Paulo Portas: “Há possibilidades de respirar melhor, com menos dúvidas, do que há umas semanas”

Ex-governante apontou tréguas entre Estados Unidos e China e clarificação do Brexit como pontos positivos na palestra “Geoestratégia do Mundo em 2020”.

Paulo Portas

O antigo vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas disse nesta sexta-feira que “há possibilidade de respirarmos melhor, com menor dúvidas, do que há umas semanas”, apontando na palestra “Geoestratégia do Mundo em 2020” o acordo entre os Estados Unidos e a China e o fim das dúvidas quanto ao Brexit como fatores marcantes deste início de ano.

Paulo Portas, que falava na qualidade de vice-presidente da Câmara do Comércio, realçou que esses dois fatores ainda há pouco tempo “corroíam a confiança” quanto ao crescimento económico global. Assim sendo, depois do pessimismo generalizado em 2019, no seguimento do “relativo otimismo” dos dois anos anteriores, considerou que “uma visão mais realista poderá prevalecer”.

Falando de um mundo que “hoje é mais oriental do que ocidental, mais do Pacífico do que do Atlântico, e mais asiático do que europeu”, Paulo Portas referiu que, entre as realidades a que devem estar atentos os empresários que o ouviam na sede da Câmara do Comércio, em Lisboa, a “emergência da Ásia é um fator constante que não se esgotou”. Concentrando-se 45% do crescimento real económico mundial na Ásia e tendo a China com uma fatia de 12% da exportação mundial de bens, “imaginar que o mundo ficará igual é pouco realista”.

Também por isso, os Estados Unidos começam a dar conta que “o mundo já não é o que era, tal como a própria América já não é o que era”, deixando de ter como principal ameaça à sua hegemonia a “Rússia milenar”, em que a União Soviética foi, na opinião do keynote speaker, apenas um episódio. “O que a Rússia faz no mundo é com o mesmo objetivo que o Reino Unido teve quando perdeu o seu império, que é lutar contra a sua própria irrelevância. Nem sempre das formas mais adequadas, como sabem”, disse Paulo Portas, que viria a prever mais longevidade no poder a Vladimir Putin do que teve Estaline.

Números mágicos

Logo no início da palestra, o ex-governante mencionou dois “números mágicos” que vão marcar 2020. Sendo esses a dúvida sobre se a China crescerá abaixo ou acima de 6% e se os Estados Unidos crescerão acima ou abaixo dos 2%. Algo particularmente importante em ano eleitoral, com as presidenciais norte-americanas marcadas para 3 de novembro.

Deverá ser a economia o fator decisivo para a possível reeleição de Donald Trump, cumprindo a tradição que todos os presidentes incumbentes dos Estados Unidos ganham quando há crescimento económico em ano de eleições e no anterior, tendo Paulo Portas sublinhado trunfos do ocupante da Casa Branca, como o “acordo heterodoxo” com a China, a “transformação do México numa Guarda Nacional” que trava a imigração ilegal e a forma como refez acordos com o México e depois com o Canadá, passando a ter os vizinhos como principais parceiros comerciais, à frente da China e do Japão.

Ainda assim, o ex-responsável pela diplomacia portuguesa defendeu que o desfecho das presidenciais ainda é too close to call, pois o resultado será decidido pelo nível de mobilização do eleitorado democrata, onde há sinais mais robustos do que houve para Hillary Clinton em 2016 no que toca ao antigo vice-presidente Joe Biden. “Quanto mais centrista for o candidato democrata maiores possibilidades de eleição terá”, defendeu Portas.

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