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Portugal vai enterrar a poluição debaixo do fundo do mar

A ideia é capturar a poluição nas cimenteiras, transportar por gasoduto e injetar no fundo do mar. Já há planos para um projeto-piloto ao largo da Figueira da Foz em 2030.
@Pixabay
24 Janeiro 2026, 09h01

Parece algo que saiu da cabeça de Júlio Verne ao melhor estilo das ’20 mil léguas submarinas’, mas há um plano para enterrar poluição no fundo do mar.

Sim, é isso mesmo. A indústria cimenteira prevê investir mais de 2,2 mil milhões de euros nos próximos 20 anos em Portugal com o objetivo de armazenar carbono no oceano Atlântico ao largo da costa portuguesa.

A ideia é construir uma rede de gasodutos com 680 km para ligar as seis fábricas de cimento do país (Souselas, Alhandra e Loulé, da Cimpor; Maceira, Pataias e Outão, da Secil) para capturar a poluição e transportá-la para o local onde será injetada no fundo do mar.

O investimento para a rede de transporte e armazenamento atinge os 2,2 mil milhões de euros, um investimento privado, ficando a cargo do operador escolhido.

Já as fábricas de cimento ficam responsáveis por investir na tecnologia de captura, com 200 a 300 milhões de euros de investimento estimado por fábrica de cimento, conclui o estudo da ATIC – Associação Portuguesa de Cimento.

“Já não temos muito tempo para implementar esta solução. Já estamos a começar tarde.  A descarbonização implica implementar a captura e o armazenamento de carbono. As licenças terminam até 2040, depois não será possível continuar a emitir”, disse na sexta-feira a secretária-geral da ATIC Cecília Meireles durante a apresentação do estudo em Lisboa.

E onde armazenar esta poluição toda? No fundo do mar, ao largo da costa portuguesa.

O estudo aponta para a Bacia Lusitânica como uma “potencial solução de armazenamento offshore”, que cobre 20 mil km2 ao longo de 200 km na costa portuguesa.

O plano é arrancar com um projeto-piloto 22 km ao largo da Figueira da Foz em 2030, num investimento previsto de 95 milhões de euros.

Depois, construir nove poços para injetar CO2 e construir 620 km de gasodutos até 2035. Até esta etapa serão investidos 1.700 milhões de euros. Só depois arranca a fase de expansão com mais seis poços e 70 km de gasodutos e o restante investimento.

E isto vai ter impacto no preço do cimento? A ATIC conclui que “terá um impacto residual de 2% a 4% no custo da construção”.

A capacidade mínima de armazenamento atinge os 90 milhões de toneladas de CO2, podendo ir até às 300 milhões de toneladas.

O documento destaca a “elevada qualidade de informação disponível e conhecimento do reservatório prospetivo”; as “características adequadas”, como a baixa atividade sísmica e condições de armazenamento “adequadas”.

A operação desta rede ficaria a cargo de um operador privado com base numa concessão a 35 anos.

E nem é nada de novo, pois já existem projetos semelhantes noutros países, como o projeto Sleipner na Noruega, onde a petrolífera Equinor separa o CO2 do gás natural, após a sua extração, desde 1996. Depois, enterra-no a mais de 800 metros do fundo do mar, com mais de 19 milhões de toneladas de CO2 armazenadas até hoje. Ou o projeto Brevik CCS também na Noruega, mais recente, que captura o CO2 da cimenteira Heildelberg.

Mas porquê este plano para enterrar o carbono?

Portugal e a União Europeia têm o objetivo de descarbonizar a 100% até 2050. A partir de 2040, serão eliminadas as licenças de emissões poluentes, com a produção de cimento a ser proibida a partir daqui na UE.

Um cenário de fim de produção de cimento na Europa, acarreta vários problemas, incluindo uma “diminuição considerável do PIB e do emprego”, aumentando também os riscos da “cadeia de abastecimento e a dependência externa”.

A indústria cimenteira nacional diz que já investiu 200 milhões de euros com o objetivo de aumentar a eficiência dos fornos de clínquer, a substituição do gás natural por eletricidade e hidrogénio verde, o uso de eletricidade renovável. Até 2030, o objetivo é continuar a investir 500 milhões para reduzir emissões.

Talvez os mais distraídos perguntem porque é que o mundo precisa de cimento… A resposta é simples: não foi descoberto nenhum material até hoje tão duradouro como o cimento, que permite que as estruturas durem entre 60 a 120 anos, superando o aço e a madeira em termos de resistência a catástrofes.

É fundamental para construir infraestruturas essenciais como estradas, pontes, caminhos-de-ferro, portos, hospitais, saneamento ou energias renováveis.

A indústria nacional produz 5,5 milhões de toneladas de cimento por ano, com 60% da produção a destinar-se ao mercado interno.

O que vale esta indústria: 3 mil milhões de euros de valor acrescentado bruto entre 2005-2020, gerando 5 mil postos de trabalho diretos e indiretos, com um impacto de 1,8 mil milhões de euros na balança comercial entre 2005-2020. Por cada euro gerado pela indústria, tem um efeito multiplicador de 3 euros na economia nacional, destaca a ATIC.

Contudo, é uma indústria poluente, sendo responsável por 6% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. É um dos 3 principais emissores industriais, a par do aço e dos químicos. Os setores com emissões ‘duras de abater’, como o cimenteiro, pesam 8% do total de emissões de CO2.

A ATIC explica que a indústria cimenteira é “única”, pois a maioria das emissões poluentes “não são causadas pela utilização de energia proveniente da combustão de combustíveis, mas sim de matérias-primas que reagem e libertam CO2″. Do total, 60% das emissões de CO2 do setor são libertados diretamente da calcinação de calcário num forno”.

A ATIC pede assim ao Estado para “coordenar várias entidades publicas para apoiar eficazmente a implementação de CCS” para “garantir trabalho conjunto com indústria e operador para acelerar o desenvolvimento da infraestrutura”.

 


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