Personalidades JE: Aníbal Cavaco Silva – Dez anos Presidente depois de uma década de Cavaquismo

Foi pela mão de Sá Carneiro que Cavaco Silva entrou na vida política “e foi nele que procurei inspiração no exercício das funções de Primeiro-Ministro”, como referiu na apresentação do seu último livro. Deixa para a história uma obra mais marcante nos dez anos em que liderou o Governo, nos quais viabilizou em Portugal investimentos tão relevantes como a Autoeuropa, a barragem do Alqueva ou a revitalização urbanística da Expo98. Depois do “Cavaquismo” foi Presidente da República durante outros 10 anos.

Cavaco Silva

O Jornal Económico escolheu 30 personalidades dos últimos 25 anos que marcaram, pela positiva e pela negativa, a atual sociedade portuguesa: políticos, empresários, gestores, economistas e personalidades da sociedade civil. A metodologia usada para compilar as Personalidades JE está explicada no final do texto.

Aníbal António Cavaco Silva (Loulé, 1939) foi o 19º Presidente da República Portuguesa entre 2006 e 2016. No entanto, foi entre 1985 e 1995, enquanto primeiro ministro, que concretizou as obras mais marcantes da sua carreira política – verdadeiros “ex-libris” do período que ficou na história como a fase do “Cavaquismo” – entre as quais figura a captação para Portugal do investimento da Ford e da Volkswagen na fábrica da AutoEuropa, em Palmela, a revitalização urbana da Expo98, a barragem do Alqueva e parte considerável das auto-estradas lançadas pelo seu ministro Joaquim Ferreira do Amaral, tudo isso muito antes dos “tabus” políticos e do “monstro” do despesismo.

O lançamento do último livro do ex-Presidente Cavaco Silva, “Uma experiência de social-democracia moderna”, foi apresentado por Luís Marques Mendes – “ter como apresentador do livro um prestigiado advogado que ao domingo à noite partilha com os telespectadores as últimas novidades políticas e económicas”, reconheceu, “é um privilégio” –, num evento realizado nos Jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, bem perto do gabinete oficial que o estadista tem no mosteiro do Santíssimo Sacramento, situado na rua do Sacramento a Alcântara – www.gabinetesacramento.pt. Acontece que para este lançamento acabaram por ser revisitadas as datas mais importantes da vida política do autor.

Senão, note-se. Ainda em janeiro de 2020, Cavaco Silva programou a sua vida para apresentar o seu livro a 19 de maio, a data em que se completariam 35 anos sobre a ida ao Congresso da Figueira da Foz, onde foi – recordou – “inesperadamente eleito presidente do PSD”. Mas a chegada da pandemia de Sars-Cov-2 em março obrigou a adiar a apresentação.

A data seguinte foi 19 de julho, o dia de aniversário de Francisco Sá Carneiro, que este ano teria completado 86 anos, sendo igualmente a data em que decorreriam 33 anos sobre a “vitória histórica do PSD nas eleições legislativas”, como recorda Cavaco Silva no seu site oficial, detalhando que nesse dia, em 1987, “obtivera 50,2% dos votos e elegera 148 deputados, uma confortável maioria absoluta”.

Mas a evolução da pandemia obrigou a adiar novamente a apresentação, remetendo-a para 6 de outubro, data em que se completariam “35 anos sobre a primeira vitória do PSD em eleições legislativas com listas próprias, quatro meses e meio após a minha eleição para presidente do partido”, recorda o político no site.

Nessas eleições o PSD obteve 29,8%. Cavaco Silva formou “um Governo minoritário que viria a ser derrubado na Assembleia da República 17 meses depois de ter tomado posse, pela aprovação de uma moção de censura apresentada pelo Partido Renovador Democrático”, recorda ainda o ex-Presidente.

Além disso, 6 de Outubro de 2020, foi igualmente “o dia em que se completaram 29 anos sobre a conquista da segunda maioria absoluta do PSD”, refere Cavaco Silva, adiantando que “obteve 50,4% dos votos nas eleições legislativas de 1991, ultrapassando ligeiramente o resultado considerado impossível de repetir, obtido em 1987, e formei depois o meu terceiro Governo”.

Nos 40 anos da morte de Sá Carneiro

O ex-Presidente lançou assim o seu livro mais recente no ano em se completam 40 anos sobre a morte de Sá Carneiro, “uma fonte de inspiração do livro e eu quis que a sua publicação fosse uma singela homenagem ao político genial com quem tive a honra de trabalhar como Ministro das Finanças e do Plano”, sublinhou.

Cavaco Silva diz que guarda “uma profunda admiração por Sá Carneiro: o seu sentido de Estado, a dignidade no exercício do poder, a sua capacidade de liderança, a sua coragem e clarividência, o líder carismático que galvanizava multidões”. “Foi pela sua mão que entrei na vida política e foi nele que procurei inspiração no exercício das funções de Primeiro-Ministro. Ao longo da minha vida política nunca esqueci nem escondi quanto devia a Sá Carneiro”, refere.

Cavaco Silva diz que escreveu este livro a pensar “nos jovens da geração dos meus netos”. E considera que “vivemos um tempo muito marcado pelo que se vem chamando a ‘espuma dos dias’, por um clima de campanha permanente de ilusões e de tensão política estéril, sem grande preocupação com a coerência entre os princípios e as ações”.

“Por vicissitudes próprias e circunstâncias em que o País vivia, os governos do PSD anteriores ao meu e os que se seguiram não tiveram o tempo e a oportunidade de aplicar o modelo social-democrata que, pela sua flexibilidade, considero ser o mais adequado às necessidades do País e à melhoria das condições de vida dos nossos cidadãos”, refere o ex-Presidente.

“É um modelo dinâmico e não dogmático, que assenta em princípios que não perderam atualidade. Revisito esses valores, que são os de Sá Carneiro, no primeiro capítulo deste livro, mostrando como é vital a sua recuperação na promoção dos objetivos da independência da comunicação social, da concertação social, da equidade na tributação dos rendimentos, da igualdade de oportunidades, do acesso aos cuidados de saúde, da defesa do ambiente e do ordenamento do território, da economia de mercado e da livre iniciativa privada, e da solidariedade e justiça social”.

Correspondência com os presidentes da Ford e da VW

No livro “são disponibilizados muitos registos factuais que não são do conhecimento público, alguns talvez só eu o podia fazer. É o caso da minha correspondência com os Presidentes da Ford e da Volkswagen sobre a construção da fábrica de automóveis de Palmela, a Autoeuropa, que tão importante foi para a modernização e eficiência da indústria portuguesa, e também o caso do longo processo político de decisão de construir a barragem do Alqueva”, refere.

“Ultimamente, a propósito da ambição de melhorar o nível de desenvolvimento do país e aproximá-lo da média europeia, tem sido dito que o país precisa de atrair uma outra fábrica de automóveis como a Autoeuropa. Por outro lado, a propósito da eventual reabilitação urbana de uma zona de Algés, à beira-mar, tem sido referida a ambição de construir uma nova Expo, tal como foi feito na zona oriental de Lisboa. São ideias que ilustram bem como a fábrica de automóveis de Palmela e a Expo 98, enquanto projeto de reconversão urbana, foram de facto investimentos estruturais de grande relevância”, adianta Cavaco Silva no seu site oficial.

Este livro aumenta a extensa lista das suas obras, uma de carater oficial, como as suas principais intervenções, feitas ao longo dos dois mandatos como Presidente da República, reunidas em dez volumes, sob o título genérico “Roteiros”, mais os dois volumes de “Quinta feira e outros dias” e os dois volumes da “Autobiografia política”. No período anterior teve as intervenções produzidas como Primeiro-Ministro que foram reunidas nos livros “Cumprir a Esperança” (1987), “Construir a Modernidade” (1989), “Ganhar o Futuro” (1991), “Afirmar Portugal no Mundo” (1993) e “Manter o Rumo” (1995).

A extensa produção de trabalhos académicos

Além disso produziu um conjunto de trabalhos académicos e estudos económicos, entre os quais figura “Um apontamento sobre as médias Dow-Jones” dos anos 60, “O mercado de capitais português no período 1961-1965”, publicado em 1967, “O mercado financeiro português em 1966” de 1968, “Contribuition to the study of the influence of each of the 30 Dow-Jones industrial stocks on the average” de 1968, “A crise do petróleo e os impostos” de 1974, “Política orçamental e estabilização económica” de 1976, “Long-Run Effects of Debt versus Tax Financing” de 1975, “Efeitos a longo prazo do empréstimo público” de 1977, “Comentário ao Relatório ‘Financial instruments and Markets’ na conferência internacional sobre Economia Portuguesa” de 1977, “Economic effects of public debt” de 1977, “Nível e estrutura de fiscalidade: Portugal e os outros países da OCDE” de 1978, “Políticos, burocratas e economistas” de 1978, “Tax and Fiscal policy in Portugal in the period 1974/1978” de 1979, “A teoria do empréstimo público forçado” de 1980, “Enquadramento global do desenvolvimento económico português” de 1981, “Formar economistas para a sociedade portuguesa de hoje” de 1982, “Finanças públicas e política macroeconómica” de 1982, “Adesão às Comunidades Europeias: mudanças necessárias” de 1982, “Public debt : allocative effects” de 1982, “Forced loans : tax element, equity and effects on consumption” de 1985, “Macroeconomic impact of debt financed fiscal deficits” de 1984, “Os efeitos macroeconómicos dos défices orçamentais financiados por dívida pública” de 1986, “Development today, International conference, Friedrich Naumann Foundation” de 1988, “Finanças públicas e politica macroeconómica” de 1992, “A Europa após Masstricht” de 1992, “Combinação de políticas de estabilização num quadro de integração: a experiência portuguesa” de 1994, “Sound flexibility to achieve European Monetary Union & Portugal’s convergence process” de 1996, “Portugal e a transição para a moeda única” de 1997, “Portugal e a moeda única” de 1997, “E depois da moeda única…” de 1997, “Portugal e o futuro da EU” de 1997, “Disciplina orçamental para a União Monetária” de 1997, “Política económica: Objetivos, Investimentos e Atores” de 1998, “Political economy and the equity-policy agenda” de 1998, “União monetária europeia : funcionamento e implicações” de 1999, “Evolucion y desafios de la Economia Portuguesa” de 1999, “Fundamentos de coesão económica e social” de 1999, “Equity policy and political feasibility in the European Union” de 2001, “Crónicas de uma crise anunciada e outros textos” de 2002, “Globalização e desenvolvimento” de 2002, “Democracia e Desenvolvimento” de 2005, “Portugal: Executive-legislative relations” de 2007, “The European Union: Lesson from a Crisis” de 2011 e “Portugal and the Future of the European Union” de 2018.

A produção de trabalhos académicos de Cavaco Silva foi quase contínua no tempo. Recentemente tem sido menor, mas o livro que lançou este ano pode explicar o aparente interregno de quase um ano nos trabalhos sobre economia. Também dedicou tempo a organizar o seu site oficial, onde inclui uma nota histórica sobre o mosteiro lisboeta do Santíssimo Sacramento, onde tem o seu gabinete, localizado entre Alcântara e a avenida Infante Santo, fundado por escritura de doação feita em Évora, a 20 de outubro de 1605, pelos condes de Vimioso, D. Luís de Portugal e D. Joana de Castro e Mendonça, destinando a acolher religiosas Dominicanas.

História do mosteiro do Santíssimo Sacramento

O site oficial de Cavaco Silva conta que a construção do mosteiro foi iniciada “em 7 de janeiro de 1612, quando Frei D. João de Portugal tomou posse do convento, tendo a primeira pedra sido colocada pelo Vice-Rei de Portugal D. Frei Aleixo de Menezes. Quatro anos depois, foram instaladas as primeiras religiosas. Em 1620, terminou a construção da igreja de uma só nave, alta e escura, anterior à atual. Nesta data, o convento tinha 35 freiras, 30 de véu preto e 5 conversas, o máximo da sua capacidade de alojamento. As religiosas eram fundamentalmente oriundas da alta nobreza, vivendo em contexto de grande austeridade. Na atualidade, sendo propriedade do Estado, todo o edifício estava afeto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Considerando que o edifício oferecia condições para a instalação do Gabinete do ex-Presidente foi protocolada a cedência de um décimo da área do convento. O gabinete situa-se num canto do claustro do antigo convento, ocupando dois pisos com a mesma área. Os acabamentos interiores, modestos e despidos de ornamentação, foram mantidos na sua sobriedade, sendo adicionada uma arquitetura contemporânea, funcional e adequada à função de gabinete de ex-Chefe de Estado, com as valências orgânicas necessárias ao desenvolvimento da função. O mobiliário principal foi incluído no projeto e faz parte integrante do desenho dos espaços reformulados, sendo definido para cada espaço e executado por carpintarias nacionais. Todo o mobiliário não fixo foi escolhido respeitando o critério de ter conceção e fabrico nacional, em fábricas sedeadas em Portugal”.

O site também recorda que Cavaco Silva “participou em 29 Conselhos Europeus, onde defendeu com sucesso os interesses de Portugal, como foi o caso da aprovação dos Pacotes Delors I e II, do PEDIP (Programa Específico para o Desenvolvimento da Indústria Portuguesa), da criação de programas específicos de apoio ao desenvolvimento dos Açores e Madeira. No primeiro semestre de 1992, e sob a sua empenhada condução, Portugal assumiu, pela primeira vez e com reconhecido êxito, a presidência rotativa da União Europeia”.

Acrescenta ainda que “no plano das relações com o mundo lusófono, Cavaco Silva foi um promotor de mudanças no sentido da estabilização democrática dos regimes africanos, tendo patrocinado as negociações de paz para Angola e apoiado processo idêntico em Moçambique. Foi também sob a sua égide que Portugal esteve no centro da criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e que foi decidida a realização anual das cimeiras luso-brasileiras”. Recorda que Cavaco Silva foi diretor da revista “Economia”, da Universidade Católica Portuguesa, entre 1977 e 1985.

Formação irrepreensível

Sobre a sua formação superior, o site refere que “Aníbal Cavaco Silva é licenciado em Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa, e doutorado em Economia pela Universidade de York, no Reino Unido. Foi docente do ISCEF, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e, quando foi eleito Presidente da República pela primeira vez, era Professor Catedrático na Universidade Católica Portuguesa. Foi investigador da Fundação Calouste Gulbenkian e dirigiu o Gabinete de Estudos do Banco de Portugal, instituição na qual viria a exercer funções como consultor. Exerceu o cargo de Ministro das Finanças e do Plano em 1980-81, no Governo do Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro, e foi Presidente do Conselho Nacional do Plano entre 1981 e 1984. Presidiu ao Partido Social Democrata (PSD) entre maio de 1985 e fevereiro de 1995”.

Adianta igualmente que “é Doutor Honoris Causa pelas Universidades de York (Reino Unido), La Coruña (Espanha), Goa (Índia), León (Espanha) e Heriot-Watt (Edimburgo, Escócia), e membro da Real Academia de Ciências Morais e Políticas de Espanha, do Clube de Madrid para a Transição e Consolidação Democrática e da Global Leadership Foundation” e que também é “membro do Instituto Internacional de Finanças Públicas, Membro do Conselho de Curadores da Fundação Champalimaud, do Conselho de Fundadores da Fundação de Serralves e do Conselho de Patronos da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva e membro vitalício do Conselho de Estado”.

O 19º Presidente da República Portuguesa foi precedido por Jorge Sampaio e sucedido por Marcelo Rebelo de Sousa a 9 de março de 2016. Algarvio, mudou-se para Lisboa aos 17 anos de idade, para estudar no Instituto Comercial de Lisboa (posteriormente, ISCAL), onde se formou em contabilidade, em 1959. Cavaco Silva cumpriu o serviço militar como oficial miliciano do Exército, entre 1962 e 1965, em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, é casado com Maria Alves da Silva Cavaco Silva, professora universitária, e têm dois filhos e cinco netos.

A melhor nota do seu ano

Em 1964 licenciou-se com a melhor nota do seu ano, tendo sido contratado como assistente em 1966. Viveu no Reino Unido, onde se doutorou em Economia Pública. Regressou a Portugal antes da revolução de 25 de abril de 1974, ano em que aderiu ao Partido Popular Democrático (PPD/PSD), e entrou na Fundação Gulbenkian, integrando o Centro de Economia Agrária, de onde saiu em 1977 para assumir o cargo de diretor do Departamento de Estatística e Estudos Económicos do Banco de Portugal.

Com a vitória da Aliança Democrática nas legislativas de 1980, foi nomeado ministro das Finanças e do Plano do VI Governo Constitucional, liderado por Francisco Sá Carneiro, cargo que manteve até janeiro de 1981, quando Francisco Pinto Balsemão foi indigitado Primeiro-Ministro. Em meados de 1985 foi eleito presidente do PSD e tornou-se o líder da oposição ao então Primeiro-Ministro Mário Soares. Foi Primeiro-Ministro de 6 de novembro de 1985 a 28 de outubro de 1995.

Derrotado por Jorge Sampaio nas eleições presidenciais de 1996, foi eleito Presidente da República, à primeira volta, nas eleições de 22 de janeiro de 2006. E foi reeleito nas presidenciais de 23 de Janeiro de 2011, terminando o mandato em 2016.

Filho de Teodoro Gonçalves Silva e de sua mulher, Maria do Nascimento Cavaco, cresceu em Boliqueime, no concelho de Loulé, onde o pai cultivava frutos secos e geria um comércio de combustíveis. Estudou em Faro na Escola Técnica Elementar Serpa Pinto, e fez o Curso Geral do Comércio na Escola Comercial e Industrial de Faro.

Depois de ter concluído a licenciatura e enquanto bolseiro do Centro de Economia e Finanças da Fundação Calouste Gulbenkian, publicou em 1967 a investigação com o título “O Mercado Financeiro Português em 1966”. Lecionou até 1978 como assistente de Finanças Públicas, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa.

Dissertação sobre os efeitos macroeconómicos da dívida pública

A dissertação de doutoramento em Economia Pública, pela Universidade de York, em 1971 foi publicada em 1973, com o título “A Contribution to the Theory of the Macroeconomic Effects of Public Debt”. No Banco de Portugal assumiu o cargo de diretor do Departamento de Estatística e Estudos Económicos. Em Fevereiro de 1981 foi eleito pela Assembleia da República presidente do Conselho Nacional do Plano – o órgão que antecedeu o Conselho Económico e Social, que dava pareceres sobre as Grandes Opções do Plano.

Nas eleições legislativas de 1985, o PSD obteve o melhor resultado de sempre, o que foi o início do governo minoritário – X Governo – liderado por Cavaco Silva, que apostou nas reformas estruturais na administração e na economia portuguesa na altura da entrada do país na CEE. Mas as reformas pretendidas não tiveram viabilidade parlamentar e o seu governo caiu.

Mário Soares, eleito Presidente da República, dissolveu o Parlamento e convocou eleições. Nas eleições de julho de 1987 o PSD obteve a primeira maioria absoluta de uma força política não coligada, conquistando 50,2% dos votos, e repetiu o feito nas legislativas de 1991. Daí resultaram os XI e XII Governos Constitucionais, apostados em transformar a economia de base socialista numa economia social de mercado, o que foi possível pelo facto de, em 1989, o PSD, com o apoio do PS, ter concretizado a revisão constitucional que pôs fim ao princípio constitucional da irreversibilidade das nacionalizações.

Reforma fiscal do IRS e do IRC

O país conheceu então um crescimento económico apreciável, acima da média europeia, o que consolidou a popularidade de Cavaco Silva. Ocorreu também uma reforma fiscal, que introduziu o IRS e o IRC (acabou o Imposto Profissional e o Imposto Complementar), e foi liberalizada a comunicação social, de que resultou a abertura da televisão à iniciativa privada.

Com os fundos comunitários foram concretizados diversos investimentos públicos, com vista a melhorar a coesão territorial do país, entre os quais a construção da A1, que foi prolongada além de Vila Franca de Xira, foi montada a linha ferroviária na Ponte 25 de Abril, iniciou-se a construção da Barragem de Alqueva, a introdução do gasoduto para canalizar gás natural e o aumento do Aeroporto da Madeira, foram construídas 420 novas escolas e 120 novas escolas profissionais.

Além do lançamento da construção da Ponte Vasco da Gama, da renovação urbana em Lisboa Oriental e da organização da Expo’98, com o prolongamento de novas linhas e estações do Metro, e foi construído o Centro Cultural de Belém e o novo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na Cidade Universitária, sendo aprovado o Plano de Modernização dos Caminhos de Ferro 1988–94 com os sistemas ferroviários das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e as ligações de longo curso no eixo Braga–Faro, além da nova travessia ferroviária do Douro, pela Ponte de São João, embora tenham sido encerrados cerca de 770 km de via-férrea, designadamente os serviços ferroviários na Linha do Sabor, na Linha do Vouga, entre Santa Comba Dão e Viseu e no troço da Linha do Douro, entre Pocinho e Barca d’Alva, o troço Guimarães–Fafe, o ramal do Montijo e o ramal de Montemor.

O Presidente Mário Soares nas suas Presidências Abertas deu eco à contestação social que se fez sentir no país e António de Sousa Franco, presidente do Tribunal de Contas, reprovou várias vezes as contas enviadas pelo governo. Após dez anos como primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva retirou-se das eleições legislativas desse ano, afastando-se da liderança do PSD, então assumida por Fernando Nogueira.

O PSD foi derrotado nas eleições de 1995, ganhas pelo PS de António Guterres, o que levou Cavaco Silva a anunciar a sua candidatura à presidência da República, embora tenha então saído derrotado por Jorge Sampaio, que na altura conquistou 53,91% dos votos. A 20 de Outubro de 2005, no Centro Cultural de Belém, apresentou oficialmente a sua candidatura à Presidência da República, conseguindo ser eleito à primeira volta, com 50% dos votos, como 19º Presidente da República Portuguesa. A 23 de Janeiro de 2011 foi reeleito, à primeira volta, para um segundo mandato, com uma percentagem de votos de 52,9%. Cavaco Silva considera-se um neokeynesiano.

METODOLOGIA

O Jornal Económico (JE) selecionou as 25 personalidades mais relevantes para Portugal nos últimos 25 anos, referentes ao período balizado entre 1995 e 2020, destacando as que exerceram maior influência no desenvolvimento da sociedade civil, da economia nacional, no crescimento internacional dos nossos grupos empresariais, na forma como evoluíram a diáspora lusa e as comunidades de língua oficial portuguesa, no processo de captação de investidores estrangeiros e, em suma, na maneira como o país se afirmou no mundo. Esta lista foi publicada a 4 de setembro de 2020, antes do primeiro fim de semana do nono mês do ano. Retomando a iniciativa a partir do último fim de semana de setembro, mas agora alargada a 30 personalidades, o JE publicará, todos os sábados e domingos, textos sobre as 30 personalidades selecionadas, por ordem decrescente. Aos 25 nomes inicialmente publicados, o JE acrescenta agora os nomes de António Ramalho Eanes, António Guterres, Pedro Queiroz Pereira, Vasco de Mello e Rui Nabeiro.

Cumpre explicar ao leitor que a metodologia seguida foi orientada por critérios jornalísticos, sem privilegiar as personalidades eminentemente políticas, que tendem a ter um destaque mediático maior do que o que é dado aos empresários, aos economistas, aos gestores e aos juristas, mas também sem ignorar os políticos que foram determinantes na sociedade durante o último quarto de século. Também não foram ignoradas as personalidades que, tendo falecido pouco antes de 1995, não deixaram de ter impacto económico, social, cultural, científico e político até 2020, como é o caso de José Azeredo Perdigão e da obra que construiu durante toda a sua longa vida – a Fundação Calouste Gulbenkian.

O ranking é iniciado pelos líderes históricos de cinco grupos empresariais portugueses, com Alexandre Soares dos Santos em primeiro lugar, distinguido como grande empregador na área da distribuição alimentar, e por ter fomentado a internacionalização do seu grupo em geografias como a Polónia – com a marca “Biedronka” (Joaninha) – e a Colômbia. Assegurou igualmente a passagem de testemunho ao seu filho Pedro Soares dos Santos. O Grupo Jerónimo Martins tem vindo a incentivar a utilização de recursos marinhos, pelo aumento da produção portuguesa de aquacultura no mar da Madeira – apesar de vários economistas terem destacado a importância da plataforma marítima portuguesa como fonte de riqueza, poucos empresários têm apoiado projetos nesta área, sendo o grupo liderado por Soares dos Santos um dos casos que não descurou o potencial do mar português.

Segue-se em 2º lugar Américo Amorim, que além do seu império da cortiça – o único sector em que Portugal conquistou a liderança mundial –, se destacou no mundo da energia e nos petróleos, assegurando a continuidade do controlo familiar dos seus negócios através das suas filhas. Belmiro de Azevedo aparece em terceiro lugar, consolidando a atividade da sua Sonae, bem como a participação no competitivo mundo das telecomunicações e o desenvolvimento do seu grupo de distribuição alimentar, com testemunho passado à sua filha, Cláudia Azevedo.

Em quatro lugar está António Champalimaud e a obra que o “capitão da indústria” deixou, na consolidação bancária, enquanto acionista do Grupo Santander – um dos maiores da Europa –, mas também ao nível da investigação desenvolvida na área da saúde, na Fundação Champalimaud. Em quinto lugar surge Francisco Pinto Balsemão que centrou a sua vida empresarial na construção de um grupo de comunicação com plataformas integradas e posições sólidas na liderança da imprensa e da televisão durante o último quarto de século.

Os políticos aparecem entre as individualidades seguintes, liderados por Mário Soares (que surge em 6º lugar). António Ramalho Eanes está em 7º lugar, António Guterres em 8º, seguindo-se Marcelo Rebelo de Sousa (9º), António Costa (10º), José Eduardo dos Santos (11º) – pelo peso que os elementos da sua família tiveram na economia portuguesa, sobretudo a sua filha Isabel dos Santos, e pelos investimentos concretizados em Portugal pelo conjunto de políticos e empresários angolanos próximos ao ex-presidente de Angola, atualmente questionados, na sua maioria, pela justiça angolana – e Aníbal Cavaco Silva (12º). Jorge Sampaio surge em 13º, seguido por Mário Centeno (14º), José de Azeredo Perdigão (15º), António Luciano de Sousa Franco (16º), Pedro Passos Coelho (17º), Álvaro Cunhal (18º), Ernesto Melo Antunes (19º), Luís Mira Amaral (20º), Pedro Queiroz Pereira (21º), Vasco de Mello (22º), Ricardo Salgado (23º), José Socrates (24º), Ernâni Rodrigues Lopes (25º), Francisco Murteira Nabo (26º), Rui Nabeiro (27º), Leonor Beleza (28º), António Arnaut (29º) e Joana de Barros Baptista (30º).

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