Porque é que a economia chinesa não cai (I)

A teoria económica ocidental de pouco serve quando aplicada à China.

Na semana passada foi publicada uma sondagem levada a cabo por uma universidade chinesa que aponta para que o número de casas desocupadas na China já tenha ultrapassado os 50 milhões em 2018.

Este número não choca pela sua magnitude absoluta, mas sim pela proporção que representa da oferta total de casas na China: mais de 20% da oferta total de casas está desocupada. Segundo a universidade que conduziu a sondagem, não existe nenhum outro país com uma taxa de desocupação tão alta. A título de exemplo, nos EUA a taxa de desocupação é de 12,7% e no Japão é de 13,5%.

Esta notícia vem juntar-se a uma lista de alertas que cresce de ano para ano, já há vários anos. A China desempenhou um papel importante para a economia global durante a grande crise financeira de 2008, ao avançar com massivos programas de estímulo económico que transbordaram um pouco para todo o mundo, dando um exemplo de robustez e pujança económica numa fase em que a economia ocidental se encontrava de rastos. Mas mais de dez anos depois as evidências que continuam a surgir vão revelando as fraquezas do modelo económico chinês.

A crise financeira global de 2008 iniciou na China um ciclo de endividamento do qual a economia parece ter ficado crescentemente dependente. Essa dependência foi sendo gerida – ou empurrada com a barriga – ao longo de quase uma década, e só recentemente é que as autoridades chinesas reconheceram os seus riscos, resolvendo começar a enfrentá-los.

Algumas notícias que vão surgindo da economia chinesa são assustadoras para o investidor ocidental, habituado às dinâmicas das economias de mercado. Se certa economia se endivida a um ritmo demasiado rápido, normalmente as taxas de juro do mercado de crédito sobem. Se mais de 20% do mercado imobiliário residencial está desocupado, é natural que os preços das casas arrefeçam. Se o principal índice do mercado accionista cai mais de 25% em menos de um ano, é bastante provável que o crescimento económico abrande.

Esta teoria económica aplicar-se-ia na prática no mundo ocidental, onde as economias funcionam em grande medida em mercado livre. Mas a China não tem uma economia de mercado… Na China, entre 30% a 40% do PIB é gerado por empresas detidas pelo Estado, que empregam cerca de 20% da população chinesa. Mais importante ainda, a maior parte do sector financeiro é detido pelo Estado e gerido com os interesses do Governo como principal prioridade.

Este controlo do sistema financeiro e a ausência da realidade de mercado a que estamos habituados, leva a que os desequilíbrios económicos sejam arrastados durante bastante mais tempo do que o que seria possível em economias de mercado. Com a consequência de que os desequilíbrios e as consequências destes se tornem proporcionalmente maiores…

Para perceber quando é que estes desequilíbrios se traduzem em consequências numa economia como a chinesa, de pouco nos vale olhar para a teoria económica ocidental. É mais útil olhar para outros casos, de economias centralizadas, e daí extrair pistas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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