Revolução: Como a Inteligência Artificial já está a mudar as nossas vidas

O Parlamento Europeu não tem dúvidas. Os robôs são “pessoas eletrónicas” e os eurodeputados aprovaram ontem que se devem adotar regras em matérias de robótica e Inteligência Artificial. A ética, o impacto sobre o emprego, a sustentabilidade do Estado Social e a transformação industrial são temas em cima da mesa e discutidos por empresários como Elon Musk ou o cientista Stephen Hawking. Garantir a segurança dos humanos é outra das prioridades.

Rick Wilking/REUTERS

Um gestor de tecnologiais intersetoriais sai do trabalho, entra no carro e coloca-o em modo auto-piloto. O destino é o supermercado mais próximo, onde será saudado por um ‘chatbot’ – um programa que tenta simular um ser humano e responde a mensagens – que lhe irá recomendar os produtos para o jantar com base no histórico de compras. Já em casa, enquanto escolhe um filme para ver, encomenda um pacote de pipocas, que será entregue por um drone em apenas 13 minutos (um sistema já testado pela Amazon).

A Inteligência Artificial (IA) está a entrar pelas nossas casas e a revolucionar a forma como trabalhamos, consumimos e interagimos uns com os outros. O tema foi discutido ontem. O Parlamento Europeu aprovou com 396 votos a favor, 123 contra e 85 abstenções que se devem adotar regras em matéria de robótica e de inteligência artificial que tenham em conta questões como a responsabilidade civil, os princípios éticos relacionados com as suas inúmeras implicações sociais, o impacto sobre o emprego e a proteção da segurança e da privacidade.

Os eurodeputados pediram também à Comissão que considerasse a criação de um estatuto jurídico específico para que os robôs autónomos mais sofisticados possam ser detentores do estatuto de pessoas eletrónicas responsáveis por sanar quaisquer danos que possam causar. Propõem também a aplicação da personalidade eletrónica a casos em que os robôs tomam decisões autónomas ou em que interajam com terceiros de forma independente.

Outra das medidas sugeridas pelo PE é um código de conduta ética para engenheiros de robótica, que convide todos os investigadores e criadores a agir de forma responsável e com consideração absoluta pela necessidade de respeitar a dignidade, a privacidade e a segurança dos seres humanos.

Numa coluna de opinião no jornal “The Guardian”, o cientista britânico Stephen Hawking sublinha que a Inteligência Artificial “irá acelerar a crescente desigualdade económica a nível mundial, fazendo com que só sobrevivam os empregos mais criativos ou de supervisão”. O Jornal Económico consultou especialistas de diversas áreas sobre esta revolução que já está a mudar as nossas vidas. António Bob Santos, economista e assessor para as políticas de inovação da Agência Nacional de Inovação (ANI), considera que “por muito sofisticadas que as tecnologias sejam nunca atingirão a inteligência humana”.

Sobre a possível destruição de postos de trabalho, o economista acredita que novas oportunidades vão aparecer. “Nos próximos 20 ou 30 anos aparecerão em Portugal mais profissões ligadas às areas do conhecimento como gestor de tecnologias intersetoriais, gestor de redes inteligentes ou gestores de conflitos.”

Em relação ao sistema da segurança social, o economista acredita que este não estará mais fragilizado. “Vejo oportunidades de diversificação de fontes de receita. Agora está dependente dos trabalhadores mas no futuro podem ser aplicadas taxas às indústrias da robotização, o que trará um ‘mix’ de vários sistemas”, defende.

André Barata, filósofo e coordenador do doutoramento de Ciência Política da Universidade da Beira Interior (UNI), partilha de uma opinião semelhante. “Se parte da riqueza de um país não for produzida por trabalho humano, isso não significa que não seja tributada numa economia online”, afirma.

Já Edmundo Alves, investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa, mostra-se preocupado com as consequências para o mercado laboral. “Paralelamente, o progresso tecnológico, cujas vantagens são inegáveis, acarreta também inconvenientes consideráveis para o emprego. As empresas tecnologicamente avançadas tendem a não carecer de grandes contingentes de mão-de-obra e, sendo as mais inovadoras, são as que mais facilmente prescindem do trabalho humano. Daqui decorre que mesmo os que apostaram na formação têm crescentes dificuldades em encontrar uma colocação, expandindo-se a ausência de expectativas às camadas médias, como alertou Stephen Hawking”, refere.

Segundo um relatório publicado pelo Citibank em fevereiro de 2016 em parceria com a Universidade de Oxford, 47% dos empregos nos EUA estão em risco de ser substituídos por máquinas. No Reino Unido, 35% corre o mesmo risco. Na China, as estatísticas apontam para 77%, em contraste com a média da OCDE de 57%.

Dos automóveis à medicina
Passaram 60 anos desde que John McCarthy, cientista de computação e pai da IA, introduziu pela primeira vez este conceito – que foi recentemente debatido na edição deste ano do Fórum Mundial de Davos, onde a sociedade de advogados CMS organizou um fórum de discussão em parceria com a revista alemã “Die Zeit”, que juntou ali vários líderes políticos e empresariais.

A inteligência artificial é um campo vasto, com aplicações em várias áreas. Por exemplo, de acordo com a consultora A.T. Kearney, não demorá muitos anos até os clientes entrarem numa loja, serem saudados por chatbots (um robô que fala) e receberem recomendações de produtos com base no histórico de compras. Também um ramo da IA com base nas redes neurais do cérebro pode permitir aos assistentes inteligentes digitais ajudar a planear férias ou adivinhar os sentimentos dos clientes no que diz respeito a uma marca em particular.

Em termos de cuidados de saúde, a IA pode ajudar, entre muitos outros exemplos, os médicos a identificar tipos de células cancerígenas em qualquer lugar do mundo em tempo real. A organização filantrópica de Mark Zuckerberg e Priscilla Chan anunciou em janeiro deste ano a compra da Meta, uma ‘startup’ de IA, e tecnologia de análise de dados para a indústria da saúde. O objetivo é que seja mais fácil para os cientistas procurarem, lerem e relacionarem os muitos milhões de artigos científicos existentes.

Na indústria automóvel, os carros eléctricos da Tesla têm um modo de auto-piloto e outros fabricantes já demonstraram ter a tecnologia pronta. A Uber tem feito experiências-piloto com carros autónomos nos Estados Unidos. E o Google tem pequenos carros sem volante a circularem em estradas dos EUA. “É um rumo da história que me parece inevitável. Tem de haver uma regulação e uma afinação do comportamento dos carros”, conta o filósofo André Barata.

Por exemplo, a Volkswagen vai contratar mais de mil especialistas em realidade virtual e inteligência artificial para apoiar as equipas na produção inteligente, “big data” e desenvolvimento de software. Também a Ford acredita nos carros autónomos e aplicou uma fatia do orçamento para financiar a empresa de inteligência artificial Argo AI, fundada por antigos funcionários do Google e da Uber.

Fusão de humanos com máquinas?
O CEO e fundador da Tesla e da Space X, Elon Musk, conhecido pelas suas ideias futuristas, defendeu, durante uma apresentação no Dubai, que no futuro os seres humanos terão de conetar as suas mentes diretamente às máquinas. Caso contrário, correm o risco de ficar “obsoletos” com a crescente e constante evolução da Inteligência Artificial.

“Com o passar do tempo provavelmente vamos assistir a uma fusão mais próxima entre a inteligência biológica e a inteligência digital”, garante Elon Musk. A ideia do magnata da tecnologia é que as máquinas conseguem processar a informação de uma forma muito mais rápida do que o cérebro humano e a conciliação de forças poderia ser extremamente benéfica para o futuro.
“Nós somos tecnológicos desde há muito tempo. A primeira coisa é não ter receio da ciência. Sobre a tendência de prolongamento tecnológico do nosso corpo é possível que o progresso científico se instale no nosso organismo mas de forma ética”, defende o filósofo André Barata.

A ideia de tornar o homem uma espécie de “ciborgue” permitiria também, nas palavras de Elon Musk, encontrar uma maneira mais eficiente de interagir com as máquinas. No entanto, reconhece que os avanços da IA trouxeram problemas imediatos como a substituição do trabalho humano e afirma que não podemos esperar pela era dos ciborgues para evoluir, até porque enquanto está a ler este texto, as máquinas já leram 3.000.000.000.000.

“As máquinas podem complementar aquilo que o homem faz e até ampliar as competências humanas. É impossível um humano analisar milhões de terabytes de dados, mas com a ajuda das máquinas isso até pode ser um meio de acelerar a resolução dos problemas”, diz o economista António Bob Santos.

Os perigos
Em 2015, algumas das personalidades mais influentes da área da tecnologia juntaram-se para escrever uma carta, alertando para os perigos das armas autónomas. Entre os críticos está o professor Stephen Hawking, o cofundador da Apple, Steve Wozniak, o CEO da SpaceX, Elon Musk, o professor Noam Chomsky ou o chefe do gabinete de IA do Google, Demis Hassabis.
“A tecnologia com Inteligência Artificial chegou a um ponto que o desenvolvimento de tais sistemas – praticamente senão legalmente – é possível em apenas alguns anos, não décadas, e os riscos são grandes: as armas autónomas têm sido descritas como a terceira revolução no armamento, depois da pólvora e das armas nucleares”, pode ler-se na carta, resumindo que “uma corrida ao armamento que funcione através de IA é uma má ideia”.

O investigador Edmundo Alves alerta ainda para “a perda de privacidade”. No entanto, este especialista recorda que as revoluções colocam sempre problemas. E exemplifica: “Quando passámos do transporte de tração animal para os caminhos-de-ferro ou a introdução das máquinas na indústria. A diferença é que esses fenómenos de transição demoraram décadas a ser sentidos. Neste momento, com a IA o impacto sobre as pessoas, o emprego, os salários, o valor do trabalho e o Estado Social são extremamente rápidos”. l

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