Poderio global de dados ajuda gigantes tecnológicas a superar traumas

A Apple não trouxe mais más notícias e a Facebook superou as expetativas. Os investidores estão a gostar da resistência das tecnológicas e o potencial que a base global de clientes oferece.

Depois do bull market, o último mês de 2018 trouxe o inverno para as bolsas. “Foi o pior mês de dezembro, nas bolsas, desde 1931”, frisou Pedro Lino, administrador da Optimize Partners, convidado para o novo programa da JE TV, “Mercados em Ação”, que estreou esta quinta-feira.

A queda das bolsas em dezembro, aliada à contração da economia chinesa e às tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, faziam antever uma época de resultados dececionante para as grandes tecnológicas.

O ano novo começou com um alerta emitido pelo CEO da Apple, Tim Cook. No dia 2 de janeiro, reviu em baixa o guidance para o trimestre acabado em dezembro (ver caixa ao lado). Mas a empresa fundada por Steve Jobs é um gigante ‘acordado’ e desde o profit warning até esta quinta-feira, o ticker AAPL valorizou 5,49%.

“O rebound das ações da Apple decorre do exacerbar pelo mercado do sentimento negativo no rescaldo do corte das expectativas e do facto de a Apple apresentar uma tendência sólida de crescimento no segmento dos serviços”, explicou a analista de mercados do Banco de Investimento Global (BiG), Diana Oliveira.

Com a quebra das vendas do icónico smartphone, que representa cerca de 60% da faturação total da Apple, Tim Cook aposta nos serviços para compensar a diminuição das receitas do iPhone. Pedro Lino assinala que a Apple, apesar de “não querer perder a corrida” no mercado dos smartphones, tem à sua disposição “900 milhões de iPhones ativos pelo mundo para criar uma plataforma para os seus serviços”.

A analista do BiG partilha desta opinião e esclareceu que se está assistir a um ajuste do modelo de negócio da Apple “para reduzir a dependência do iPhone para o crescimento de receitas, dado que o mercado de smartphones está a amadurecer”.

Mas a Apple está longe de atirar a toalha ao chão no mercado maduro – e saturado – dos smartphones, no qual tem atualmente concorrentes que oferecem produtos “equiparáveis” e mais baratos, salientou Pedro Lino. Ainda esta semana, a empresa anunciou a redução do preço do seu produto porta-estandarte em alguns mercados, o que “permitirá aproximar-se mais dos fabricantes de smartphones com um portefólio de [aparelhos] com especificações semelhantes ao iPhone (…), como por exemplo a Huawei e Xiaomi”, explicou Diana Oliveira.

Certo é que os ganhos nas bolsas mundiais desde o início do ano marcam um ponto de viragem face ao final de 2018. Desde a primeira sessão do ano, o índice Nasdaq, onde as tecnológicas estão cotadas, subiu 4%.

“As empresas estão a conseguir contornar as dificuldades, cirando serviços e outros produtos”, salientou Pedro Lino.

Facebook soma e segue

É também o caso da Facebook, que é, atualmente, mais do que a rede social criada num dormitório em Harvard por Mark Zuckerberg em 2004.

A empresa tornou-se num império de informação e conhecimento personalizado sobre as “2,7 mil milhões de pessoas que estão ligadas todos os meses”, explicou Pedro Lino. Além do Facebook, Zuckerberg tem ainda o Whatsapp, o Instagram e o Messenger e, depois de ter comprado a Oculus, uma empresa que produz capacetes de realidade virtual, pretende revolucionar a forma como interagimos.

Diana Oliveira sublinhou que os dois principais desafios da empresa consistem em “replicar o sucesso de monetização da rede social Facebook na rede social Instagram (onde decorre o principal crescimento no número de utilizadores) e as alterações regulatórias que possam penalizar”.

Mas, depois das controvérsias de 2018, seria normal pensar que “as pessoas tivessem outros receios”, disse Pedro Lino. “Mas não, o Instagram está a compensar”. A Facebook tem assim um colete anti-balas que a torna quase imune a todos os escândalos que a assolaram recentemente, a começar pelo da Cambridge Analytica. Os lucros da empresa subiram vertiginosamente em 2018 , uma demonstração de poderio e firmeza apesar das critícas em relação à proteção de dados dos utilizadores.

Apesar de 98,5% da faturação total do ano passado vir das receitas de publicidade, a força do Facebook que anima os investidores é o conhecimento profundo que tem dos utilizadores. “É assustador”, salientou Pedro Lino.

A Amazon, com uma capitalização bolsista acima dos 840 mil milhões de dólares, é atualmente a empresa norte-americana mais valiosa do mundo.

Esta quinta-feira apresentou resultados do quarto trimestre de 2018 acima das estimativas  e subiu em quase todas as componentes do negócio. O retalho online dominou, como habitual, mas a solução cloud, Amazon Web Services, cresceu 10,3%, em termos homólogos.

Além da cloud, as receitas publicitárias cresceram 4,6% para cerca de 3,4 mil milhões de dólares. Ainda longe dos valores apresentados pela Facebook, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo e fundador da Amazon, tem aqui uma importante fonte de rendimento a ser explorada.

Com os resultados da Amazon Web Services (AWS), o CEO da Microsoft, Satya Nadella, vê assim mais difícil o objetivo ultrapassar a AWS com o Azure, a solução cloud da empresa fundada por Bill Gates.

Em 12 meses, a Microsoft saiu dos prejuízos e atingiu os lucros, mas o futuro é incerto quando as receitas do Azure, que foram as que mais cresceram num ano, ficaram inalteradas quando comparadas com o trimestre anterior.

As tecnológicas parecem ter armas para fazer face às adversidades económicas. Conseguem adaptar-se às condições e, por vezes, como foi o caso de Tim Cook, antecipam-se às expectativas do mercado, para não as defraudar de forma surpreendente.

A capacidade de inovação na tecnologia, claro, é uma condição sine qua non de sobrevivência no setor. Mas, apesar das armas que têm, as tecnologias estão inseridas num “setor cíclico”, como explicou Diana Oliveira.

“O potencial de desaceleração e ou recessão económica, em meados de 2020, poderá limitar o desempenho do setor tecnológico. Assumindo que o mercado acionista antecipa esta desaceleração ou recessão já no final deste ano”, a volatilidade aumentará, disse.

Artigo publicado na edição nº 1974 do Jornal Económico de 1 de fevereiro

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