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Os óculos inteligentes são o novo telemóvel

Os óculos Ray-Ban Display e os Ray-Ban Meta Gen 2 prometem revolucionar o dia a dia, mas a disponibilidade está limitada em muitos países, incluindo Portugal. A empresa de Mark Zuckerberg aposta em mercados lucrativos e com regimes fiscais mais favoráveis.
14 Novembro 2025, 07h46

Alguma vez lhe apeteceu responder a uma mensagem sem tirar o telemóvel do bolso ou encontrar o caminho até ao restaurante mais próximo sem ter de olhar para o GPS? Os novos óculos inteligentes da Meta, os Ray-Ban Display e os Ray-Ban Meta Gen 2, prometem fazê-lo mas Portugal está, para já, fora do grupo de países europeus onde já estão à venda. As funcionalidades de IA dos óculos encontram-se operacionais em França, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Irlanda e Áustria.

“Apesar de uma forte harmonização legislativa ao nível europeu, há diferenças que incentivam o lançamento em determinados mercados. A dimensão poderá tornar Estados como a França e a Alemanha particularmente atrativos. De igual forma, regimes fiscais mais favoráveis fazem com que certos países sejam mais interessantes do que outros”, diz Francisco Arga e Lima, professor convidado da Nova School of Law e consultor da sociedade Paxlegal para a área de Startups & Tech, ao Jornal Económico.

O especialista em proteção de dados e Inteligência Artificial (IA)sublinha ainda “o peso do ecossistema tecnológico, a concentração da infraestrutura, talento e oportunidade” como determinantes para o setor. Esta combinação de fatores, juntamente com uma legislação mais favorável à inovação, explica por que as grandes empresas tecnológicas tendem a concentrar-se primeiro nos mercados mais estruturados para lançar novos produtos.

“Em gigantes como o Google e a Meta, as produções são direcionadas para países onde há uma maior recetividade. Isto é gradual. Começam nos Estados Unidos e depois vão chegando a outros locais. Por exemplo, a Siri [assistente virtual da Apple] já existe há muitos anos mas só agora está em português de Portugal”, diz uma fonte do setor tecnológico. Os novos Meta Ray-Ban Display deverão chegar a países como Reino Unido, França, Itália e Canadá no início de 2026.
Além das estratégias comerciais, a entrada em novos mercados na Europa depende, também, do cumprimento de requisitos locais, como certificações de segurança, regulamentação sobre a Inteligência Artificial (AI Act) e normas de privacidade de dados (RGPD).

A Meta utiliza dados públicos dos utilizadores do Instagram e Facebook para treinar os seus modelos, incluindo aqueles que alimentam as funcionalidades dos óculos Ray-Ban Meta. “Acho que existe agora um consenso alargado de que a regulamentação europeia em torno da tecnologia tem os seus problemas e, por vezes, é demasiado fragmentada. Mas o resultado líquido de tudo isso é que os produtos acabam por ser adiados ou diluídos, e os cidadãos e consumidores europeus é que sofrem”, afirmou Chris Yiu, diretor de políticas públicas da Meta para o norte da Europa.

Com o visual intemporal da Ray-Ban e um pequeno ecrã dentro na lente, estes óculos, que custam 799 dólares (689 euros), misturam elegância e tecnologia numa experiência que parece saída de um filme de ficção científica. O ecrã a cores, de alta resolução, permite ver e responder a mensagens, ler notificações, usar aplicações e até fazer videochamadas.
Já os recursos multimodais, que permitem aos utilizadores fazer perguntas sobre objetos ou monumentos captados pela câmara dos óculos, continuam exclusivos para os Estados Unidos, Canadá e Austrália. “Esta é uma aplicação profunda e muito humana da tecnologia, e está a demorar a chegar à Europa devido aos problemas que temos ao nível da regulamentação”, reforçou o responsável de políticas públicas da Meta.

Um dos principais desafios para os europeus será garantir a legitimidade do tratamento de dados. “Estamos a falar, por exemplo, de estabelecer uma base jurídica para tratar dados biométricos (como imagens faciais, voz, dados de íris) tanto do utilizador, como de terceiros que os óculos eventualmente captem”, explica Francisco Arga e Lima.
Como a Meta é uma empresa à escala global, prevê-se igualmente a necessidade de salvaguardar uma possível transferência de informação para países terceiros à UE. “Em matéria de IA, a Meta pode estar sujeita a obrigações suplementares, especialmente se o sistema for categorizado como de risco elevado”, acrescenta o especialista.

Mensagens com simples gestos

Os óculos são acompanhados de uma pulseira especial, a Meta Neural Band, que utiliza sinais eletromiográficos (EMG) para interpretar micromovimentos musculares da mão e dos dedos — os utilizadores podem interagir com a IA sem necessidade de usar controlos de voz nem bloquear o campo de visão. A banda tem uma autonomia de até 18 horas e é resistente à água. Ou seja, os utilizadores podem realizar ações como enviar mensagens com simples gestos da mão.
Além disso, os Ray-Ban Meta Display vêm equipados com assistente de voz integrado, conectividade Bluetooth para sincronização com dispositivos móveis e capacidade de partilhar conteúdos em tempo real. A IA também permite funcionalidades avançadas como legendas automáticas de conversas, tradução instantânea e reconhecimento de objetos através da câmara de 12 megapíxeis.

A bateria suporta cerca de seis horas de utilização mista e pode ser carregada numa caixa dobrável que garante até 30 horas adicionais.

Na demonstração ao vivo, realizada em setembro na Califórnia, Zuckerberg não conseguiu atender uma chamada nos óculos, mas atribuiu a falha a uma má ligação wi-fi e brincou dizendo que já tinha ensaiado “uma centena de vezes” sem qualquer problema. O lançamento surgiu pouco depois de a Meta ter reestruturado a sua equipa de IA pela quarta vez em seis meses, atribuindo-lhe o nome de “Meta Superintelligence Lab”.

A tecnológica acredita que estes dispositivos têm o potencial de revolucionar a maneira como consumimos informação, navegamos pelo mundo digital e interagimos com os outros, tornando a tecnologia quase impercetível, mas omnipresente no nosso dia a dia.


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