“O que acontece com o mundo acontece connosco” é o mote da Bienal’21 Fotografia do Porto

São 19 exposições no Porto, em Lisboa e em ambiente virtual, todas de entrada gratuita. Uma organização da Plataforma Ci.CLO que se estende até 27 de junho.

The Ministry of Privacy, Maxime Matthys, Bienal’21 Fotografia Porto

A fotografia tomou o Porto de assalto e chamou a si a missão de mudar o nosso olhar sobre a organização da sociedade ao nível da justiça social e ambiental. “O que acontece com o mundo acontece connosco” é o mote da 2ª edição da Bienal’21 Fotografia do Porto e traz-nos o olhar de 46 artistas. O mesmo é dizer 46 perspetivas sobre o mundo.

O desafio já seria enorme se os artistas olhassem apenas para fora, i.e., para a interdependência entre os sistemas naturais e humanos. Mas o repto lançado pela Plataforma Ci.CLO, responsável pela organização e curadoria do evento, implica também olhar para a arte e cultura, e perceber como estas podem desempenhar um papel ativo no debate sobre as vulnerabilidades sociais, económicas e ambientais.

Ao fim de mais de um ano de uma pandemia, que transformou a nossa forma de estar e de nos relacionarmos – uns com os outros e com o planeta –, quisemos saber que desafios este episódio desestabilizador colocou à interação entre curadores e artistas. Virgílio Ferreira, Diretor Artístico da Bienal’21 Fotografia do Porto e fundador da Ci.CLO, explica como foi gerir os obstáculos que surgiram durante o processo criativo.

“Muitas das exposições são inéditas e criadas em exclusivo para a Bienal, em resultado de laboratórios de criação individual ou colaborativa entre os artistas, que aconteceram num contexto de pandemia e confinamento, obrigando a criar novas dinâmicas de residências artísticas virtuais. E esse foi um dos grandes desafios: articular os processos de criação entre os curadores e os artistas, sempre no ambiente digital. Mas o resultado foi muito surpreendente. Abriram-se novas portas, novas possibilidades e novas formas de interação com os objetos de criação. Eu diria que mais do que uma adaptação houve uma verdadeira transição, que foi curiosamente o tema da primeira edição, em 2019”.

Tendo presente que a arte pode contribuir para mudar mentalidades, de que forma as obras apresentadas na Bienal ambicionam fazê-lo? “Reconhecendo que é necessário mudar de rumo, os projetos apresentados na Bienal Fotografia do Porto pretendem contribuir para uma maior consciencialização sobre as injustiças ecológicas e sociais que enfrentamos, denunciando problemas e apontando caminhos de transição que facilitem e definam outras formas de viver e interagir com o planeta”, esclarece Virgílio Ferreira.

Na Bienal’21 exploram-se temas como a emergência climática, ecofascismo, nacionalismo, populismo, cibersegurança, violência de género, violação de direitos indígenas, colonialismo, entre outros. E, como sublinha o diretor artístico, “simultaneamente, apresentam-se propostas concretas de iniciativas regenerativas”.

Da dezena e meia de espaços, deixamos aqui um apontamento sobre as propostas que pode ver em dois deles. Começamos pelo Centro Português de Fotografia e pela mostra “The Horizon is Moving Nearer”, que reúne obras de oito artistas – Nancy Burson, Simon Roberts, Poulomi Basu, Maxime Matthys, Lisa Barnard, Gideon Mendel, Salvatore Vitale, Stanley Wolukau-Wanambwa. A curadoria é de Tim Clark e os temas abordados vão desde a masculinidade tóxica à emergência climática passando pelo nacionalismo, populismo, violência de género, Brexit, Trump e outros fenómenos.

Destaque também para o diálogo entre “Travessia, de Susan Meiselas, e “Muxima, de Alfredo Jaar, sobre a herança do colonialismo português em diferentes geografias — no Porto e em Angola — patente na Reitoria do Porto. Retratos da precariedade e resiliência das comunidades africanas e afrodescendentes nos dois continentes, com curadoria de Lydia Matthews (Atenas/Nova Iorque).

De novo à conversa com Virgílio Ferreira, quisemos saber se o que aconteceu com os artistas, logo “connosco”, já deu ideias para a próxima Bienal. “O eixo temático é transversal a todas as edições, tendo como intenção contribuir para a expansão do debate socioecológico no domínio da cultura visual. A Bienal Fotografia do Porto reconhece os profundos desafios sociais e ecológicos que o nosso coletivo enfrenta. Nesse sentido, a próxima Bienal dará continuidade ao trabalho que foi iniciado em 2019 e reforçado este ano. Olhamos para este projeto a longo prazo, pois acreditamos que só assim é possível aprofundar os conteúdos e estratégias artísticas e de mediação com os públicos, e contribuir para mudanças culturais”.

Pegando nestas palavras e tendo presente que a Cultura um dos eixos que a Comissão Europeia quer promover como pilar da recuperação económica pós-Covid, qual pode ser o contributo da Ci.CLO num futuro próximo?

“Neste momento de mudança, que será provavelmente o primeiro fôlego de uma nova era, precisamos de colaborações artísticas, cívicas e institucionais que nos permitam imaginar, construir e sustentar novos discursos e realidades, oportunidades de cocriação que nos conduzam a uma tão urgente regeneração social e ecológica. A Ci.CLO mantém uma vontade permanente em obter diálogos concretos e conceptuais, entre curadores, artistas, parceiros, comunidades e públicos, pautando-se pelo trabalho rigoroso que eleva a intervenção artística contemporânea a um importante papel de mediação e de enriquecimento cultural”.

A Bienal’21 Fotografia propõe 19 exposições no Porto, em Lisboa e em ambiente virtual, todas de entrada gratuita. Além de promover conversas públicas sobre o impacto do ser humano no ambiente. Consulte aqui todo o programa.

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