Os iconoclastas

A morte de George Floyd gerou uma vaga global de manifestações de denúncia da descriminação racial, justa e necessária, pois o racismo é um preconceito que colide com os mais elementares valores humanistas e bem mais generalizado do que habitualmente se reconhece, não sendo exclusivo de uma cor de pele, de um país, de uma […]

A morte de George Floyd gerou uma vaga global de manifestações de denúncia da descriminação racial, justa e necessária, pois o racismo é um preconceito que colide com os mais elementares valores humanistas e bem mais generalizado do que habitualmente se reconhece, não sendo exclusivo de uma cor de pele, de um país, de uma cultura.

Porém, as boas causas vão muitas vezes parar a más mãos. Militantes e bem organizadas, minorias radicais de esquerda têm procurado monopolizar o combate ao racismo, instrumentalizando-o em função da sua visão do mundo e dos interesses da sua agenda ideológica, recorrendo amiúde à violência, que entendem como forma legítima de acção política.

É o que tem sucedido com a deriva iconoclasta das últimas semanas, em que as estátuas se tornaram alvos a abater, numa espécie de reedição em versão moderna e progressista da damnatio memoriae romana. O combate ao racismo, movido pelo amor ao próximo, assume assim, por paradoxo, uma faceta odiosa, alimentando-se de um desejo de ajuste de contas, de vingança póstuma.

Embora a controvérsia em torno das estátuas de personalidades históricas não seja nova, a escala da sanha destruidora desta vaga de protestos não tem paralelo, gerando estupefacção e indignação da maioria dos cidadãos, que não compreendem esta campanha pretensamente justiceira.

De facto, desafia o senso comum que se presuma fazer um julgamento dos mortos, pois que, além de inútil, carece de sentido, dado tratar-se de um exercício de anacronismo, na medida em que os “réus” viveram em sociedades com um quadro de valores diferente do nosso, revelando-se, no mínimo, problemática a avaliação dos seus actos em função de princípios que lhes eram estranhos.

Por outro lado, assume contornos absurdos quer a aleatoriedade da selecção de alguns dos condenados em julgamento sumário, quer a abordagem unidimensional dos “réus”, encarados apenas como colonialistas ou esclavagistas, independentemente dos feitos que justificaram a sua perpetuação em bronze ou em mármore ou mesmo em casos em que a única relação que tiveram com tais sistemas foi a de terem sido seus contemporâneos.

O que justifica, então, a guerra às estátuas? Resultarão de uma mistura explosiva de voluntarismo em excesso, de ignorância dos manifestantes e de puro vandalismo, sem outro propósito que o da destruição de património público? Em certos casos, seguramente. Porém, estas agressões ao passado ganham sentido se entendidas no quadro dos fins políticos e da interpretação da História do radicalismo de esquerda.

No fundo, o verdadeiro alvo da ira dos radicais é a sua bête noire de sempre: o Ocidente, democrático e capitalista, entendido como causa de todos os males da espécie e que pretendem forçar à contrição perpétua pelos pecados de antanho e pelo seu presente. Para estes, o sistema capitalista actual mais não é do que uma versão mais subtil e sofisticada do sistema que outrora criou e se nutriu do esclavagismo, apenas o substituindo por novas formas de exploração e de alienação. Resumindo o percurso da humanidade à tensão permanente entre exploradores e explorados, o passado e o presente não se distinguem, são fruto de uma mesma dinâmica.

Nesta perspectiva maniqueísta e distorcida, a eleição das estátuas de personalidades pretéritas como alvos da revolta mais não é do que a transferência simbólica para o passado da condenação do presente pois, a seu ver, embora envergando diferentes vestes, são uma e a mesma coisa.

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