visitei o Alhambra, em 2011, fiquei absolutamente fascinada com a arte islâmica e com os palácios e jardins, onde tudo é pensado de forma geométrica – pois estas são as formas associadas a deus, ao absoluto. Foi desta arte anicónica que surgiu a exposição. Fotografei o local e voltei para o estúdio com milhares de imagens que trabalhei digitalmente, dando-lhes dimensões fractais e hiperdimensionais. Surgiram, então, trabalhos que são metade bidimensionais, metade tridimensionais. Os poliedros acoplados às fotografias dão uma ilusão de três ou mais dimensões, criando estruturas multidimensionais estáticas.

Como surgiu a oportunidade de expor no Centro Ismaili de Lisboa?
Gosto que o meu trabalho tenha um cariz “site specific”. Quando concluí esta série de trabalhos, procurei sítios onde eles pudessem, potencialmente, ser expostos. Locais que exaltassem, de certa forma, o seu lado espiritual e o seu conceito religioso islâmico. Um amigo sugeriu-me o Centro Ismaili e enviei de imediato uma proposta, que foi muito bem recebida. Houve também uma coincidência engraçada: a construção do Centro Ismaili, da autoria de Raj Rewal e de Frederico Valsassina, teve como base as tradições de arquitetura no contexto islâmico e no contexto da Península Ibérica. Por isso, o Centro assimila três estilos arquitetónicos representativos de regiões e períodos históricos diferentes. O primeiro reflete a herança tradicional portuguesa manifestada através da construção em pedra de lioz e granito. O segundo expressa os valores islâmicos através da constante utilização da geometria nos rendilhados geométricos que revestem as fachadas. E a terceira influência é manifestada pela utilização do estilo andaluz, presente através dos pátios, jardins interiores, exteriores e claustros. Portanto, sendo o Alhambra uma das inspirações, que é aliás bastante visível a quem visita o Centro, fazia todo o sentido que a exposição tivesse lugar no Salão de Exposições do Centro Ismaili.

“Symmetry’s Portal” já esteve exposto, em 2014, na Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, na Ericeira. Foram adicionadas ou retiradas obras à mostra para o Centro Ismaili?
A exposição é a mesma. Foram vendidas obras na Casa de Cultura da Ericeira, mas os colecionadores que as compraram tiveram a amabilidade de cedê-las para esta exposição.

Em que consiste a mostra?
Consiste num entrelace multidimensional que se encontra tanto nos trabalhos fotográficos tridimensionais de grande formato como no filme experimental. Os 30 trabalhos e o filme “Symmetry’s Portal” foram concebidos sob as descrições geométrico-matemáticas do arquiteto Keith Critchlow (cujo estudo resulta da análise dos padrões à luz dos princípios metafísicos e cosmológicos islâmicos), do matemático britânico Marcus du Sautoy e do físico e matemático Roger Penrose.

As teorias de Critchlow, du Sautoy e de Penrose vêem, nos padrões islâmicos, princípios metafísicos e cosmológicos que ajudam a estruturar o mundo. Também entende o mundo desta maneira?
Sim, senão nada faria sentido para mim.

As obras que apresenta têm uma relação direta com o islamismo?
O meu trabalho debruça-se sobre religião comparativa. Interessa-me essa linguagem universal do amor, sabedoria e paz, que todas as religiões transmitem pelos seus profetas, a quem Karen Armstrong chama de “axial people”. O islamismo tem uma outra linguagem universal que comunica através da sua arte anicónica – a da geometria e da matemática – sobre a qual o meu trabalho também é coincidente. Há, dentro do universo espiritual islâmico, uma dimensão que se pode chamar de “Pitagorismo Abraâmico”, uma perspetiva de pensar os números e figuras como chaves para a estrutura do cosmos e como símbolos do mundo arquétipo. É esta possibilidade do universo intelectual islâmico, com poucas ou nenhumas influências externas, que permitiu que o Islão desenvolvesse uma filosofia matemática semelhante à da tradição Pitagórico-Platónica da Antiguidade, mas com uma particularidade totalmente sagrada. É também este elemento inato da estrutura do Islão que originou a criação de uma arte sagrada de natureza essencialmente geométrica. A arte islâmica é essencialmente uma maneira de enobrecer a matéria geometricamente unida por formas caligráficas que incorporam a palavra de deus como revelada no santo livro Alcorão.

O vídeo que apresenta a cadência de formas geométricas é acompanhado pelo poema “Symmetry’s Portal”, da sua autoria. Neste poema, reclama, para a arte, o papel de “guia visível para inteligibilidade do universo de cada um”. O que quer dizer?
Para mim, a arte é um veículo do intangível e do inteligível. No meu trabalho, tento criar continuuns simbólicos geométrico-abstratos, nos quais recorro a imagens arquetípicas, inatas em cada ser humano. Estas imagens são arte, no seu mais puro sentido, e são visíveis. Todos temos a capacidade de compreendê-las e apreciá-las individualmente.

Tem outras exposições previstas para 2015?
Não, mas tenho, ainda este mês, dois dos meus filmes a serem mostrados em Los Angeles e já estou a preparar a próxima exposição, intitulada “Hyperbolic Hyparxis”.

A Margarida viveu, estudou e trabalhou em Londres durante dez anos. Pensa voltar?
Talvez um dia, sim. Gostava muito de poder voltar. Logo se vê as voltas que a vida dá.

O cenário da arte contemporânea no Reino Unido é muito diferente do de Portugal?
Sim, muito. É mais alargado, há mais oportunidades, mas também mais competitividade. Existe uma grande comunidade artística que tem muito peso na sociedade, o que não existe em Portugal.

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