Pedro Pimenta, CEO do Abanca Portugal, fez o discurso de encerramento do V Encontro de Finanças Sustentáveis do Abanca. O setor financeiro atravessa uma mudança de paradigma onde a sustentabilidade deixou de ser um tema de nicho para se tornar o “eixo estruturante” da economia e da geopolítica. Esta foi a mensagem central de Pedro Pimenta, CEO do Abanca Portugal, durante o discurso de encerramento da V Edição das Jornadas de Finanças Sustentáveis, evento que reuniu em Lisboa especialistas e reguladores de Portugal e Espanha.
“Se há uma mensagem clara que emerge das intervenções que ouvimos durante esta manhã é que a sustentabilidade deixou de ser um tema setorial para se tornar um eixo estruturante da economia, das finanças e da geopolítica”, começou por dizer o CEO do Abanca Portugal.
“Hoje, o risco geopolítico, o risco climático e o risco tecnológico cruzam-se de forma inédita. A inteligência artificial oferece ferramentas poderosas para antecipar riscos, melhorar decisões e aumentar eficiência. Mas a inteligência artificial não elimina o risco, redistribui-o.”, sublinhou o banqueiro.
O CEO foi cauteloso, pois embora reconheça a IA como uma ferramenta poderosa para a eficiência e antecipação de riscos, alertou que esta “não elimina o risco, redistribui-o”.
Por outro lado, para Pedro Pimenta, o desafio atual das instituições financeiras ultrapassa o simples cumprimento de regras ESG (Environmental, Social and Governance). “Os bancos deixam de ser apenas intermediários financeiros: passam a ser catalisadores da transição”, afirmou, sublinhando que a função da banca agora é traduzir a ambição climática em investimento real e garantir que a transição não exclua setores, mas sim os transforme.
O CEO do Abanca Portugal defende que “quando hoje falamos de finanças sustentáveis, já não falamos apenas de critérios ESG, de reporte regulatório ou de boas práticas reputacionais. Falamos da capacidade do sistema financeiro financiar o futuro da economia, garantindo crescimento, resiliência e estabilidade num contexto de transformação profunda”.
“Em Portugal, este caminho tem sido claramente sinalizado pelas autoridades já que o Banco de Portugal sublinha que os riscos climáticos e ambientais são hoje riscos financeiros e a CMVM tem reforçado a importância da transparência e da qualidade da informação, alertando para os riscos de greenwashing”, disse Pedro Pimenta acrescentando que a APB tem sido clara quando diz que a sustentabilidade implica uma transformação estrutural do modelo de negócio bancário.
O debate internacional mostra-nos que estamos a entrar numa nova fase, “estamos a passar de uma lógica puramente classificatória para uma lógica de transition finance. O desafio já não é apenas cumprir regras, mas financiar a dupla transição climática e digital à escala necessária. Neste novo paradigma, os bancos deixam de ser apenas intermediários financeiros: passam a ser catalisadores da transição”.
O CEO destacou três funções críticas para o setor. Uma é traduzir ambição em investimento, transformando objetivos públicos e empresariais em financiamento viável. Outra é acompanhar a transformação, apoiando empresas em processo de transição e não apenas atividades já plenamente maduras. Por fim garantir escala, evitando que a transição se torne fragmentada e dispendiosa.
As finanças sustentáveis são um instrumento de estabilidade, previsibilidade e credibilidade do sistema financeiro, defendeu.
Apoiar a transição sustentável é um pilar do Abanca Portugal. “Priorizamos o financiamento de investimentos que promovam a descarbonização dos processos produtivos e apoiamos as empresas no cumprimento das novas normas regulatórias, eliminando as incertezas que ainda afetam, em particular, as PME. Este compromisso traduz-se em iniciativas concretas que temos vindo a desenvolver em Portugal”, disse.
“Participamos no protocolo entre a APB (Associação Portuguesa de Bancos), a Adene e as instituições financeiras para reforçar a eficiência energética dos colaterais imobiliários, permitindo automatizar a recolha de certificados energéticos e acompanhar a eficiência energética da carteira imobiliária financiada”.
O banco revelou estar a aplicar medidas concretas, como a utilização de ferramentas de geolocalização para avaliar a vulnerabilidade climática de ativos e a integração de critérios ESG em todas as decisões de crédito, desde a habitação ao financiamento empresarial.
“Desenvolvemos igualmente instrumentos próprios de acompanhamento ESG, incluindo relatórios de seguimento e a plataforma tecnológica AESG, que centraliza indicadores de sustentabilidade e apoia os processos internos de gestão de risco e decisão de financiamento. Paralelamente, integramos critérios ESG nos processos de decisão de crédito — tanto no financiamento a empresas como em áreas como habitação, automóvel ou energias renováveis — permitindo avaliar melhor o perfil de risco de transição dos clientes. No domínio dos riscos climáticos, utilizamos ferramentas de geolocalização e modelos digitais que permitem identificar riscos físicos e avaliar a vulnerabilidade climática dos ativos financiados”, detalhou Pedro Pimenta.
“Temos igualmente vindo a reforçar processos de desmaterialização e digitalização que reduzem a pegada operacional do banco”, acrescentou.
“Encerramos esta conferência com a certeza de que o setor financeiro, os bancos e os mercados de capitais têm um papel decisivo a desempenhar: não apenas a financiar a transição, mas a ajudar a construir um modelo económico mais robusto, mais previsível e mais justo”, sublinhou.
O encontro, que contou com a visão estratégica de Juan Carlos Escotet (Presidente do Grupo Abanca) e contributos de figuras como Paulo Portas, Vítor Bento e representantes dos Bancos Centrais de Portugal e Espanha, terminou com um apelo à ação. Para o Abanca, o objetivo final é claro: utilizar o sistema financeiro para construir um modelo económico “mais robusto, previsível e justo”.
No primeiro painel, dedicado à sustentabilidade na nova era geopolítica, em que participaram Judith Arnal, investigadora do Real Instituto Elcano, Paulo Portas e Vítor Bento (presidente da Associação Portuguesa de Bancos), foram sublinhados os profundos impactos que as transformações geopolíticas estão a ter sobre a economia global e sobre a forma como pensamos a sustentabilidade e a competitividade.
No segundo painel, centrado no papel da banca perante os desafios da geopolítica e da inteligência artificial, ficou claro que o setor financeiro tem hoje um papel central na gestão de riscos emergentes e no financiamento da transição económica e tecnológica. Participaram a Vice-Governadora do Banco de Portugal, Clara Raposo; a Subgovernadora do Banco de Espanha, Soledad Núñez; o CEO do Abanca Francisco Botas e Alejandra Kindelán.
Finalmente, no terceiro painel, dedicado à sustentabilidade e aos mercados de capitais, destacou-se a importância da transparência, da qualidade da informação e da confiança dos investidores para mobilizar capital de longo prazo para a transição. Participaram Paloma Marín, Inês Drumond (da CMVM); Laura Román, e Inês Oom hoje no Abanca.
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