O peão

Dívidas e peões são a consequência da ditadura democrática silenciosa, onde o poder político procura perpetuar-se com o dinheiro dos contribuintes. Resta saber até quando.

As declarações de José Berardo na Comissão Parlamentar de Inquérito à CGD foram, no mínimo, iguais a si próprio, excêntrico e indiferente à opinião alheia. O mesmo não se pode dizer dos políticos, agora “chocados”, quando fizeram parte dos governos que o apoiaram.

Recordo que Berardo era o herói que iria “ajudar” o Benfica quando decidiu lançar uma OPA em 2007, e um nacionalista que comprava participações relevantes em empresas portuguesas. Na altura, poucos se questionaram de onde vinha o dinheiro, mas esta audição trouxe elementos relevantes acerca da actuação de vários intervenientes nesta tragédia, que importa recordar.

O primeiro é a estranha coincidência de ausência de dívidas ao BPI ou Santander, quando “todos” queriam emprestar dinheiro ao Comendador. Convém relembrar que em 2006 era intenção do BPI criar o maior grupo bancário nacional português, unindo-se ao BCP para destronar a CGD. Ora, esta situação não era do interesse do BES, da CGD nem do governo da altura, sendo até conflituosa no seio do BCP, onde as relações de poder seriam alteradas. Estavam assim criados os alicerces para impedir uma operação, mas faltavam os peões.

Como disse na audição, Berardo aceitou o empréstimo, desde que não afectasse o seu património pessoal, condições que foram aceites pelos administradores dos bancos que lhe emprestaram dinheiro, pelos decisores políticos e inclusive pelo Banco de Portugal, a julgar pelas reuniões tidas. Estava em curso uma manobra que visava impedir uma operação de mercado e de assalto ao BCP. Berardo via nesta operação um risco baixo, que lhe poderia render milhões, pois estava disposto a perder apenas 5% do valor do empréstimo e a dar os dividendos para pagar juros, ficando com os lucros da operação. Um negócio perfeito para quem dava o nome.

O segundo elemento tem a ver com o facto de os próprios bancos não exercerem a venda das acções. Quem actua no mercado financeiro sabe que é impossível vender uma participação financeira com a dimensão daquela que Berardo detinha no BCP apenas com um desconto de 5% face à cotação. Ou seja, todos os intervenientes – incluindo Vitor Constâncio, na altura no Banco de Portugal – teriam de saber que não era possível cumprir os contratos assinados.

Ficámos também a saber que foram os administradores dos bancos que concederam mais crédito para que Berardo não fosse parar à lista de incumpridores, evitando constituir provisões que iriam afectar as contas, enganando assim os accionistas dos bancos que acorreram a sucessivos aumentos de capital.

Berardo disse tudo. Os accionistas foram enganados pelas próprias administrações dos bancos. Mais. O próprio BCP, ao emprestar dinheiro para comprar as acções do próprio banco, estaria indirectamente a comprar acções próprias, martelando as contas e cometendo a mesma infracção de que a anterior administração tinha sido acusada.

Haveria muito mais a referir, mas não posso deixar de estranhar como um empresário não sabe o organigrama da sua empresa tendo para o efeito de recorrer ao advogado, o mesmo que estava na administração das empresas que pediram empréstimo aos bancos. Uma das hipóteses é não tiver sido ele a criar a estrutura que iria blindar o seu património, mas sim um terceiro.

Por último, se o presidente vitalício da Fundação Berardo é o próprio Berardo, que é acompanhado na Administração pelo filho Renato Berardo e pelo advogado André Gomes, como é que alguém espera uma decisão no sentido da venda das obras, principalmente se o Conselho de Administração é composto por seis elementos e Berardo tem o voto de qualidade?

Dívidas e peões são a consequência da ditadura democrática silenciosa, onde o poder político procura perpetuar-se com o dinheiro dos contribuintes. Resta saber até quando.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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