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Por cada dólar investido na natureza, o mundo gasta 30 a destrui-la, diz ONU

O relatório State of Finance for Nature 2026, da ONU estima que para cumprir as metas internacionais de biodiversidade, clima e desenvolvimento sustentável até 2030, o investimento anual em soluções baseadas na natureza terá de crescer 2,5 vezes mais, alcançando 571 mil milhões de dólares (488 mil milhões de euros).
23 Janeiro 2026, 09h49

Por cada dólar investido globalmente na proteção e restauração da natureza, o mundo continua a gastar 30 dólares em atividades que a destroem. Em termos europeus, isto equivale a cerca de 0,85 euros investidos em soluções positivas para a natureza contra aproximadamente 25 euros canalizados para práticas nocivas. A conclusão consta do relatório State of Finance for Nature 2026, divulgado esta semana pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP).

O estudo, baseado em dados de 2023, mostra que os fluxos financeiros negativos para a natureza atingiram 7,3 biliões de dólares (6,2 mil milhões de euros). A maior parte deste montante, cerca de 4,9 biliões de dólares (4,2 mil milhões de euros), teve origem no setor privado, com forte concentração em áreas como energia, serviços públicos, indústria pesada e materiais básicos. A este valor somam-se 2,4 biliões de dólares (2,1 mil milhões) em subsídios públicos considerados ambientalmente prejudiciais, dirigidos sobretudo aos combustíveis fósseis, à agricultura intensiva, aos transportes, à gestão da água e à construção.

Em sentido inverso, o financiamento global para soluções baseadas na natureza ficou-se pelos 220 mil milhões de dólares (188 mil milhões de euros). Quase 90% deste valor teve origem em fundos públicos, o que evidencia a fraca mobilização do capital privado. Segundo o UNEP, o investimento empresarial e financeiro em soluções baseadas na natureza não ultrapassou os 23,4 mil milhões  de dólares (20 mil milhões de euros), o equivalente a cerca de 10% do total aplicado neste tipo de iniciativas.

O relatório estima que, para cumprir as metas internacionais de biodiversidade, clima e desenvolvimento sustentável até 2030, o investimento anual em soluções baseadas na natureza terá de crescer 2,5 vezes, alcançando 571 mil milhões de dólares (488 mil milhões de euros). Este esforço representaria apenas 0,5% do PIB mundial, um valor modesto quando comparado com os custos económicos associados à degradação ambiental e aos impactos climáticos.

“Se seguirmos o dinheiro, percebemos a dimensão do desafio”, afirma Inger Andersen, directora executiva do UNEP, citada no relatório. “Podemos investir na destruição da natureza ou impulsionar a sua recuperação. Não há meio-termo.” A responsável sublinha que, apesar do aumento gradual do financiamento positivo, os investimentos e subsídios prejudiciais continuam a crescer a um ritmo muito superior.

Para inverter esta tendência, o estudo apresenta um novo enquadramento estratégico, designado Nature Transition X-Curve, concebido para ajudar governos e empresas a planear a transição dos atuais modelos económicos. A proposta passa por eliminar progressivamente subsídios e investimentos destrutivos, ao mesmo tempo que se acelera o financiamento de soluções baseadas na natureza em todos os sectores da economia.

O UNEP destaca exemplos já em aplicação, como a criação de infraestruturas verdes nas cidades para reduzir ilhas de calor, a integração de soluções naturais em estradas e sistemas energéticos ou o desenvolvimento de materiais de construção com emissões líquidas negativas. Em todos os casos, o relatório sublinha a importância de adaptar os investimentos aos contextos ecológicos, sociais e culturais locais, assegurando inclusão e equidade.

A mensagem final é clara: sem uma reorientação profunda dos fluxos financeiros globais, a transição para uma economia sustentável continuará bloqueada. O dinheiro continua a favorecer a degradação ambiental — e o custo dessa escolha, alerta o UNEP, será cada vez mais elevado para economias, sociedades e ecossistemas.


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