PCP identifica seis cadeias de dependência externa que implicam “colonização económica e política”

Turismo, grande distribuição e a aposta no lítio e no hidrogénio não foram esquecidos na análise (muito crítica) que os comunistas fazem à economia portuguesa nas Teses que servirão de base ao XXI Congresso, que decorrerá entre 27 e 29 de novembro.

António Pedro Santos/Lusa

As Teses que serão discutidas no XXI Congresso do PCP enquanto projeto de resolução política, divulgadas nesta quinta-feira no site do partido, apontam “seis fortes cadeias de dependência externa, que se alimentam entre si, arrastando uma efetiva colonização económica e política, pondo em causa a soberania e independência nacionais”. Segundo os comunistas, estão em causa a integração na União Económica e Monetária “e o seu sistema de imposições e normas”; a elevada dívida externa “e a correspondente e insustentável dívida pública”; a “ausência de um verdade banco central; o “bloco determinante da estrutura empresarial comandado pelo capital estrangeiro e capital financeiro”; o sistema bancário comercial privado “dominado pelo capital espanhol”; e um “quarteto de défices estruturais”: produtivo, energético, tecnológico e de capital.

“A remoção destes seis principais constrangimentos, profundamente interligados, constitui um objetivo inadiável para responder às necessidades do povo e do país”, lê-se nas Teses do PCP, que serão discutidas no congresso a realizar entre 27 e 29 de novembro em Lisboa, ressalvando-se que “o carácter integralmente público da Caixa Geral de Depósitos tem impedido, mal-grado as imposições da União Europeia no processo de recapitalização, o domínio total do capital estrangeiro na banca portuguesa”. E não só os comunistas recordam os mais de 20 mil milhões de euros em perdas da banca privada cobertos pelo Estado como defendem que o setor financeiro “desempenha um papel fundamental na evasão fiscal e branqueamento de capitais”.

Referindo-se ainda à “debilidade do aparelho produtivo nacional”, com uma taxa de cobertura das importações pelas exportações inferior a 80%, o documento do PCP argumenta que “a dependência do exterior acentuou-se no quadro da globalização capitalista com as imposições da União Europeia”, apontando o reforço da produção nacional “como a questão central para o desenvolvimento do país, no combate ao défice produtivo e dívida externa, para o emprego e o reequilíbrio da localização da atividade económica no território”.

Na análise dos problemas da economia nacional também é apontada a “grande dependência de um mercado externo pouco diversificado” no que toca ao turismo, que teve um contributo de 11,3% para o produto interno bruto (PIB) em 2018 mas irá sofrer o forte impacto da pandemia de Covid-19. Já no comércio e distribuição, o PCP viu “acentuar-se o peso da grande distribuição e de grandes plataformas de comércio eletrónico”, e garante que a abertura de 60 estabelecimentos de cadeias de grande distribuição em 2019, bem como a entrada no mercado do “novo grande grupo” Mercadona, “tem absorvido pequenas lojas de proximidade, acentuando o seu papel de predação e acumulação capitalista”.

Para o PCP, a indústria transformadora, cujo peso no PIB estagnou nos 14%, “apresenta graves debilidades estruturais”, destacando a “perda de centros de decisão e de competências”, no caso da Cimpor, ou mesmo o encerramento de unidades fabris. E se no que toca à indústria extrativa “prosseguem as concessões de reservas de metais básicos ao capital estrangeiro e a sua não valorização no país”, as Teses destacam a “nova corrida de empresas estrangeiras” no lítio.

Também não é esquecida a aposta do Executivo de António Costa em novas alternativas energéticas, mas não em termos positivos, na medida em que os comunistas defendem que “sob a capa da sustentabilidade e da premência climática, a política do Governo PS, em obediência às imposições da UE, caracteriza-se por decisões erráticas” na antecipação do encerramento das centrais a carvão ou no “repentino anúncio” de grandes investimentos no hidrogénio.

Ler mais

Recomendadas

Bruxelas aprova apoio português de 9,35 milhões para preservar emprego nos Açores

Em comunicado, o executivo comunitário explica que este regime português de apoio ao emprego nos Açores foi aprovado no âmbito das regras mais ‘flexíveis’ de Bruxelas para as ajudas estatais, implementadas devido ao surto de covid-19, e sucede a duas outras medidas aprovadas para a região, “cujo prazo já expirou”.

“Trump tem sido um desastre económico”, defende Joseph Stiglitz

Em entrevista ao El País, o Nobel de 77 anos lembrou a falta de qualidade nos gastos do governo dos EUA, o único país desenvolvido “a não reconhecer cuidados de saúde como um direito básico”, que se traduz numa desigualdade gritante, como espelha o facto de Warren Buffet “pagar uma taxa mais baixa do que a sua secretária”.

Endividamento da economia atingiu recorde de 736,6 mil milhões em agosto

O endividamento do setor não financeiro da economia atingiu o recorde de 736,557 mil milhões de euros em agosto, mais 1.724 milhões de euros face a julho, segundo dados do Banco de Portugal
Comentários