Preços médios na hotelaria nacional cresceram 35% em quatro anos

Empresários admitem que os preços médios no mercado nacional não vão continuar a subir e que haverá um “retrocesso” nos valores praticados em várias regiões. Lisboa deve estagnar. Mas o Porto crescerá

Quem analisar a evolução das receitas turísticas portuguesas compiladas pelo Banco de Portugal entre 2010 e 2018 não duvidará que o turismo nacional é um caso de sucesso. Mas esta verdade encerra divergências de análise sobre o crescimento em causa que implicam algumas explicações. Senão, vejamos o teor do crescimento: em 2010 o banco central registava na rubrica “Viagens e Turismo” da Balança de Pagamentos o montante de 7.601 milhões de euros que, daí para a frente, aumentou todos os anos, “saltando” dos 8.605 milhões de euros, em 2012, para praticamente duplicar seis anos depois, em 2018, com 16.613 milhões de euros. Melhor seria difícil. No sector, os empresários consideram esta evolução muito favorável, mas garantem que nem tudo é o que parece.

Também é inegável que poucos sectores da actividade económica portuguesa apresentam um desempenho semelhante. Assim, Mário Azevedo Ferreira, presidente executivo do Grupo NAU Hotels & Resorts, explicou ao Jornal Económico que “uma parte deste crescimento está relacionada com a alteração dos critérios contabilísticos aplicados às receitas do sector nas estatísticas do Banco de Portugal”.

“O crescimento das receitas é superior à variação do número de noites dormidas, porque a evolução dos preços médios foi significativa”, diz. “Esta realidade também não é igual em todo o território nacional, porque há muitas diferenças a nível regional”, adianta Mário Ferreira.

Para este enquadramento de sucesso foi decisiva a oferta dos voos low cost e o desenvolvimento dado aos principais aeroportos do continente, Porto, Lisboa e Faro. Também foi relevante a qualidade dos novos projetos hoteleiros e a dinamização que as próprias cidades tiveram do ponto de vista urbanístico e nas atividades culturais.

Porém, é difícil manter condições ideais de crescimento com um nível de elasticidade infinito. Isto quer dizer que do lado das infraestruturas aeroportuárias, “Lisboa esgotou a capacidade de captar um número ainda maior de voos porque o nível de saturação que estava previsto para o horizonte de 2022 a 2024 já foi atingido pelo Aeroporto Humberto Delgado em 2018”, comenta o CEO do Grupo NAU. “Apesar de Lisboa continuar a ter toda a atratividade da sua oferta turística, com boas unidades hoteleiras, uma gastronomia reconhecida e com excelente preço e, além disso, continuando a ser uma cidade segura, a verdade é que a capacidade do aeroporto local passou a ser uma limitação ao potencial de crescimento turístico do destino Lisboa”, refere o gestor.

Em sentido contrário, “o Porto passou a estar no mapa internacional do turismo, a cidade tem caraterísticas que a tornam num destino de referência e é servida por um aeroporto que ainda não esgotou, o que significa que a hotelaria e a restauração do Porto vão continuar a registar crescimentos nos mercados do turismo”, admite Mário Ferreira.

De 2014 a 2018, “a evolução favorável do mercado português induziu um aumento do preço médio praticado na hotelaria da ordem dos 35%”, admite a título pessoal o CEO do Grupo NAU, orientando-se pelos indicadores de gestão que utiliza na sua atividade profissional.

Peso nas exportações de serviços aumenta para 51,5%

Mas é um facto que os números oficiais do Turismo de Portugal refletem este crescimento atendendo a que o peso das receitas turísticas nas exportações de serviços aumentou para 51,5% em 2018, quando em 2017 foi de 50,1%, em 2016 foi de 47,4%, em 2015 esteve nos 45,5% e em 2014 foi de 44,4%.

O problema dos aeroportos – principal porta de entrada dos turistas em Portugal – é decisivo para entender de que forma poderão evoluir os mercados turísticos das cidades de Lisboa e Porto, do Douro, do Alentejo e do Algarve, bem como das ilhas, nas ofertas existentes da Madeira e nos Açores.

“A situação do Aeroporto Humberto Delgado em Lisboa é caótica”, diz explicitamente Mário Ferreira. “Sucedem-se os atrasos nos voos e é impossível conceder mais slots às companhias de aviação, o que significa que todo o potencial turístico de Lisboa não vai ser utilizado; este destino não será dinamizado para além daquilo que atualmente se faz; e, infelizmente, enquanto não houver solução para  aumentar a capacidade do aeroporto da Portela e ter igualmente em funcionamento complementar a futura pista civil do aeroporto do Montijo, os problemas com o destino Lisboa vão continuar a ser sentidos”, teme o responsável do Grupo NAU.

Por via dos problemas que o Brexit vai induzir nos turistas ingleses, a Madeira e o Algarve “deverão registar retrocessos nos preços praticados, embora cada caso seja um caso e seja necessário ver como evolui a próxima época alta”, alerta o gestor.

“Ninguém negará que as tendências que os gestores aguardam são as da redução das taxas de ocupação e da redução dos preços praticados para o Algarve e para a Madeira, induzidas pelo comportamento dos mercados de origem ingleses e alemães, que agora regressam aos destinos do norte do Mediterrâneo porque deixaram de ser inseguros”, refere Mário Ferreira.

“A Tunísia, o Egito e a Turquia estão com taxas de crescimento de 40% ao ano, beneficiando de apoios estatais atribuídos às companhias de aviação para subídios aos bilhetes dos passageiros e também aos lugares vagos, o que não acontece nos países europeus que têm constrangimentos em matéria de ajudas estatais”, adianta.

Entre os aeroportos do continente, o Francisco Sá Carneiro no Porto não está congestionado e permitirá manter o crescimento da atividade turística, beneficiando o aumento das taxas de ocupação na Cidade Invicta, considera o CEO do Grupo NAU.

Sobre a polémica dos problemas relacionados com a utilização da base aérea do Montijo para fins civis e a eventual alternativa mais favorável na pista de Alverca, Mário Ferreira considera que “se continuarem a colocar entraves a qualquer projeto futuro, nunca mais será tomada uma decisão e o turismo será o grande prejudicado”.

“Há muitas cidades europeias que funcionam com vários aeroportos – Londres com seis e Paris com três -, pelo que Lisboa poderá perfeitamente ter mais de um aeroporto e salvaguardar a manutenção de um no centro da cidade, que será sempre uma mais-valia para o turismo da capital”, defende.

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