Parece algo que saiu da cabeça de Júlio Verne ao melhor estilo das ’20 mil léguas submarinas’, mas há um plano para enterrar poluição no fundo do mar.
Sim, é isso mesmo. A indústria cimenteira prevê investir mais de 2,2 mil milhões de euros nos próximos 20 anos em Portugal com o objetivo de armazenar carbono no oceano Atlântico ao largo da costa portuguesa.
A ideia é construir uma rede de gasodutos com 680 km para ligar as seis fábricas de cimento do país (Souselas, Alhandra e Loulé, da Cimpor; Maceira, Pataias e Outão, da Secil) para capturar a poluição e transportá-la para o local onde será injetada no fundo do mar.
O investimento para a rede de transporte e armazenamento atinge os 2,2 mil milhões de euros, um investimento privado, ficando a cargo do operador escolhido.
Já as fábricas de cimento ficam responsáveis por investir na tecnologia de captura, com 200 a 300 milhões de euros de investimento estimado por fábrica de cimento, conclui o estudo da ATIC – Associação Portuguesa de Cimento.
“Já não temos muito tempo para implementar esta solução. Já estamos a começar tarde. A descarbonização implica implementar a captura e o armazenamento de carbono. As licenças terminam até 2040, depois não será possível continuar a emitir”, disse na sexta-feira a secretária-geral da ATIC Cecília Meireles durante a apresentação do estudo em Lisboa.
E onde armazenar esta poluição toda? No fundo do mar, ao largo da costa portuguesa.
O estudo aponta para a Bacia Lusitânica como uma “potencial solução de armazenamento offshore”, que cobre 20 mil km2 ao longo de 200 km na costa portuguesa.
O plano é arrancar com um projeto-piloto 22 km ao largo da Figueira da Foz em 2030, num investimento previsto de 95 milhões de euros.
Depois, construir nove poços para injetar CO2 e construir 620 km de gasodutos até 2035. Até esta etapa serão investidos 1.700 milhões de euros. Só depois arranca a fase de expansão com mais seis poços e 70 km de gasodutos e o restante investimento.
E isto vai ter impacto no preço do cimento? A ATIC conclui que “terá um impacto residual de 2% a 4% no custo da construção”.
A capacidade mínima de armazenamento atinge os 90 milhões de toneladas de CO2, podendo ir até às 300 milhões de toneladas.
O documento destaca a “elevada qualidade de informação disponível e conhecimento do reservatório prospetivo”; as “características adequadas”, como a baixa atividade sísmica e condições de armazenamento “adequadas”.
A operação desta rede ficaria a cargo de um operador privado com base numa concessão a 35 anos.
E nem é nada de novo, pois já existem projetos semelhantes noutros países, como o projeto Sleipner na Noruega, onde a petrolífera Equinor separa o CO2 do gás natural, após a sua extração, desde 1996. Depois, enterra-no a mais de 800 metros do fundo do mar, com mais de 19 milhões de toneladas de CO2 armazenadas até hoje. Ou o projeto Brevik CCS também na Noruega, mais recente, que captura o CO2 da cimenteira Heildelberg.
Mas porquê este plano para enterrar o carbono?
Portugal e a União Europeia têm o objetivo de descarbonizar a 100% até 2050. A partir de 2040, serão eliminadas as licenças de emissões poluentes, com a produção de cimento a ser proibida a partir daqui na UE.
Um cenário de fim de produção de cimento na Europa, acarreta vários problemas, incluindo uma “diminuição considerável do PIB e do emprego”, aumentando também os riscos da “cadeia de abastecimento e a dependência externa”.
A indústria cimenteira nacional diz que já investiu 200 milhões de euros com o objetivo de aumentar a eficiência dos fornos de clínquer, a substituição do gás natural por eletricidade e hidrogénio verde, o uso de eletricidade renovável. Até 2030, o objetivo é continuar a investir 500 milhões para reduzir emissões.
Talvez os mais distraídos perguntem porque é que o mundo precisa de cimento… A resposta é simples: não foi descoberto nenhum material até hoje tão duradouro como o cimento, que permite que as estruturas durem entre 60 a 120 anos, superando o aço e a madeira em termos de resistência a catástrofes.
É fundamental para construir infraestruturas essenciais como estradas, pontes, caminhos-de-ferro, portos, hospitais, saneamento ou energias renováveis.
A indústria nacional produz 5,5 milhões de toneladas de cimento por ano, com 60% da produção a destinar-se ao mercado interno.
O que vale esta indústria: 3 mil milhões de euros de valor acrescentado bruto entre 2005-2020, gerando 5 mil postos de trabalho diretos e indiretos, com um impacto de 1,8 mil milhões de euros na balança comercial entre 2005-2020. Por cada euro gerado pela indústria, tem um efeito multiplicador de 3 euros na economia nacional, destaca a ATIC.
Contudo, é uma indústria poluente, sendo responsável por 6% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. É um dos 3 principais emissores industriais, a par do aço e dos químicos. Os setores com emissões ‘duras de abater’, como o cimenteiro, pesam 8% do total de emissões de CO2.
A ATIC explica que a indústria cimenteira é “única”, pois a maioria das emissões poluentes “não são causadas pela utilização de energia proveniente da combustão de combustíveis, mas sim de matérias-primas que reagem e libertam CO2″. Do total, 60% das emissões de CO2 do setor são libertados diretamente da calcinação de calcário num forno”.
A ATIC pede assim ao Estado para “coordenar várias entidades publicas para apoiar eficazmente a implementação de CCS” para “garantir trabalho conjunto com indústria e operador para acelerar o desenvolvimento da infraestrutura”.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com