Preço do petróleo: o efeito colateral de uma guerra de potências

Irão e Arábia Saudita querem ascender à posição de potência regional. Os Estados Unidos e a sua política de amizades são uma interferência tradicional num conflito onde há um terceiro interessado: a Turquia. Os clientes do petróleo é que pagam.

Os efeitos que qualquer conflito que ocorra no Médio Oriente tem sobre os preços mundiais do petróleo é uma decorrência da proximidade geográfica, mas reduzir a guerra civil do Iémen a uma questão sobre quem lança mão a mais um punhado (pequeno) de poços seria um erro de principiante.

Também não será preciso ir à raiz do conflito: 632 (ano 10 da Hégira) o ano do desaparecimento do profeta Mohammad (que o Ocidente costuma chamar Maomé, o que irrita profundamente os muçulmanos), substituído por Abú-Bakr, o primeiro califa. Ora, é a partir daqui que se dão as grandes divisões no seio da religião muçulmana: os sunitas consideraram boa a decisão de Mohammad ser substituído por este seu discípulo próximo, mas o xiitas (como aliás os kharidjitas, que se perderam na história, havendo apenas umas reminiscências algures no Islão africano) preferiam uma sucessão familiar com Ali, genro e sobrinho do profeta, casado com a sua filha Fátima – que viria a ser o quarto califa.

Em todos os séculos seguintes – e até hoje – esta divisão transformou-se numa questão política e de poder (em larga medida à semelhança da divisão entre cristãos de Roma e cristãos de Constantinopla – ou entre a igreja Católica Romana e a igreja Ortodoxa – que começou por causa de uma discussão sobre a consubstancialidade de Jesus e acabou numa luta entre as duas maiores cidades de então).

E é essa questão que se consubstancia no conflito entre o mundo sunita, liderado pela Arábia Saudita, e o mundo xiita, desde sempre acantonado no Irão (e espalhado ao Iraque e ao Iémen) – mesmo na altura em que Genghis Khan por lá andou e tudo destruiu, tendo poupado a Península Arábica, porque o que queria era chegar ao Mediterrâneo – o Ocidente, poupado às suas enormes maldades, ficará sempre a dever este favor aos xiitas, que serviram de ‘tampão’ ao perigoso mongol.

O conflito entre os dois mundos calou-se no tempo em que o Irão era liderado pelo Xá da Pérsia, Reza Pahlavi – nessa altura, Estados Unidos e Ocidente viviam no melhor dos mundos: tinham governos aliados tanto na Pérsia como na Arábia Saudita, e o conflito entre ambos seria quando muito uma questão de gabinetes.

Mas, depois da revolução protagonizada pelo Aitolá Khomeini (em 1979), tudo mudou. Os Estados Unidos mantiveram o apoio à Arábia Saudita, o que levou a que o país árabe entrasse rapidamente na lista dos inimigos da revolução iraniana, dita xiita pelo seu próprio líder.

Pouco tempo depois, as coisas pioraram: em Israel, o chamado sionismo socialista (de David Bem-Gurion), chegava ao fim e, a partir precisamente do mesmo ano, 1979, a direita (protagonizada pelo Likud, partido atualmente liderado por Benjamin Netanyahu) chegou pela primeira vez ao poder. Ora, os Estados Unidos rapidamente encontraram ali mais um aliado, o que fez avolumar a lista de inimigos do Irão.

A história do Médio Oriente a partir daí é uma consequência desta conjugação ‘maligna’ de forças em confrontação. Com o sunismo e o xiismo a servirem de ‘capa’, o que está ali em causa é o controlo geográfico por uma das duas potências regionais.

Só para complicar, e pelo menos desde há dez anos, a Turquia (que liderou o mundo muçulmano ao longo de vários séculos e bem mais profundamente que os sauditas) também tem pretensões à mesma posição. O que, de algum modo, até terá, do ponto de vista geopolítico, ajudado: um terceiro protagonista, dizem alguns, é uma forma de controlar a belicosidade dos dois restantes, introduzindo alguma moderação e a necessidade de contemporizar e de dialogar no seio de um conflito que, de outra forma, já poderia ter chegado a vias de facto.

A Turquia tem sido o elemento mais ‘duvidoso’: ora procurando o consenso com a Casa Branca, ora repudiando-o (principalmente por causa da questão dos curdos), Ancara baralha uma situação já de si difícil de antecipar.

Como não podia deixar de ser, toda a situação teria necessariamente que agudizar-se a partir do momento em que Donald Trump decidiu rasgar o acordo nuclear firmado entre Teerão e o Ocidente. Com a economia a desacelerar e as saídas do seu petróleo crescentemente bloqueadas, o Irão haveria necessariamente de ripostar.

Para os analistas, o próximo passo a caminho do desastre seria o colapso total do acordo nuclear. É por isso que, dizem, a União Europeia tem aqui uma posição relevante: tendo considerado desde sempre ser completamente infundada a argumentação usada pela Casa Branca para sair do acordo, está nas suas mãos mantê-lo, se realmente se der o caso de ser a fronteira entre os desentendimentos de palavras e a guerra aberta entre Irão e Arábia Saudita.

Ler mais
Recomendadas

“As pessoas têm medo, até de um simples aperto de mão”. Portuguesa em Itália conta como se lida com o coronavírus

“Na zona de Milão, os supermercados estão completamente vazios e não se encontra máscaras de proteção facial em lado nenhum”, relata ao JE uma jornalista portuguesa que reside na zona da Toscana, perto de Bolonha, região onde, para já, tudo está tranquilo no que diz respeito a casos de coronavírus.

Covid-19: Irão “nega categoricamente” notícias sobre 50 mortes

“Nego categoricamente essa informação” disse à imprensa o vice-ministro da Saúde, Iraj Harirtchi, sobre a informação avançada pelo deputado Ahmad Amirabadi Farahani, que acusou o governo de Teerão de “mentir ao povo”.

Trump vai vender 2,7 mil milhões de euros em helicópteros militares à Índia

A visita do líder norte-americano acontece depois de um ano de atritos comerciais entre os dois países, com a imposição de taxas mútuas e a decisão dos Estados Unidos de retirar a Índia, a partir de junho passado, do Sistema de Preferências Generalizadas, que proporciona reduções tarifárias em vários produtos.
Comentários